Wednesday, 7 October 2020

Joab sem teto

Ainda no mesmo Congresso em Fortaleza, aprontamos outra com Joab. Quando o mesmo adormeceu embriagado, resolvemos colocá-lo no meio do pátio, que ficava no meio de várias salas de aula, que abrigavam várias delegações de Estados diferentes.

O gago tinha um sono pesado infernal e na tentativa de deixá-lo mais confortável, resolvemos levá-lo com colchão e tudo. Mas logo que saímos da porta, de tanto rir, Marcos Rapariga deixa o lado do colchao que carregava escorregar e lá vai o gago pro chao, de cara. Nao fiquei pra ver, mas tudo indicava que o mesmo havia quebrado pelo menos o nariz, pois a altura em que carregavamos o colchao era de pelo menos meio metro.

Nos escondemos e esperamos ele se levantar puto. Que nada. O homem só fez passar a perna em cima do colchao, se aninhando e voltou a dormir de novo, somente com a velha sunga azul fluorescente. Resolvemos continuar com a via crucis e levar o defunto pro pátio. No meio do caminho, um engraçadinho achando graça da primeira queda do gago, resolveu soltar o colchao de proposito e novamente lá vai o cadaver pro chao. E isso se repetiu ainda mais umas 3 vezes até o destino final, com o atenuante de que as quedas agora eram na areia, que apesar de serem mais macias, enchiam a cara do presunto de areia.

Fomos dormir e deixamos o morto lá no meio do terreiro, entre maconheiros e moças de familia. Como tambem estavamos em avançado estado de embriaguez, todo mundo adormeceu e se esqueceu de Joab. Um individuo da nossa delegação, que nao havia bebido, levantou-se cedo e avistando aquela cena grotesca, correu para acordar a galera. Todos pularam dos colchões e correram pra observar aquele triste espetaculo.

Devia ter umas cinquenta pessoas ao redor do rapaz, todas morrendo de rir. Joab e sua sunga, em posicao fetal, todo suado devido ao forte sol cearense, os oculos todo torto, a cara cheia de areia, babando e com uma mao na cabeça e outra no meio das pernas. E o desgraçado ainda roncava alto. A galera gritava: "Acorda, acorda!!!", e o gago rolava pro outro lado. Nós estavamos escondidos, evidentemente. Então quando ele acordou, como se nada tivesse acontecendo, e ainda na posição em que estava deitado, olhou de lado por cima do ombro e deu um sorriso que mesmo sem dizer nada, perguntava claramente: "que porra é essa? onde estou?".

Elegantemente, com um risinho no canto dos lábios, ajeitou os óculos, limpou o suor da testa com as costas das mãos, assoou a areia que entrava nas suas fuças e cuspiu tambem a areia que estava na sua boca, ajeitou a sunga, que nessa hora adentrava na bunda, parou novamente, deu uma olhada ao redor, outra risada, dessa vez mais forte, abaixou-se deixando sua retaguarda amplamente desprotegida, levantou o colchão, sacudiu a areia que nele estava, colocou o mesmo embaixo do braço e se retirou de cena debaixo de aplausos, caminhando lentamente por uns segundos e logo em seguida engatando um sprint pra dentro do quarto, em tempo de cair tropeçando no colchão, que teimava em atrapalhar sua corrida. 
 
Fabiano Holanda, Toronto, setembro de 2004. 

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