“Com
relação à Roberto Campos, existem três tipos de atitudes
brasileiras. As várias que apreciam sua excepcional lucidez, as
muitas que a ele resistem, com obstinada irritação e aqueles,
inúmeros, que secretamente o reconhecem, mas jamais o confessariam
de público, de puro medo do patrulhamento ideológico mais ferrenho
e mais imbecil com que o Brasil impensante já brindou alguém”.
José
Guilherme Merchior.
Morreu
na última terça-feira, 9 de outubro de 2001, o economista,
diplomata, escritor, ex-senador e ex-ministro Roberto Campos, com 84
anos de idade, no Rio de Janeiro. Morre deixando-me órfão,
ideologicamente falando. Morre uma das cabeças pensantes mais ativas
desse século, embora incompreendido pelo grande público, formado
por cabeças imbecilizadas, forjadas desde a tenra infância pelos
canhotos que assolam o país, dentro das salas de aulas, redações e
artes em geral.
Em
1974, Roberto Campos foi nomeado pelo então presidente da república
Ernesto Geisel, embaixador do Brasil na Inglaterra e com isso
permaneceu em Londres até 1982, o que exclui a sua presença em
território nacional no momento do meu nascimento, em 1975. E agora,
no momento de sua morte, também estamos em territórios diferentes.
Ele no Rio e eu Montréal, fazendo meu curso de mestrado na HEC
Montréal, escola de negócios da Université de Montréal.
HEC
Montréal essa que, muitas vezes, as idéias do liberal Roberto
Campos fizeram muito sucesso, seja me ajudando a completar
raciocínios, seja me dando a total resposta.
No
mestrado tinha uma professora chamada Gabrielle Brenner, liberal,
porém arrogante, que foi antipatizada por mim desde o primeiro
instante. O que me fazia admirar a senhora Brenner era o seu
discurso. Parecia uma Roberto Campos de saias. Ela lecionava uma
disciplina chamada Economie et Organisation de L'entreprise,
juntamente com o professor Simon Laurent, muito simpático e cordial,
mas um socialista convicto.
Algumas
resenhas semanais iriam pra ele, outras pra ela. Para ela era fácil,
era só dizer o que pensava. O chato era escrever pra ele, pois a
idéia tinha que ser forte igual a um tanque de guerra. Não deixar
espaço pra entrar nada.
Certa
feita, tive que achar um fio condutor entre Platão, Aristóteles,
Machiavel, Robbes, Toqueville, Weber, Bastiat e Marx. Matreiramente,
enfiei Roberto Campos no meio. Explico. Enlouquecendo madrugada
adentro, tentando não ser burro mais do que sou, tive a idéia de
consultar minha coleção de artigos de Roberto Campos.
Eis
que o fio condutor apareceu, brilhantemente. O senhor Laurent me
escreveu um bilhete parabenizando. “Excelllent. Trés Bien”,
disse ele. E eu pensando, “Se não fosse Roberto, eu tava
fudido”. E olhe que o homem nem concordava com o que eu havia
escrito.
Meus
amigos dizem que eu tenho uma disposição extrema para a polêmica.
Não é verdade. Polêmico é quem quer polemizar comigo, porque
apenas penso logicamente e nunca sentimentalmente, quando os assuntos
são política e economia. Assim sendo, sempre é feio ou egoísta
dizer no Brasil que o capitalismo é benéfico. Bonito sim é bradar
contras as injustiças, sem soluções para essas injustiças.
Exercício
interessante seria perguntar aos pobres que ficam nas fronteiras dos
Estados Unidos, querendo adentrar no “Inferno” de lá. Eles
mesmos podem dizer se o capitalismo é algo bom ou prejudicial, como
teima em nos dizer o Carniceiro de Havana, o senhor Fidel Castro.
Castro esse que, não sei porque cargas d'água, impede seus CIDADÃOS
de saírem de Cuba, uma vez que lá é o “Paraíso”. Pelo menos
assim me disseram meus professores de história, que depois de Cuba,
já vem logo o céu.
Eu
defendo um sistema que nunca fui beneficiado por ele. Defendo por
saber que ele é o certo, embora eu ainda não tenha prosperado nele.
Quer crença maior do que essa? Porque, sou como dizia dizia Roberto
Campos: “Um idiota da objetividade e um viciado da coerência”.
Desde muito tempo descobri que o Brasil só iria andar pra trás,
afinal: “A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro
promissor”.
A
irracionalidade, a canalhice, a esquizofrenia, são tão grandes, que
chego a me deparar, não raramente, com pessoas dizendo que os
ataques às torres gêmeas, no mês passado, foram merecidos. Eles
dizem: “Os porcos imperialistas americanos têm que pagar de
alguma forma”. Meu Deus do céu, perdoa os idiotas!!! Como
dizia Tom Jobim, temos que parar de admirar o que deu errado.
É
mais fácil pros imbecis admirar os terroristas e achar que o que
eles fizeram foi o máximo. Bem mais fácil do que admirar os Estados
Unidos, o “safado universal”. A eterna luta de Davi contra
Golias. Odiar o mais forte. Só que nesse caso, Davi era um
terrorista malvado e sanguinário, que estuprou a mãe de Golias.
Roberto
Campos disse que em nenhum momento buscou a grandeza, em todos os
momentos apenas tentou fugir da mediocridade. Disse que foi um
apóstolo sem a coragem de ser mártir. Lutou contras as marés do
nacional-populismo, antecipando o refluxo da onda. Às vezes ousou
profetizar, não por ver mais do que os outros, mas por ver antes.
Por muito tempo, ao defender o liberalismo econômico, foi
considerado um herege imprudente. Felizmente os acontecimentos
mundiais o promoveram a profeta responsável.
Certa
vez ele disse uma coisa que responde a perguntas que me são feitas
quase diariamente. Como o Brasil, tão rico, tem tantos problemas?
Ele disse que há países naturalmente pobres mas vocacionalmente
ricos. Há outros que têm riquezas naturais mas que parecem ter
vocação de pobreza. O Brasil está nesse último caso.
Não
nos faltam recursos naturais, nossa pobreza não pode ser vista como
imposição da fatalidade. É uma pobreza consentida, resultante de
mal gerenciamento e negligência na formação do capital humano.
Ao
explicar o título de sua autobiografia, ele disse que nunca teve
profundidade, inteligência ou poder para erguer um farol que
lançasse um facho de luz para as futuras gerações. Disse que suas
memórias são apenas uma lanterna num popa de um pequeno barco. Como
dizia Samuel Taylor Coleridge: “A luz que a experiência nos dá
é a mesma de uma lanterna na popa, que ilumina apenas as ondas que
deixamos para trás”.
Assim,
contrariando um silêncio proposital que eu vinha dedicando à
imbecilidade canhota, por entender que não devemos jogar pérolas
aos porcos, pois eles gostam mesmo é de lavagem, escrevo somente
esse texto para externar minha imensa tristeza e luto. E vos deixo
com o depoimento de Delfim Netto a respeito do falecimento de Roberto
Campos, meu mestre em tudo que envolve economia, politica e
raciocínio lógico.
Delfim
disse: “É uma pena. O país perde um grande brasileiro, um homem
extremamente competente, conhecedor profundo da realidade nacional.
Homem de muita coragem e que viu o reconhecimento de todas as suas
idéias depois de muitos anos. Campos tinha grande capacidade
analítica e ao mesmo tempo, conseguia fazer piada, divertir-se”.
Fabiano Holanda, Montréal,
Outubro de 2001.

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