Tuesday, 6 October 2020

Au revoir, Québec!

 

A gratidão perfuma as grandes almas e azeda as almas pequenas. ”


Honoré de Balzac


Um dia estava bebendo com uns amigos e ouvi uma frase de um dos convivas. Ele dizia: “Você deveria ser mais agradecido ao Quebec por ter te dado tudo o que você tem”. Eu respondi: “O Quebec não me deu porra nenhuma, pelo contrário, eu contribui com meu dinheiro pro aluguel, consumo e mensalidade da universidade!”.


Ah, quão ingrato eu estava sendo! O Quebec me deu muita coisa, embora nada relacionado ao que aquele sujeito falava. O Quebec me deu a porta de abertura ao mundo, um mundo inteiramente diferente e maior do que o meu. O Quebec me deu um abestalhamento, um extase em me ver jogado ali no meio daquelas feras, que falavam diferente de mim, uma verdadeira Torre de Babel.


Eu não havia me tocado da dureza que iria ser minha viagem ao Quebec. Eu e meu amigo Gustavo Zumel chegamos em 31 de dezembro de 1999, no voo do “Bug do Milenio”. Poucas horas antes da virada de ano pra 2000. A quantidade absurda de neve não deixava dúvidas de que aquilo ali não era brincadeira. Pegamos um taxi pra rua Cotes-des-neiges, pra um hotel chamado Terrasse Royale.


No caminho, ao lado direito, vimos o gigante Oratoire St-Joseph, com toda sua imponencia e luzes. Me senti como João de Santo Cristo na música Faroeste Caboclo e pensei: “Meu Deus, mas que cidade linda...”


Eu tinha 24 anos de idade mas parecia que tinha uns 5, maravilhado com tudo que via. Foi uma epopéia até encontrarmos um lugar pra morar. Como assim? Alugar um apartamento era tão difícil assim? Eu pensava que era só assinar um contrato e pronto... Bem-vindo à vida adulta!


Depois de duas semanas e ajudas diversas, conseguimos o contato com o Padre Pierre. Tratava-se de um canadense que estudava portugues na Universidade UQAM e que era padre de onde? Isso mesmo, do próprio Oratório St-Joseph!


Ele alugava quartos na casa da Igreja, que não era na própria igreja e sim na região do metrô Jean Talon. O custo era 300 dólares mensais, incluindo tudo o que conseguissemos comer. O preço era uma pechincha e quando o padre ia pro Oratório de manhã, ainda nos dava uma carona pra Universidade de Montreal, no prédio da Avenida Decelles, onde tinhamos aulas intensivas de francês.


No Quebec aprendi a sobreviver longe da minha casa, aprendi uma nova língua, aprendi a conviver com o frio ártico dessas bandas, aprendi o que era separatismo, estudei em uma universidade de língua francesa, à nível de mestrado… aprendi muita coisa… pode-se dizer que o Québec foi um divisor de águas na minha vida, onde deixei pra trás qualquer resquício de adolescência.. Fechou a tampa, um pouco tardio, mas fechou...


Foi através do Quebec que consegui minha residência permanente no Canadá, mas foi também no Quebec que eu vi que o mar não estava pra peixe e o melhor seria armar minha vara em outras paragens. Com o curso de mestrado chegando ao fim, me enviaram um formulário indagando que se eu tivesse interesse em imigrar pro Canadá, poderia pagar as taxas e enviar aqueles formulários pro governo do Quebec e depois pro governo federal. Com toda a tramitação feita, minha aplicação foi aceita e me tornei um landed immigrant no Quebec. Minha entrevista foi feita por telefone, na época eu estava morando na casa da meu amigo Daniel Gazzoni, em Cambridge, Massachussetts. Tudo tinha dado certo...


Só me faltava agora encontrar um modo de vida. Corri pro quadro de empregos da universidade e lá vejo uma vaga pra trabalhar no night shift da McKesson, uma grande empresa de logística. Pensei que ótimo, vou pra seleção. Primeira decepção, não era nenhum cargo executivo, mas fazer scanner das mercadorias que voltavam com problemas e colocar na prateleira adequada. Grande bosta, pensei!! Mas vou ficar por aqui até aparecer algo melhor, pelo menos já é um dinheiro entrando.


Depois de umas duas semanas nesse rojão, o supervisor, um quebecois que não tinha nenhum dente na boca, disse que eu não dava certo pro trabalho e que estava me despedindo. Nessa altura eu já estava de saco cheio, pois havia aplicado pra mais de cem empregos e nada e resolvi ir embora do Quebec. Fui expulso por mim mesmo.


Uns amigos do mestrado me aconselharam a trocar meu nome, colocar um nome quebecois no resumé e só depois quando fosse chamado pra entrevista, revelar o meu verdadeiro nome, pois se nao tem nome quebecois, nem pra entrevista é chamado. Não quis. Preferi dar linha na pipa.


Eu quero novos ares e passar pra uma próxima fase. E será na província de Ontario que irei tentar. Dizem que Montréal é o Rio de Janeiro e Toronto é São Paulo... nao serei então o primeiro nordestino a tentar a sorte na paulicéia desvairada, mesmo que seja a canadense...


Além de morar na casa da igreja perto do metrô Jean Talon, morei também na casa do amigo Celso Mirres por um mês, perto do metrô Rosemont, também aluguei um apartamento ao amigo Andre Boulais, que me dava uns empregos de vez em quando, no Boulevard Decarie, em NDG e por fim morei em Verdun, na casa dos meus amigos Mario Morin e Lu, ele quebecois que fala português e ela de Natal.


Deixo aqui em Montréal mais ou menos organizados o meu irmão Fábio, que veio dar aulas de Jiu Jitsu e fica com minha casa em Verdun e minha irmã Fernanda, que já se vira bem tanto na cidade, quanto nos trabalhos, quanto nos idiomas.


Que venha Ontário, que venha o idioma inglês, pois até agora eu só aprendi o francês e o espanhol. Desafios novos pra esses meus quase completos 29 anos de idade. Espero virar os 30 por aquelas bandas!!


Escrito em Montréal, em Maio de 2004.

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