Tuesday, 6 October 2020

Tirando um peso dos ombros


É um dom ser capaz de reconhecer, de um só golpe de vista, as possibilidades do terreno..”

Napoleão Bonaparte

Sou compelido a pensar na função especial de cada indivíduo nessa vida. Imagino Michael Jordan tentando ser um jóquei que desastre seria. Um sujeito daquele tamanho em cima de um pobre animal. Seria o supra sumo da falta de noção e mais ainda, uma tola escolha que resultaria num desperdício incrível daquele que foi o maior jogador de basquete de todos os tempos.

Refletindo sobre isso, tenho me perguntado qual seria minha função no mundo. E acho que a maioria das pessoas tem o mesmo questionamento. Quando se é criança, ou pelo menos quando eu era criança, minha única preocupação era obter as notas exigidas na escola e terminar as tarefas de casa pra poder ir pra rua brincar com meus amigos. Ah, e continuar um atleta de ponta na minha equipe de natação, pois eu gostava muito das viagens de competição.

Não havia dúvida de que isso era o meu único caminho. E quando não há dúvida, fazemos isso como uma flecha partindo ao alvo, sem questionar. As melhores músicas, dizia John Lennon, são feitas com poucas notas. Mais ou menos isso.

Chegou a adolescência e o caminho que eu achava natural era o mesmo que o dos meus pares. Continuar a tirar notas para passar, arrumar dinheiro pra ir para as festas no lugar de brincar na rua e o grande objetivo seria concluir o segundo grau. Ah, e permanecer vivo, pois alguns amigos já começavam a tombar pelo caminho.

Para aumentar minha independência, eu fiz um esforço extra. Estudar português e matemática pro temido exame de admissão da Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, a ETFRN. No ano de 1991 eu adentrava no primeiro período do curso de Mecânica. Me tornei meio independente ali. A curta distância da minha casa pra Escola (como os íntimos se referem à ETFRN) me permitia ir e voltar das aulas andando.

Lá não era obrigado a permanecer dentro da sala. Se não estivesse gostando da aula, que saíssem da sala. Era uma revolução pra mim. E por sair da sala não ser mais controlado por ninguém, nossa responsabilidade aumenta.

Ano passado fui visitar meu primo Emílio, quando do seu curso de doutoramente no Massachussets Institude of Technology, o famigerado MIT. Uma vez lá com ele, visitando as dependencias daquela tão consagrada universidade, eu me dei conta de uma semelhança. Lá, os alunos chamam o MIT apenas de “O INSTITUTO”. Na hora nao disse nada, mas lembrei que a ETFRN era conhecida por nós apenas como “A ESCOLA”. Só quem foi de lá sabe.

Consegui passar no vestibular na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a UFRN e também sem maiores pretensões e nem parentes na política pra me conseguirem um emprego e muito menos família de empresários, fui focando minha carreira na única possibilidade à vista. Foi por exclusão mesmo.

Ah, ia esquecendo. Terminei a Escola no meio do ano de 1994 e só adentrei na Universidade em no meio de 1996. De 1995 a 1997 eu tive uma lanchonete pros funcionários da Rio Center do Natal Shopping. Na epoca eu de tanto escutar as conversas nos corredores da UFRN, onde o cidadãoq ue valia a pena era o que lia e não o que fazia, eu desprezei a lanchonete, via como algo menor e me dediquei à ser um intelectual. Não poderia dizer que isso foi a maior merda que pensei, pois ela me trouxe aonde estou hoje. Mas digamos que foi uma curva errada que peguei e que se não tivesse pego, não chegaria.

Acreditando que a intelectualidade seria o meu caminho, mergulhei nos livros. Adentrei na base de pesquisa do professor Miguel Anez e ganhei um congresso da Iniciação Científica como melhor apresentação oral, uma passagem pra Brasilia pra defender o trabalho nacionalmente e um troféu. Acho que isso me credenciou e Miguel convidou a mim e ao meu amigo Gustavo Zumel para tentar um mestrado no Canadá, aqui em Montréal, onde ele estava vindo fazer o seu pós doutorado.

Consegui aceitação no mestrado e meu amigo Zumel infelizmente não, o que teria sido muito melhor se tivesse conseguido, para mim e óbvio para ele. Fui sozinho enfrentar as feras. No mestrado, tudo parecia muito maior do que eu. A imponencia do prédio da HEC Montréal nos colocava no nosso canto. Ou pelo menos me colocou no meu.

Uma carga de estudos sobre humana, principalmente pra mim que fazia subempregos para pode pagar a mensalidade. Eu tinha 25 anos, se tivesse mais, não teria conseguido. Fui até meu limite físico e mental. A força que vinha era: “lute, sua carreira academica te espera!!”. “Você será um professor igual à Miguel”, me iludia.

Não passei vergonha pois tenho alguma lenha pra queimar, mas nem de longe fui o aluno brilhante que me considerava na graduação. E vivia incomodado. Algo não estava bem. Algo não encaixava. Ia pra biblioteca da universidade e sentia o cheiro e apesar do cheiro ser bom, aquele cheiro não me dizia que eu era dali.

Começou então um bafafá dentro da universidade. O professor Alain Chanlat, o famoso Chanlat, iria dar seu último curso da sua vida antes de se aposentar. E iria filmar todas as aulas pois pretendia fazer um livro baseado na estrutura do curso. Corri e me inscrevi. Fui aceito. A sala ampla, sempre com um cinegrafista nas aulas.

Tenho certeza que se alguem procurar essas fitas, eu estarei nelas. Cada semana, um tema diferente. O curso se chamava somente de “Ciencias Humanas”. Cada semana, um trabalho. E no final, tinhamos que fazer um trabalho com um fio condutor entre todas as semanas, pois segundo ele, existia um.

Sem problemas. Eu era acostumado a bullshitar esses trabalhos todos desde a ETFRN. Retórica era comigo. Fiz meu trabalho. Depois teriamos uma entrevista mano a mano com o Chanlat em pessoa. Chegou minha hora. Ele me recebeu com um efusivo sorriso, lembrando do cajueiro de Pirangi, que um dia ele havia visitado à convite de um professor da UFRN.

Ele olhou pras anotações dele e falou: “Eu compro seu trabalho o por um A. Não um A negativo, não um A positivo, um A apenas. Você vende?”

Eu que estava em dúvida sobre o sucesso do mesmo, respondi de pronto: “Vendo!”.

De pronto, ele pegou o trabalho e o jogou na lata do lixo. Diante do meu espanto, ele disse: “Esse trabalho aí é lixo, mediano, mais do mesmo. Me fale mais da sua vida, me conte sobre sua história”. Surpreso, eu comecei. Ele ouvia, calado. No final, ele disse: “meu rapaz, vá correr atrás da sua vida, você não nasceu pra ser um acadêmico”. Puta que pariu, pensei, o cara tá dizendo que sou um idiota.

O mundo acadêmico, ele disse, é para quem não sabe e não quer fazer mais nada. Você é muito mais do que isso. Deixe isso pra pessoas como eu, que não sei fazer nada. Go!! Ganhe seu mundo, crie empresas, contrate funcionários, brilhe...

Naquele momento, dentro do escritório do professor Chanlat. Eu tirei um arranha-céu dos meus ombros. Dei um abraço nele e disse: “Tabarnac, you saved my life!!”. Saí saltitando de felicidade. Nada me abalaria mais. Não sei ainda o que serei, mas o professor Chanlat me mostrou o que não serei. E estou extremamente feliz por não ser mais Michael Jordan em cima de um cavalo. O que serei? Só Deus sabe. Obrigado grande mestre!!

Escrito em Montréal, em Abril de 2004.

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