Friday, 13 November 2020

O preço do progresso

 

 

        Tanto se fala em progresso, em avanço tecnológico, em aumento da qualidade de vida, nisso e naquilo. Mas será mesmo que qualidade de vida está associada de verdade com progresso ou avanços tecnológicos? Há sempre alguns puristas que dizem que não.

 

É bem verdade que muita gente hoje em dia não sobreviveria sem um computador, sem uma internet, telefone, carro, água gelada e outras coisas mais. Mas será que somando aqui e subtraindo ali, no fim das contas, vivemos melhor ou pior do que os nossos avós?

 

Vejam o caso da pequena Beeton, situada na província de Ontário, no Canadá. Nessa cidadezinha, onde a atividade principal é a produção de mel (por isso o nome Bee Town, onde o “w” foi esquecido paulatinamente pela população), só existe um posto de gasolina. 

 

O dono desse posto, o senhor Doug, além de colocar gasolina nos carros, ainda troca óleo, freio e faz pequenos serviços há 13 anos, sendo ele um franqueado da empresa de petróleo canadense, a Petro-Canada.

 

Bem, o fato foi que a Petro-Canada vendeu a concessão do posto do Doug a uma outra empresa, que pretende abrir um novo posto de gasolina, desses modernos com loja de conveniência, lanchonete e bombas de gasolina self-service (como existem nas grandes cidades canadenses).

 

O curioso foi que 1,400 pessoas, dentro de uma cidade com 3,800 habitantes, colocaram seus nomes em um abaixo assinado propondo um boicote ao novo posto de gasolina, em solidariedade ao amigo Doug. Prometendo inclusive abastecerem seus carros na cidade mais próxima.

 

A população está injuriada e com razão. Doug saía a qualquer hora do dia ou da noite pra ajudar uma cidadã beetoniense que por acaso tivesse o pneu furado no meio da highway ou para salvar um outro honrado cidadão com seu carro quebrado à quilômetros de distancia. Na maioria das vezes, Doug ia até lá, rebocava o carro se preciso fosse, dava carona ao sujeito até sua casa, e no outro dia de manha cedinho, o carro já estava consertado. Sem dinheiro? Sem problemas, pague quando puder, dizia o Doug.

 

Dito isso, vale lembrar que Beeton tem também um hotel, chamado Muddy Water. Esse hotel um dia já foi um bordel. Quando anunciaram que o bordel iria acabar, os homens da cidades quase morreram.

 

Ficaram tristes, mas sobreviveram. Assim como, eles também irão sobreviver com o fim do posto do Doug e logo, logo irão esquecer e começar a abastecer no novo posto. Os cidadãos irão sobreviver, mas como no caso do bordel, Beeton nunca mais será a mesma.   

 

Evidentemente, a chegada do novo posto trará junto com ele a tão famosa modernidade e junto com a modernidade virão o aumento da população, a chegada de gente de fora com outros costumes, o aumento da criminalidade, portas começaram a passar noite trancadas, a inocência será perdida, brigas por vagas de empregos começarão, invejas, ganâncias, sacanagens, enfim, tudo o que se pode encontrar numa grande e moderna cidade.

 

A confiança nos outros se evaporará e precisarão de contratos para assegurar acordos, que por sua vez demandam advogados e quando estes começam a trabalhar, começam os litígios e... e...

 

Por fim, não sei se é a idade, mas cada vez me torno mais purista. E nem de longe eu penso que vivemos melhor do que nossos avós. Eles tinham qualidade de vida antes de começaram essa busca incessante por ela.

 

Como acontece na maioria das vezes, a humanidade fez tudo errado e estragou o que era bom. E felizes são os índios que nunca encontraram um sábio homem branco em seu caminho.

 

Fabiano H. Cavalcante, Brampton, Junho de 2006.



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