“Mas
não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo, isto é
somente uma canção. A vida realmente é diferente, quer dizer, ao
vivo é muito pior.”
Antônio
Carlos Belchior
Ao
sair do meu cantinho do mundo, eu não tinha a menor noção das
línguas faladas no Canadá, seja ela o francês, que era pra onde eu
viria, ou o inglês, que ficaria em segundo plano. Sendo assim, se eu
quisesse ter algum sucesso no meu curso de mestrado, eu teria que
aprender a língua que seria usada na universidade em questão, a
língua de Aznavour, por quem eu nutro imensa admiração musical.
Agradecendo
que naquela época o Real brasileiro era mais caro do que o Dólar
Canadense, meu pai me comprou um curso intensivo de 3 meses na
Université de Montréal. Uma vez tendo as aulas começado, pude
perceber que tinha gente do mundo inteiro, mas na hora do intervalo,
eu e meu amigo Gustavo Zumel, que estava um nível acima de mim pois
já manjava algo de francês, só nos juntavámos com a turma da
América Latina.
A
língua era o fator mais forte dessa união, mas os hábitos e
personalidades completavam o jogo. Com exceção do Chile e não
havia nenhum chileno na sala, os povos das Américas mais baixas
parecem padecer da mesma sina. Além disso, todos parecem admirar em
uníssono a tranquilidade sistêmica que encontramos no Canadá,
embora não se fale muito nisso à princípio, para não parecermos
selvagens. À primeira vista, todos querem passar uma imagem que o
cenário canadense é normal pros nossos padrões. Balela. Basta a
convivência aumentar que vamos vendo as máscaras caindo. Os
problemas eram comuns.
Não
existe no Canadá brigas sobre o formato político social desejado.
Ele é formado pela junção da economia de mercado e o liberalismo
político. Muita gente não sabe nem quem é o prefeito da sua
cidade, porque funciona para todos. Votar não é obrigatório e nem
exigido como cobrança social. Eles não acham, ao contrário de nós
cucarachas, que votar é um dever cívico. Dever cívico é ter
civilidade e nós, a latinada, mesmo votando, não chegamos nem perto
de amarrar os sapatos dessa gente daqui no quesito civilidade. Pobres
de nós. A américa latina hoje em dia é desprezada pelo resto do
mundo e somos vistos como povos diferentes, algumas vezes simpáticos,
tipo aqueles que poderia estar em zoológicos.
Deixamos
de ser bases militares devido ao avanço das armas de longa distancia
e perdemos a importancia de localização. O primeiro mundo tem
interesse nas bases de pesquisas espaciais, mas isso se consegue
através de inocentes acordos científicos, não precisa de mesada ou
concessões enormes. Perdemos o poder de barganha devido ao
desenvolvimento armamentista.
-
Ei, olha a gente aqui, me dá uma graninha, estamos perto da
África...
-
E dai? De onde estou mando mísseis na África sem precisar de você,
brother...
No
campo ideolígico, durante a Guerra Fria, tinhamos também o poder de
chantagem, ameaçando se tornar comunistas ou capitalistas demais, o
que fazia com que Estados Unidos e União Soviética encarassem a
América Latina como países estratégicos, mandando dinheiro e
acordos mirabolantes. Hoje é assim...
-
Americanos, se não me der aço, vou virar comunista, viu?
-
Ok, vire o que quiser, União Soviética não existe mais mesmo...
O
setor comercial também nos deixou pra trás. Na época dos grandes
blocos comerciais, a America Latina ficou com apenas 4% do comércio
mundial. Enquanto Canadá, Estados Unidos e Mexico formam um bloco,
Europa forma outro, Japão investindo no leste e sudeste da Ásia,
fazem com que a América Latina não seja nem vista no retrovisor.
-
Seu dotô, compre aqui um alfinim?
-
Obrigado, seus produtos não prestam, sua burocracia é irracional...
ops, espera aí? É cocaina?
Infelizmente
cocaína não entra nos dados oficiais.
Além
disso tudo, existe ainda o fator do dinheiro. Com mercados pequenos,
altamente regulados, com moedas inconversíveis e um mercado de
cambio louco, a América Latina não é o melhor lugar para as
multinacionais.
-
Ei senhor multinacional, venha pra cá curtir uma praia e uma escola
de samba!
-
Deus me livre, além do preço do trabalhador ser absurdo, de termos
que enfrentar monopólios, de termos que corromper pra operar, os
nossos executivos ainda podem morrer num assalto ou sequestro e o
problema é enorme!!! Vou pro Iraque que é mais tranquilo!
Os
países da América Latina tem um paradoxo destruidor. Os salários
são baixos mas os custos de mão de obra são altíssimos, seja pela
baixa produtividade, seja pelas contribuições feitas para alimentar
sistemas de previdencia corruptos e ineficazes.
Não
por coincidência que a América Latina seja o único continente do
planeta aonde o nome de Karl Marx ainda é respeitado. Que feito,
hein?
Sempre
fiquei curioso com os versos de uma famosa canção brasileira,
venerada pela esquerdalhada, chamada “Sangue latino”. Ela
diz: “Jurei mentiras e sigo sozinho, assumo os pecados...”
e emenda “Os ventos do norte não movem moinhos...” e
segue dizendo: “Rompri tratados, traí os ritos...”
Não
precisa ser muito perspicaz para entender que o compositor está
descrevemdo o arcabouço moral de uma pessoa que tem sangue latino
americano e pasmem, nesse caso, ele está se vangloriando disso.
Enchendo o peito com orgulho pra dizer que, sim, eu minto e assumo,
como se isso fosse a coisa mais bonita do mundo. Nao me espanta a
cabeça dessa gente como é pervertida.
Ele
acha bonito dizer que rompeu os acordos, traiu os ritos, é um
rebelde, um anarquista, um porra-louca. Ainda por cima, quer dizer
que os ventos do norte não movem moinhos, que o bom mesmo é o
Sul... É de se admirar porque sempre fomos e seremos “O país do
futuro” e nunca do presente?
Escrito em
Montréal, em Fevereiro de 2004.

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