Minhas filhas estão prestes a completar um ano de idade e tendo eu me mudado de
Brampton pra Mississauga, e não sei por quanto tempo irei me quedar por aqui,
penso muito nas amizades que elas farão por aqui. Uma amizade pode ser
determinante no seu futuro, sendo pra bom ou pra ruim. Vim morar num complexo de
casas com muitas crianças, parquinho e bem tranquilo.
Julgo que cinquenta por
cento da personalidade de uma pessoa vem dos pais, da casa, da formação, dos
genes. Os outros cinquenta por cento vem da rua, dos amigos, dos colegas, das
pessoas com quem convivem. Por isso minha preocupação sobre onde estar para não
jogar minhas filhas pra conviverem com lixos humanos.
Usando minha própria
experiência, eu saía de casa carregando o que ouvia e observava dos meus pais,
porém era sempre confrontado com as ideias e expectativas dos amigos, que foram
criados em outra casa, com outros valores e experiências. Muitas vezes, você
sabe que tá fazendo algo errado mas não tem a personalidade de contrariar os
amigos ou por ventura algum elemento que possua uma certa liderança.
Com 13 anos
de idade, eu não podia adentrar em um festa. Mas só se falava nessas festas,
seja no colégio, na rua ou onde quer que fosse. Existia uma famosa festa chamada
Forró Classe A, na sede do América futebol clube. O ano era 1989, o mês era
abril. Eu estudava no Colégio das Neves. Era atleta de natação. Iria completar
14 anos de idade em junho. Nunca havia ido pra uma festa dessas e o bafafá era
grande nos corredores do colégio. Todos iriam estar nessa festa que iria
acontecer na sexta feira. Eu teria uma competição no sábado pela manhã, mas isso
pouco importava. O negócio era ir pra essa festa.
Recebi a informação dos mais
velhos que tinha gente na porta checando os documentos de identidade pra ver se
a pessoa era maior de 14 anos. Menor de 14 anos, nem pensar. E era justamente o
meu caso. Conversei Com meus pais pedindo pra ir pra festa. Eles não sabiam
dessa história dos 14 anos e disseram que se eu fosse com alguém da confiança
deles, não teria problema. Meu único empecilho era como entrar.
Então
conversando com algum gênio amigo meu, ele disse : retira o plástico da
identidade, pega uma Gillette, raspa o número 5 (do ano 1975, que nasci),
escreve um 4 no lugar e depois vai aqui no Alecrim (o colégio era nesse bairro)
e manda plastificar de novo. No escuro e com muitas identidades pra olhar, não
irão notar. Foi o que eu fiz. Tudo estava dando certo, mesmo eu sabendo que
estava tomando uma atitude errada e que meus pais não iriam aprovar.
Os
cinquenta por cento da rua venceram e segui com o plano. Estou deitado na minha
cama relaxando e vendo TV, entra minha mãe nervosa com a minha identidade
alterada. Que merda é essa aqui que você fez? Quis saber dona Popó!! Eu disse :
calma, véia, tá tudo certo. É só pra entrar na festa, que é preciso ter 14 anos
e não é justo que eu não vá porque a festa é em abril e não em junho!! Falei
cheio de razão. Ela disse pois em abril você não vai e vai comigo tirar uma
identidade nova que eu não tenho filho marginal pra tá falsificando carteira de
identidade!! Fiquei de castigo, levei ainda uns puxões de orelhas e umas
tapinhas e tive que esperar até junho pra ir.
Alguns amigos conseguiram ir,
fizeram chacota de mim, mas a vida seguiu sem maiores percalços. Algum tempo
depois, um rapaz estava em uma lanchonete da cidade. Chegou um sujeito num carro
com mais dois outros ocupantes. O dono do carro desceu e os outros dois ficaram
no carro. Não sei por qual motivo, iniciou uma confusão com o rapaz que estava
na lanchonete, desferiu um tiro e o matou. Houve o julgamento e os caras que
estavam no carro e não participaram da confusão foram também condenados como
cúmplices.
Não sei se a história foi realmente assim, não sei se os dois estavam
envolvidos ou não de alguma forma, só sei que meus pais usaram essa história pra
me mostrar o quão perigoso é você não andar com pessoas boas. E isso ficou
marcado na minha mente. Eles disseram : um desses dois que estavam no carro
poderia ser você e aí? Se um desses caras que você diz ser seu amigo matar uma
pessoa, você vai pra cadeia e nunca mais sai!!
Funcionou comigo. Depois disso,
eu me balizava por esse exemplo. Uma certa feita, em Pirangi praia, um conhecido
meu me chamou pra ajudá-lo a roubar umas rodas de um carro. Como assim? Roubar
as rodas de um carro? Puta que pariu, isso estava muito além dos meus planos.
Minha carreira de crime até então tinha sido somente falsificar uma identidade.
Ele precisaria de quatro caras no total, cada um pra roubar uma das rodas, tipo
num pit stop de formula um. Já tinha até o alvo.
Tinha mais dois amigos comigo,
que perguntaram quanto iriam ganhar com isso. Ele deu o valor, que era um
dinheiro na época. Os outros dois toparam e só faltava eu. Refleti por uns
segundos, pensei no meu pai, pensei na minha mãe, no meu avô Oliveira, na minha
rainha, minha avó Vanda, e disse, desafiante : vá tomar no cu que não sou
ladrão!!
Mas confesso que me balancei pra aceitar. Pelo valor que iria receber
pelo “trabalho” e também pela pressão dos outros três, que faziam aquele ato
criminoso parecer uma coisa banal. Nesse caso, a minha formação venceu e não fiz
a merda. Mas poderia facilmente não ter vencido e eu ter ido na onda daqueles
indivíduos e poderia ter dado uma merda enorme.
Por isso eu me preocupo sempre
com a questão das amizades. Se esses três caras estivessem querendo pescar em
vez de estarem querendo furtar rodas de carros, seria no mar que eu estaria e
não andando em beira de abismo. Às vezes, a formação não vence e o mal da rua
leva vantagem.
A única forma de minimizar essas probabilidades é observando quem
são os amigos dos seus filhos ou filhas. Eles podem ser a ruína ou a Glória dos
nossos rebentos. Chame pra sua casa, conheça os pais, converse com eles, saiba
os planos, as aspirações.
Observe de longe quando não está sendo notado. Se você
conseguir que seus filhos não tenham amizades destrutivas, já terá feito um
grande serviço. Se conseguir melhor ainda de ter amigos que os empurre pra cima,
aí você cumpriu sua missão na terra!! Que Deus proteja nossos filhotes.
Fabiano
Holanda, Maio de 2007,Mississauga, ON.
