Da esquerda pra direita: Abelhão, Jean, Bate Bronha e myself.
“A
igualdade pode ser um direito, mas não há poder na terra capaz de
torná-la um fato”.
Balzac.
Eu
sempre fui um jovem muito moderado. Nos meus tempos de estudante, nem
muro eu nunca pichei, ao contrário de alguns amigos meus que, cuja
ética me impede revelar os nomes, certa vez foram delicadamente
tangidos pelo vigia do Colégio Nossa Senhora das Neves, onde fiz meu
primeiro grau. Pelo vigia e por sua arma, diga-se de passagem, que
pelo visto estava com mais ciúme do muro do que o próprio
guardião.
Nunca
fiz protesto algum, ao contrário também dos amigos e convivas da
Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, onde fiz meu segundo
grau e recebi o honroso diploma de “Técnico em Mecânica”. Esses
“companheiros” de escola técnica viviam como se ainda estivéssem
no período duro da chamada “ditadura”. Enfrentavam a polícia no
corpo a corpo, paravam aulas, protestavam contra tudo. Até mesmo as
benesses realizadas na escola eram inclusas em seus textos e
manifestos carregados de fúria:
“Como
podem construir um novo auditório, se os banheiros continuam sujos e
a ‘gororoba’ não está sendo servida quente?”, diziam mais ou
menos assim, os discursos da turma.
E
impediam quem quisesse dar ou assistir qualquer palestra na “grande
mazela” da escola, o novo auditório.
Acho
que a Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte foi o ambiente
mais canhoto que eu já coloquei meus pés até hoje.
Tive,
inclusive, como professor de frezadora (professor é modo de falar,
lógico), um dos rostos mais conhecidos da gloriosa esquerda
norteriograndense. Não estou me referindo a ser conhecido por cargos
ou grandes feitos, e sim aos programas eleitorais da TV.
Estou
falando do Hugo Manso, cuja história não se pode deixar de admirar.
Sua bravura e valentia em nunca ter desistido, de ser candidato, deve
ser lembrada com louvor. Já se candidatou a deputado (federal e
estadual), senador, vereador, vice, enfim, é um grande candidato.
Pau-pra-toda-obra, como se diz. Pelo seu esmero, acredito até que o
Hugo tinha como profissão Candidato e como hobby, fingir ser
professor da Escola Técnica.
Um
dia faltou energia no laboratório de Mecânica e o Hugo gritou:
“Sabotagem!!! Cortaram a Luz! Isso é coisa do Mariz!!!”
Coitado,
estava sempre achando que alguém estava pronto para fazer alguma mal
para ele. Deve ser reflexo dos tempos duros que ele nunca viveu...
O
Hugo me chamava de “careca”, não sei porque. Suponho que deva
ser pelo fato dele ser cabeludo e barbudo (como não poderia deixar
de ser). Porém tenho minhas dúvidas: homenagem à Fidel, Marx ou
seria mesmo preguiça que o grande Hugo não cortava sua vasta e
abundante cabelagem?
E
o engraçado é que o formato de sua cabelagem é uma emenda com a
barba. O que o faz parecer muito com um leão, pois além de tudo, o
danado ainda é meio galego. Daí, concluo, infantilmente, que
provavelmente deve ser por isso que o chamam de manso. Hugo “Leão”
Manso. E por evolução, Hugo Manso, como era conhecido em todos os
programas eleitorais e também por toda a Escola Técnica do meu
tempo.
Mas
deixando essa história um pouco de lado, me encontro aqui na América
do Norte (aquela América tao depreciada pelo Hugo), esperando
começar meus estudos de mestrado, e me chega a notícia que o Hugo
finalmente se elegeu. Parabéns Hugão!!! Posso até imaginar a festa
que foi dada!!! Champagne, charutos, música, mulheres... Mas,
afinal, que tristeza. Depois de tantos anos de labuta como candidato,
você finalmente se aposentou e atingiu o entediante cargo de eleito.
Sem
maldade nenhuma, acredito que o Hugo era melhor como candidato. Pois
como professor, hummmm... Deixarei a palavra para alguns convivas
linha-mole como o Luís “Abelhao” Teixeira, Eldson “Bate-Bronha”
Jony e o Frankilin “Moleza” Maux, que com certeza não me
deixarão na mão (Desculpe o trocadilho Jony).
Entretanto,
a Escola Técnica não produziu só o Hugo. Tinha também um certo
Valdemar (não sei se é com “V” ou com “W”, mas como “W”
parece coisa de americano, resolvi não arriscar, para não correr o
risco de um processo por parte do Valdemar). Esse Valdemar era o
presidente do Grêmio Estudantil da ETFRN do meu tempo.
O
Valdemar tinha um apelido curioso, ele era conhecido como
“Assombroso”, devido à sua semelhança com um personagem de
desenho animado que até hoje eu nao sei qual é.
Bem,
o fato é que o assombroso, digo, o Valdemar, era o retrato do
protesto.
-
Olá, tudo bem Valdemar?
-
Tudo bem o quê? Você nao viu o discurso do Mariz ontem? Como pode
estar tudo bem após o discurso do Mariz ontem? Você é alienado?
E
por aí destilava seu carretel de reclamações, as do dia e as
eternas.
Até
hoje quando falam em esquerda, pode ser para indicar um endereço ou
apenas para identificar o braço que foi quebrado, me salta de
repente a imagem do Valdemar, sob meus olhos, como de sopetão.
Como
não poderia deixar de ser, a exemplo do Hugo, o Valdemar entrou para
o cargo de candidato. Esse de uma partido mais linha-dura, o PSTU,
cujo slogan era: “Contra burguês, vote 16!” Acho que dá para se
ter uma idéia do grau de dureza da linha desse partido.
Mas
alguns anos depois, eu ingresso na Universidade Federal do Rio Grande
do Norte, no curso de Administração de Empresas. Administração
era uma ilha não grevista dentro da universidade, para minha alegria
e ódio dos outros cursos, principalmente o de Jornalismo, que, se
por acaso algum “engajado” aluno ouvisse falar que havia uma
greve nas Ilhas Maurício, já não iam para a aula na segunda-feira
seguinte e ainda tinha uns mais afoitos que faziam até piquete:
“Força, Ilhas Maúricio, Jornalismo da UFRN está com você!!”
Eis
que um belo dia, não mais que um belo dia, estava eu assistindo uma
aula de Recursos Materiais e Patrimoniais I, durante a greve de 1998,
que estava sendo ministrada pelo ilustríssimo professor Virgílio,
que por sua vez, era o atual coordenador do curso de Administração.
Só existia a nossa classe acesa em todo o Bloco 1 da universidade.
De
repente, entra na sala um indivíduo magro, com os cabelos iguais ao
do Gláuber Rocha, dizendo que nós éramos capitalistas, que o curso
de administração era isso, era aquilo e quilôto, e dizia que iria
trancar a porta da sala dentro de instantes e quem não saísse
naquele momento, não iria sair mais e outras ameaças, de punho em
riste.
Se
eu disser ninguém acredita... Era o Valdemar!!!!! O filho da puta do
Valdemar!!! O desgraçado do Valdemar, cuja carreira ascendera e ele
era então já o presidente do DCE da UFRN!!!! Daí concluí duas
coisas:
1
– Valdemar estava progredindo, um dia, com muito esmero, poderia
ser um novo Hugo (Bravo);
2
– O melhor que eu poderia fazer era pegar minhas coisas e ir embora
dali, pois como eu conhecia bem o assombroso, digo, o Valdemar, ele
não ia desistir de acabar com aquela aula nunca!!!!
Fabiano
Holanda, Montréal, Novembro de 2000.

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