Thursday, 18 March 2021

Um ano de vida

 


É com imensa alegria, me sentindo formidável, agradecido à Deus, feliz ao extremo, que comemoro o primeiro de vida dos meus maiores tesouros, minhas filhas gêmeas Amanda e Luisa. Nasceram às 8:01 (Luisa) e 8:03 (Amanda) da manhã de 23 de junho de 2006, uma quente sexta-feira de verão. Nasceram no North York Hospital, em Toronto, localizado no 4001 da Leslie Street, em North York.


Nasceram pesando 1780 e 1940 gramas respectivamente e passaram 25 dias na UTI Neo-Natal até ganharem peso e poderem ir pra casa. Amanda porque nasceu um pouco maior, atravessou esse período sem maiores problemas e com uns dez dias já podia ir pra casa, mas o médico achou que seria melhor pra todos que elas fossem embora juntas e então Amanda ficou esperando a irmã pra poder ir.


No dia 1 de julho, eu estava do lado de fora da UTI, sentado tranquilamente assistindo ao jogo entra Brasil e França, que jogavam as quartas de final da Copa do Mundo. Acabou o primeiro tempo zero a zero e fui dar uma olhada nas meninas. Primeiro fui na incubadora de Amanda e ela estava olhando pra cima com cara de feliz. Brinquei com ela e observei que uma enfermeira passou pra trocar a fralda de Luisa. Resolvi ir acompanhar.


Quando eu chego na incubadora de Luisa, observo que a enfermeira segura e a coloca sentada pra tirar os elásticos da fralda. Eu notei então que Luisa não tinha movimento nenhum. Os braços arriados, os olhos fechados e o pescoço pendurado, como se vida não tivesse. Eu pedi a enfermeira pra olhar o que estava acontecendo com minha filha. Ela disse que tudo estava bem e que eu me acalmasse. Olhei pro monitor e vi a oxigenação caindo, assim como os batimentos cardíacos. Minha filha estava desmaiada. Eu entrei no modo desespero.


Comecei a gritar e dar porrada na incubadora e dizer que a menina iria morrer, que ela fizesse algo. Ela disse que eu estava agitado e que deveria me retirar da UTI pois estava perturbando as outras crianças, que ela sabia o que estava fazendo, que era uma registered nurse com muitos anos de experiência. Eu disse que não iria sair daquela merda enquanto um médico não visse minha filha e que se ela não fizesse isso e algo acontecesse com minha filha, eu iria matá-la com minhas próprias mãos. Uma outra enfermeira chamada Carol correu pra saber o que estava acontecendo e eu disse minha filha tá morrendo e essa imbecil diz que tá tudo bem.


Quando a Carol pegou em Luisa e sentiu que ela não tinha movimentos, começou a gritar por ajuda e em poucos segundos começaram os auto-falantes do hospital a ecoar: “Code pink, code pink, code pink”. Eu não acreditava no que estava acontecendo, parecia que estava dentro de um filme de horror. Com muito esforço me afastaram da incubadora e em poucos segundos chega uma equipe de vários médicos, máquinas, e tive que ser retirado de lá. Fui pra onde estava antes e vi o Brasil levando um gol. Nunca uma copa teve tão pouca importância pra mim.


Pouco tempo depois, vejo o Doutor J.J. Govan, um sorridente médico indiano, que viria a ser o pedriatra das meninas. Com o sorriso no rosto, ele me explicou o que estava acontecendo. Uma bactéria que ele ainda não sabia qual havia entrado no corpo de Luisa através de uma ferida do soro e que tinha afetado diretamente o coração dela e que havia tido um Cardiac Arrest, mas que ele já havia dado um medicamento abrangente contra a bactéria e que estava controlado, mas que com a volta do exame, ele daria o remédio específico pra bactéria quando descobrissem qual era.


Fui lá e vi que Luisa estava dormindo, mas respirando normalmente. Logo o doutor Govan voltou com o resultado do exame e passou a medicação necessária. Tudo foi resolvido. Até o dia 18 de julho quando as meninas receberam alta, eu não tive o desprazer de encontrar com a enfermeira que por negligencia ou imperícia iria deixar minha filha morrer. Meu disse um dia que eu era irascível. Minha irascibilidade salvou minha filha. Louvado seja.


Foi um ano de muitas fraldas, muitas fórmulas, noites sem dormir, muita esterelização de mamadeira, muita luta mas muita recompensa. Perto do final do ano recebi a visita do meu amigo Segundo. Ele trouxe com ele duas caixas de fraldas gigantes. Ele veio conhecer as meninas. Tomamos quase dois litros de vodka e ele voltou pra Toronto. Foi a útima vez que o vi. Uma despedida feliz, felizmente!


O inverno chegou e descobri que minha capacidade de sentir nojo desapareceu. Trocar fraldas era comigo, isso já tinha se tornado normal. Mas em dezembro Amanda pegou uma gripe e estava com o nariz entupido. Não conseguia respirar e vi a agonia dela. Tentei de toda forma desentupir o nariz dela sem sucesso. Foi quando tive a idéia de sugar o catarro com a boca. Veio aquela porra pegajosa direto na minha garganta e corri pra cuspir. Quando voltei e vi o alívio no rosto dela, pensei até que o catarro tinha gosto bom.


Comecei um contrato com a Atomic Energy of Canada em janeiro, embora tenha tomado posse do prédio no dia 26 de dezembro de 2006. Inclusive a concessão desse contrato foi fundamental pra minha permanencia no Canadá. Com dificuldades financeiras em novembro de 2006, o plano era ir embora pro Brasil. Como iria ter que ir pra cerimonia de cidadania canadense em janeiro de 2006, o plano seria ir embora logo em seguida. Mas fui agraciado com esse contrato e tudo mudou. Eu tinha um Hyundai Accent vermelho, ano 1997. Não achei que era um bom carro pra pegar minhas filhas no hospital. Comprei uma Dodge Caravan prata, ano 2002. Vim do hospital pra casa com 20 km/h, com medo delas se machucarem no trajeto. Fui até numa delegacia pedir ajuda à um policial pra colocar os assentos de maneira correta no carro.


Mês passado quando fui fazer a mudança, coloquei-as no carrinho e deixei na garagem enquanto eu ia enchendo o caminhão. Me ajudaram a não cansar somente rindo pra mim toda vida que eu olhava pra elas.


Obrigado Deus por estes dois presentes tão especiais.


Fabiano Holanda, Junho de 2007,Mississauga, ON.

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