Tuesday, 6 October 2020

Protegendo quem?

Nenhuma nação jamais foi arruinada pelo comércio.”

Benjamin Franklin

Existem várias interpretações acerca desse assunto. Uns dizem ser uma prática assombrosa. Outros alegam ser necessária. Eu, de minha parte, abomino qualquer parte de protecionismo. Acredito ser uma droga, que causa uma sensação de bem-estar imediato, mas com um efeito colateral perverso.

Eu até já tinha desistido de falar sobre o Brasil, por acreditar ser um caso perdido. Mas não posso me furtar a fazer isso quanto a este tema. O Brasil tem a mania de copiar somente o que não presta dos outros. O que é bom, ele ignora.

Nós estamos no grau de desenvolvimento que estamos única e exclusivamente devido à casualidades. O planejado pelos gênios que pelo Brasil passaram era para que nós estivéssemos em pior situação, mas como nem nos prejudicar de maneira ordenada nós sabemos, nos encontramos nesse meio termo devastador.

Temos exemplos de coisas maravilhosas mundo afora. Mas em quem nos espelhamos em termos políticos e econômicos? Cuba e Venezuela. Em termos culturais? França. Dos Estados Unidos só conseguimos extrair práticas que também não são boas, como o protecionismo. O amor pelo país que os americanos possuem nos não conseguimos captar.

Dos modelos cubanos, venezuelanos e franceses me furtarei a comentar por enquanto. Falemos do protecionismo. Se analisarmos a literatura econômica, veremos que o livre comércio é a melhor coisa que existe, pois as trocas internacionais possibilitam o enriquecimento do conjunto dos países, desde que não haja intervenção governamental, distorcendo os preços relativos. Essa verdade ficou auto-evidente desde Adam Smith.

Agora o que acontec é que os políticos enganam a população, alegando que isso será um ganho para a nação e agradam os interessados que irão ganhar diretamente com esse ato, como os empresários do setor protegido e que provavelmente deram bastante dinheiro pra eleição deste ou daquele senhor que aprova esse tipo de lei.

Quando Bush sobretaxa o aço brasileiro, ele não está ajudando os Estados Unidos como nação, ele na verdade está prejudicando, pois o que de fato está fazendo é encarecer um insumo básico que terá reflexos altistas nos preços em toda a sua cadeia produtiva. O mesmo ocorre com o suco de laranja. Ao encarecê-lo, com impostos compensatórios, ele apenas está prejudicando os consumidores. Nada mais. Em outras palavras, está tolhendo a liberdade das pessoas comprarem produtos melhores, à preços mais baixos.

Se todos os países aplicassem esse tipo de política ao mesmo tempo, haveria uam crise catastrófica de escala mundial. O protecionismo é prática nefasta da pior espécie, uma combinação de ignorância dos muitos e ganância de uns poucos escolhidos, contra os interesses gerais. A verdade é exatamente o oposto da crença popular.

Política melhor seria absorver os ganhos de produtividade que os preços mais baios internacionais podem gerar para a economia interna. Em uma economia complea como a brasileira, “proteger” qualquer setor isolado significaria perda de produtividade global para o sistema como um todo. É emprobrecer toda a economia.

O protecionismo foi uma caracteristica marcante da política industrial brasileira desde os anos 30 até a liberalização do início dos anos 90 do século passado. Sustentava-se em argumentos do tipo “proteção à indústria nascente”, “defesa do interesse nacional”, etc., mas justificava-se também por problemas de balanço de pagamentos.

Constituia-se num protecionismo que não possuía um propósito claro de aprendizado tecnológico e nem prazo de vigência e obrigações em termos de contrapartidas de desempenho por parte das empresas ou industrias inteiras, beneficiadas.

Os Estados Unidosse utlizam de práticas protecionistas mais por apoio à grupos que ajudam a eleger os presidentes do que por lógica. Quem tem o mínimo de juízo discorda disso. Alan Greenspan, presidente do FED (Federal Reserve, o Banco Central americano) recentemente encorajou os americanos a não transformarem a ansiedade com a perda de empregos no país em apoio à medidas protecionistas de comércio. Segundo ele, tais proteções podem prejudicar mais do que ajudar a situação econômica dos Estados Unidos.

Como a história claramente mostra, nossa economia é mais bem servida por um vigoroso compromisso com a economia global”, disse Greenspan. Ao perceber que novas medidas protecionistas estavam sendo propostas, ele alertou que elas podem ser auto-destrutivas.

Essas supostas curas podem piorar a situação mais do que melhorar”, completou Greenspan. “Elas fariam pouco pra criar novos empregos e, se os países estrangeiros decidissem retaliar, nós iríamos com certeza perder postos de trabalho”.

Na corrida pela campanha das eleições presidenciais, os democratas têm atacado a administração Bush pelo fraco desempenho do mercado de trabalho, dizendo que a migração dos empregos americanos para países com mão-de-obra mais barata como Índia e China deveria ser reduzida.

O premier alemão Schroeder também comunga de opinião semelhante da opinião de Greenspan. “Temos que convencer as pessoas de que a economia global e o livre comércio oferecem as melhores chances de desenvolvimento para todos nós. Mesmo quando, por causa do comércio sem fronteiras, há risco de seu emprego ser transferido pra China, Índia ou caso da Alemanha, pro Leste Europeu”, disse Schroeder. “Uma coisa está clara: a resposta não pode ser o protecionismo!”.

O exemplo mais despudorado do protecionismo são as reservas de mercado. Estas não são mais do que o direito dado à alguns de produzir o que os outros não querem consumir. Vejamos alguns exemplos que assolavam o Brasil, pois apesar de alguns negarem veementemente a história, eu acredito ser necessário olhar pra ela de frente. Serei eu um idiota?

A indústria do cinema no Brasil gozava de reserva de mercado, a televisão não possuía. Resultado? As telenovelas tinham forte aceitação internacional, enquanto que o cinema dependia de exibições compulsórias.

A eletrônica de consumo não possuía reserva de mercado. Resultado? Não tinha ninguém contrabadeando televisão, geladeira ou rádios. Por outro lado, a informática proporcionava altas batidas policiais nos escritórios, pois todos os computadores eram contrabandeados. A informática possuía lei que criava reserva de mercado pros produtores nacionais de computadores.

Em se tratando dessa tal lei da informática, percebe-se uma distorção da realidade de maneira brutal. Com essa lei, o Brasil pediu demissão da corrida tecnológica. Como a definição de informática abrange toda a eletrônica digital, o atraso se espalhou por toda a indústria manufatureira.

E os Estados Unidos continuavam a exportar material de informática pro Brasil através de contrabando, sem se arriscar em um investimento na louca economia brasileira de então e melhor, não pagavam os impostos, que seriam ótimos pro Brasil. É de dar risada de como somos imbecis.

Aí depois de tudo isso, venho parar no Québec, onde existe o maior protecionismo de empregos que tive notícia até hoje. No Québec existe hoje uma quantidade de imigrantes qualificados que excedem os próprios quebequenses em termos de educação e qualificação.

Então o que ocorre é que para garantir os empregos dos quebequenses (que muitos nem se consideram canadenses e tem por capital nacional a cidade de Québec e como bandeira nacional a bandeira azul do Québec e não a vermelha e branca canadense), eles aplicam a boa e velha reserva de mercado pra emprego.

Como se dá essa manobra? Eles dificultam a concorrência onde o melhor ganharia a vaga. Primeiro, criam provas impossíveis de obter aprovação, até mesmo pros quebequenses, se precisassem fazer tal prova. Mas como não precisam, a eigência vai pros píncaros da puta que pariu. Segundo, a seleção também se dá pelo nome. Se não for francês, oublie ça!!!

Por fim, supervalorizam até subempregos, numa clara tentativa de mostrar que fique bem claro pros imigrantes que: “se os subempregos jão são difíceis do imigrante conseguir, imagine então empregos como executivos, médicos, dentistas ou professores?

Já vi caso de uma pessoa procurando emprego de Dishwasher e ter que participar de exaustivo processo de seleção, com dinâmica de grupo e o caralho. Outro foi procurar emprego de faxineiro e o patrão quebequense exigiu dois anos de experiência, duas referências de ex-patrões, exame médico e certidão negativa na polícia. É brincadeira?

Enquanto isso os vizinhos do sul, como os americanos são chamados aqui, aceitam os melhores de cada área e estão pouco se fudendo se os americanos burros ocuparão essas vagas ou não. Eles querem os melhores e para isso não poupam esforços.

Não sou nenhum profeta e nem vidente, apenas um observador de fatos. O Québec vai entrar na lata de lixo da história, apesar do enorme esforço que o governo federal faz para tentar ajudá-los a mudar suas visões. Mas eles fazem tudo ao contrário das recomendações federais, como adolescentes rebeldes.

A horda de imigrantes não está satisfeita e os quebequenses não estão preocupados. O descontetamento é geral por onde passo. E um país que se presta ao papel de aceitar imigração em massa como esse aqui, deveria olhar ora isso com mais carinho.

E quanto ao Brasil, hein? O Brasil já entrou na lata de lixo da história. Tomara que alguma alma caridosa consiga nos tirar de lá, antes de irmos pra maquina de triturar!

Escrito em Montréal, em Março de 2004.

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