Tuesday, 6 October 2020

O canhoto Valdemar

Da esquerda pra direita: Abelhão, Jean, Bate Bronha e myself. 

A igualdade pode ser um direito, mas não há poder na terra capaz de torná-la um fato”.

Balzac.

Eu sempre fui um jovem muito moderado. Nos meus tempos de estudante, nem muro eu nunca pichei, ao contrário de alguns amigos meus que, cuja ética me impede revelar os nomes, certa vez foram delicadamente tangidos pelo vigia do Colégio Nossa Senhora das Neves, onde fiz meu primeiro grau. Pelo vigia e por sua arma, diga-se de passagem, que pelo visto estava com mais ciúme do muro do que o próprio guardião. 

Nunca fiz protesto algum, ao contrário também dos amigos e convivas da Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, onde fiz meu segundo grau e recebi o honroso diploma de “Técnico em Mecânica”. Esses “companheiros” de escola técnica viviam como se ainda estivéssem no período duro da chamada “ditadura”. Enfrentavam a polícia no corpo a corpo, paravam aulas, protestavam contra tudo. Até mesmo as benesses realizadas na escola eram inclusas em seus textos e manifestos carregados de fúria:

Como podem construir um novo auditório, se os banheiros continuam sujos e a ‘gororoba’ não está sendo servida quente?”, diziam mais ou menos assim, os discursos da turma.

E impediam quem quisesse dar ou assistir qualquer palestra na “grande mazela” da escola, o novo auditório.

Acho que a Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte foi o ambiente mais canhoto que eu já coloquei meus pés até hoje.

Tive, inclusive, como professor de frezadora (professor é modo de falar, lógico), um dos rostos mais conhecidos da gloriosa esquerda norteriograndense. Não estou me referindo a ser conhecido por cargos ou grandes feitos, e sim aos programas eleitorais da TV.

Estou falando do Hugo Manso, cuja história não se pode deixar de admirar. Sua bravura e valentia em nunca ter desistido, de ser candidato, deve ser lembrada com louvor. Já se candidatou a deputado (federal e estadual), senador, vereador, vice, enfim, é um grande candidato. Pau-pra-toda-obra, como se diz. Pelo seu esmero, acredito até que o Hugo tinha como profissão Candidato e como hobby, fingir ser professor da Escola Técnica.

Um dia faltou energia no laboratório de Mecânica e o Hugo gritou: “Sabotagem!!! Cortaram a Luz! Isso é coisa do Mariz!!!”

Coitado, estava sempre achando que alguém estava pronto para fazer alguma mal para ele. Deve ser reflexo dos tempos duros que ele nunca viveu...

O Hugo me chamava de “careca”, não sei porque. Suponho que deva ser pelo fato dele ser cabeludo e barbudo (como não poderia deixar de ser). Porém tenho minhas dúvidas: homenagem à Fidel, Marx ou seria mesmo preguiça que o grande Hugo não cortava sua vasta e abundante cabelagem?

E o engraçado é que o formato de sua cabelagem é uma emenda com a barba. O que o faz parecer muito com um leão, pois além de tudo, o danado ainda é meio galego. Daí, concluo, infantilmente, que provavelmente deve ser por isso que o chamam de manso. Hugo “Leão” Manso. E por evolução, Hugo Manso, como era conhecido em todos os programas eleitorais e também por toda a Escola Técnica do meu tempo.

Mas deixando essa história um pouco de lado, me encontro aqui na América do Norte (aquela América tao depreciada pelo Hugo), esperando começar meus estudos de mestrado, e me chega a notícia que o Hugo finalmente se elegeu. Parabéns Hugão!!! Posso até imaginar a festa que foi dada!!! Champagne, charutos, música, mulheres... Mas, afinal, que tristeza. Depois de tantos anos de labuta como candidato, você finalmente se aposentou e atingiu o entediante cargo de eleito.

Sem maldade nenhuma, acredito que o Hugo era melhor como candidato. Pois como professor, hummmm... Deixarei a palavra para alguns convivas linha-mole como o Luís “Abelhao” Teixeira, Eldson “Bate-Bronha” Jony e o Frankilin “Moleza” Maux, que com certeza não me deixarão na mão (Desculpe o trocadilho Jony).

Entretanto, a Escola Técnica não produziu só o Hugo. Tinha também um certo Valdemar (não sei se é com “V” ou com “W”, mas como “W” parece coisa de americano, resolvi não arriscar, para não correr o risco de um processo por parte do Valdemar). Esse Valdemar era o presidente do Grêmio Estudantil da ETFRN do meu tempo. 

O Valdemar tinha um apelido curioso, ele era conhecido como “Assombroso”, devido à sua semelhança com um personagem de desenho animado que até hoje eu nao sei qual é.

Bem, o fato é que o assombroso, digo, o Valdemar, era o retrato do protesto.

- Olá, tudo bem Valdemar?
- Tudo bem o quê? Você nao viu o discurso do Mariz ontem? Como pode estar tudo bem após o discurso do Mariz ontem? Você é alienado?

E por aí destilava seu carretel de reclamações, as do dia e as eternas.

Até hoje quando falam em esquerda, pode ser para indicar um endereço ou apenas para identificar o braço que foi quebrado, me salta de repente a imagem do Valdemar, sob meus olhos, como de sopetão.

Como não poderia deixar de ser, a exemplo do Hugo, o Valdemar entrou para o cargo de candidato. Esse de uma partido mais linha-dura, o PSTU, cujo slogan era: “Contra burguês, vote 16!” Acho que dá para se ter uma idéia do grau de dureza da linha desse partido.

Mas alguns anos depois, eu ingresso na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no curso de Administração de Empresas. Administração era uma ilha não grevista dentro da universidade, para minha alegria e ódio dos outros cursos, principalmente o de Jornalismo, que, se por acaso algum “engajado” aluno ouvisse falar que havia uma greve nas Ilhas Maurício, já não iam para a aula na segunda-feira seguinte e ainda tinha uns mais afoitos que faziam até piquete: “Força, Ilhas Maúricio, Jornalismo da UFRN está com você!!”

Eis que um belo dia, não mais que um belo dia, estava eu assistindo uma aula de Recursos Materiais e Patrimoniais I, durante a greve de 1998, que estava sendo ministrada pelo ilustríssimo professor Virgílio, que por sua vez, era o atual coordenador do curso de Administração. Só existia a nossa classe acesa em todo o Bloco 1 da universidade.

De repente, entra na sala um indivíduo magro, com os cabelos iguais ao do Gláuber Rocha, dizendo que nós éramos capitalistas, que o curso de administração era isso, era aquilo e quilôto, e dizia que iria trancar a porta da sala dentro de instantes e quem não saísse naquele momento, não iria sair mais e outras ameaças, de punho em riste.

Se eu disser ninguém acredita... Era o Valdemar!!!!! O filho da puta do Valdemar!!! O desgraçado do Valdemar, cuja carreira ascendera e ele era então já o presidente do DCE da UFRN!!!! Daí concluí duas coisas:

1 – Valdemar estava progredindo, um dia, com muito esmero, poderia ser um novo Hugo (Bravo);

2 – O melhor que eu poderia fazer era pegar minhas coisas e ir embora dali, pois como eu conhecia bem o assombroso, digo, o Valdemar, ele não ia desistir de acabar com aquela aula nunca!!!!

Fabiano Holanda, Montréal, Novembro de 2000.

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