Thursday, 15 October 2020

Hudson Bay Company


Quando cheguei na província de Ontário, sem muito dinheiro e com menos ainda crédito na praça, aleatoriamente fui visitar uma das lojas do grupo HBC, que vem a ser Hudson Bay Company. Nos corredores da loja me deparo com um vendedor e ele pergunta se tenho um cartão HBC. Com a minha negativa, ele foi certeiro: “se você chegou por aqui agora, é uma grande oportunidade de estabelecer o seu crédito. Eu consigo sua aprovação automática pra um limite de crédito de 100 dólares”.


E dei a ele meus dados pessoais. Ele conseguiu o que prometeu e assim comecei a construir o meu crédito por essas bandas. Mas fiquei pensando, o que faz essa empresa pensar diferente das outras? Porque ela faz questão de dar esse voto de confiança, embora o crédito nao seja muito? E fui buscar informações sobre a empresa.


E qual não foi minha surpresa ao descobrir que essa empresa é a empresa mais antiga do Canadá. Mais ainda ainda do que o Canadá. Me senti um verdadeiro nativo, ao fazer parte agora desse grupo tão renomado. Mesmo que apenas portando o cartão de crédito deles...


A HBC foi fundada em 2 de maio de 1670. É a empresa mais velha de todo o mundo anglofônico. Na rande parte da sua existência, ela foi uma empresa comerciante de couro. Esse comércio de couro em si deu grande constribuição na colonização da América do Norte Britânica e no Canadá em si.


No século 17, o comércio de couro estava de vento em polpa, todos queriam um chapéu de couro de castor. A França não teve interesse no comércio, mas a Inglaterra sim e mandou seus primeiros navios em 3 de junho de 1668.


O negócio envolvia os índios nativos. Eles caçavam no inverno e outono e iam encontrar o pessoal da HBC pra trocar por bens que eles não dispunham, como ferramentas de metais, comida, roupas e armas. Isso gerou um impacto nas tribos, pois muitos abandonaram seus modos de vida e passaram a depender dos utensílios agora vindo da Europa. Também entravam em conflitos com outras tribos, por uma melhor posição no comércio das peles. Um outro problema foram as doenças que eles não tinham, o que devastou populações inteiras de índios.


Até 1763, HBC brigava com os franceses pelo comércio das peles. Então foi feito o Tratado de Paris, que diminuiria consideravelmente esses conflitos. Um século depois, em 1863, a HBC foi comprada pela International French Society, que não estava muito interessada em comércio de peles e sim nas terras que a HBC possuía.


Em 1870, a HBC vendeu suas terras pro Canadá. Recebeu 300 mil libras naquela época, um vinte avos de todas as terras produtivas e iria manter as terras onde haviam estabelecido um comércio. Se tornaram assim um dos principais incorporadores no país. Em 1910, a empresa se dividia em três departamentos: peles, varejo e vendas de terras. Em 1913, começou a construir lojas de varejo. A primeira loja foi aberta em Calgary, em 1913. Também, em 1926, entraram no ramo de recursos naturais.


Operando apenas no oeste canadense, HBC chegou em Montréal em 1960. Em 1974 abriu sua primeira loja em Toronto, na Younge e Bloor, bem perto de onde é hoje o Consulado Brasileiro. No final dos anos 70, dois bilionários canadenses, Kenneth Thomson e George Weston, brigaram pela aquisição da HBC. Em 1979, Thomson ganhou a batalha e comprou 75% da empresa por 400 milhões de dólares.


Nesse mês de novembro, um financista americano chamado Jerry Zucker comprou a HBC por 800 milhões de dólares, fazendo com que essa empresa centenária deixasse de ter um controle canadense.


Outra loja do grupo é a The Bay, sempre sendo uma das grandes lojas dos shopping centers. Lá vendem de tudo, sendo uma espécie de Macy's. Visitar uma loja Bay é sentir um pedaço importante da história do Canadá. Eu não sou nativo daqui, mas gostaria de agradecer a esta empresa suntuosa pelo meu primeiro cartão de crédito no Canadá. E que os ventos gelados tragam sorte pra que essa empresa continue viva por muitos anos.


Fabiano H. Cavalcante, Brampton, Novembro de 2005.

No comments:

Post a Comment

Reputação

Meu amigo Hindenberg Dutra me disse certa vez, em mesa de bar na saudosa Picanha do Dudé, na avenida Xavier da Silveira, em Morro Branco : ...