Já ouvi muita gente dizer que os bons morrem jovens. Pode ser uma coincidência ou uma romantização sobre as mortes das pessoas mais jovens, uma vez que o natural seria sempre morrer velhinho. Mas o fato é que nem sempre os bons morrem jovens. A raiz mais antiga que conheci de mim mesmo foi o meu bisavô Gonçalo de Assis Meira, meu “Vovô Gonçalo”.
Meu
bisavô Gongon nasceu em 16 de novembro de 1901, em Taperóa, na
Paraíba e faleceu em 11 de maio de 1988, em Natal. Ele casou com
minha bisavó Nazinha em 1927, quando vovô tinha 26 anos e vovó
Nazinha tinha 21 anos.Vovô Gonçalo era filho de Inácio Gomes Meira e Manoela Francisca Meira.
Vovô Gonçalo primeiro “se juntou” com minha Bisavó Nazinha e teve minha avó, Evandra Holanda de Oliveira (Oliveira por parte do meu avô e marido dela), e só depois que casou teve minhas duas tias-avós, Zilene Tavares Meira e Zileide Tavares Meira. Nenhuma das duas casou. Por isso, as duas tias-avós não carregam o Holanda no nome, pois ao casar com minha bisavó Nazinha, Vovô Gonçalo retirou o “Holanda” da minha bisavó e acrescentou o “Meira”, seu nome.
Eles moravam em Patu, em uma casa que tinha sido comprada por um irmão de minha Bisavó Nazinha, e doado pra eles de boca. Mas quando esse irmão morreu, a filha dele era advogada e disse que não tinhada no papel e pediu pra eles sairem de lá. A solucao foi uma mudança pra Natal, pra morar em uma das casas do meu avô Oliveira, que era casado com a filha mais velha deles.
Meu avô Oliveira cedeu uma das casas que possuía no bairro de Nova Descoberta e lá meu bisavô morava com sua esposa e as duas filhas solteiras do casal, Zilene e Zileide. Meu avô Gonçalo, que algumas pessoas chamavam de Gon Gon, era um sujeito magro, muito calado e gostava muito de mexer comigo.
Ele tinha uma brincadeira que só ele gostava. Consistia em passar perto de mim, quando não tinha ninguém olhando, e dava um “beliscão de soldado”, como ele dizia. Mas ele era um velho forte, apesar de magro e o beliscão doía muito. O beliscão era feito com as cabeças dos dedos indicador e maior de todos, como se fosse uma pinça e uma vez que agarrava a carne da gente, ele torcia. Era uma dor lancinante, pelo menos pra criança que eu era.
Na foto acima, da esquerda pra direita: meu irmão Fábio, vovô Gongon e eu., na casa dele, em Nova Descoberta.Quando ele me pegava no bote, eu gritava. Isso gerava reclamações contundentes da minha bisavó e das minhas duas tias e de quem mais estivesse presente, como minha mãe ou minhas tias. Elas ficavam doentes de raiva. No meio do tumulto, ele ficava sério, não dizia uma palavra e ficava olhando pra televisão, como se não estivessem falando com ele e quando desviavam o olhar, ele sério dava uma piscada de olho pra mim, como quem diz: “seja homem!”.
Eu gostava do velho e pouco tempo depois ia pra perto dele. Ele passava a mão no meu ombro, me puxando pra perto dele. Lembro que um dia cheguei da natação, devia ter mais ou menos uns 12 pra 13 anos de idade, e minha mãe disse: “Vovô Gonçalo está no hospital”. Foi a primeira vez que levei uma pancada no estômago. Como assim no hospital? Ele estava bem até ontem?.
Todos os dias eu tinha o hábito de pegar a minha bicicleta, descer a minha rua, a Brigadeiro Gomes Ribeiro até a Rua da Saudade. Chegando lá, dobrava à esquerda e seguia até o portão do cemitério de Nova Descoberta. Seguia pela calçada do cemitério até cruzar a rua Amintas Barros. Dava direto no comércio de mármore do meu avô Oliveira e vizinho era a casa do meu avô Gonçalo. Mas agora ele não estava mais lá...
No dia seguinte, eu pedi pra minha mãe me levar pro hospital pra visitar vovô Gonçalo. Ela me atendeu e lá fomos. Chegando lá, encontrei vovô em uma cama, deitado, fraco. Fiquei com medo de chegar perto dele. Minha mãe me empurrava e eu não ia. O tempo todo eu estava olhando pra ele e ele olhando pra mim, com a cabeça inclinada no travesseiro. Então ele fez sinal com a mão pra que eu me aproximasse. Eu fui, receoso. Chegando perto dele, coloquei minha mão na cama, perto da dele e ele repousou sua mão em cima da minha. E apertou devagar, sem força. E sorriu. Eu também sorri.
Minha mãe se virou pra falar com minha avó Vanda, mãe dela, e eu falei baixinho pra vovô Gonçalo: “Aperta, vovô, dá o beliscão de soldado em mim”. Ele sorriu novamente, bateu duas vezes carinhosamente na minha mão e balançou a cabeça negativamente, dizendo que não, dessa vez não. Ficavamos indo visitá-lo no tempo em que esteve lá no hospital, e finalmente ele foi pra casa. Ficou deitado na cama dele, com um mosquiteiro em cima.
Em um desses dias, se não engano de tarde pra de noite, eu entrei no quarto pra falar com Vovô Gonçalo. Ele deu uma risada junto comigo e saí do quarto bem feliz, dizendo: “Vovô tá melhor, vovô tá melhor!”. Ninguém disse nada. Poucos minutos depois, saíram do quarto dizendo que ele havia morrido. A causa? Parada cardíaca, enfarto do miocárdio.
Meu pai, Jaelson Cavalcante das Neves, foi o declarante e o médico que assinou o atestado de óbito foi Dácio, um dos melhores amigos de meu pai.
Quando eu questionei porque, já que ele parecia ter melhorado, alguém disse: “Essa é a melhora da morte. A pessoa dá uma melhorada quando pouco antes de morrer”.
Nunca esqueci disso, nunca esqueci desse dia, onze de maio de 1988. O dia em que eu descobri de verdade que as pessoas morriam.
Fabiano H. Cavalcante, Brampton, dezembro de 2005.


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