Tuesday, 6 October 2020

A morte do mestre

Com relação à Roberto Campos, existem três tipos de atitudes brasileiras. As várias que apreciam sua excepcional lucidez, as muitas que a ele resistem, com obstinada irritação e aqueles, inúmeros, que secretamente o reconhecem, mas jamais o confessariam de público, de puro medo do patrulhamento ideológico mais ferrenho e mais imbecil com que o Brasil impensante já brindou alguém”.

José Guilherme Merchior.


Morreu na última terça-feira, 9 de outubro de 2001, o economista, diplomata, escritor, ex-senador e ex-ministro Roberto Campos, com 84 anos de idade, no Rio de Janeiro. Morre deixando-me órfão, ideologicamente falando. Morre uma das cabeças pensantes mais ativas desse século, embora incompreendido pelo grande público, formado por cabeças imbecilizadas, forjadas desde a tenra infância pelos canhotos que assolam o país, dentro das salas de aulas, redações e artes em geral.

Em 1974, Roberto Campos foi nomeado pelo então presidente da república Ernesto Geisel, embaixador do Brasil na Inglaterra e com isso permaneceu em Londres até 1982, o que exclui a sua presença em território nacional no momento do meu nascimento, em 1975. E agora, no momento de sua morte, também estamos em territórios diferentes. Ele no Rio e eu Montréal, fazendo meu curso de mestrado na HEC Montréal, escola de negócios da Université de Montréal.

HEC Montréal essa que, muitas vezes, as idéias do liberal Roberto Campos fizeram muito sucesso, seja me ajudando a completar raciocínios, seja me dando a total resposta.

No mestrado tinha uma professora chamada Gabrielle Brenner, liberal, porém arrogante, que foi antipatizada por mim desde o primeiro instante. O que me fazia admirar a senhora Brenner era o seu discurso. Parecia uma Roberto Campos de saias. Ela lecionava uma disciplina chamada Economie et Organisation de L'entreprise, juntamente com o professor Simon Laurent, muito simpático e cordial, mas um socialista convicto.

Algumas resenhas semanais iriam pra ele, outras pra ela. Para ela era fácil, era só dizer o que pensava. O chato era escrever pra ele, pois a idéia tinha que ser forte igual a um tanque de guerra. Não deixar espaço pra entrar nada.

Certa feita, tive que achar um fio condutor entre Platão, Aristóteles, Machiavel, Robbes, Toqueville, Weber, Bastiat e Marx. Matreiramente, enfiei Roberto Campos no meio. Explico. Enlouquecendo madrugada adentro, tentando não ser burro mais do que sou, tive a idéia de consultar minha coleção de artigos de Roberto Campos.

Eis que o fio condutor apareceu, brilhantemente. O senhor Laurent me escreveu um bilhete parabenizando. “Excelllent. Trés Bien”, disse ele. E eu pensando, “Se não fosse Roberto, eu tava fudido”. E olhe que o homem nem concordava com o que eu havia escrito.

Meus amigos dizem que eu tenho uma disposição extrema para a polêmica. Não é verdade. Polêmico é quem quer polemizar comigo, porque apenas penso logicamente e nunca sentimentalmente, quando os assuntos são política e economia. Assim sendo, sempre é feio ou egoísta dizer no Brasil que o capitalismo é benéfico. Bonito sim é bradar contras as injustiças, sem soluções para essas injustiças.

Exercício interessante seria perguntar aos pobres que ficam nas fronteiras dos Estados Unidos, querendo adentrar no “Inferno” de lá. Eles mesmos podem dizer se o capitalismo é algo bom ou prejudicial, como teima em nos dizer o Carniceiro de Havana, o senhor Fidel Castro. Castro esse que, não sei porque cargas d'água, impede seus CIDADÃOS de saírem de Cuba, uma vez que lá é o “Paraíso”. Pelo menos assim me disseram meus professores de história, que depois de Cuba, já vem logo o céu.

Eu defendo um sistema que nunca fui beneficiado por ele. Defendo por saber que ele é o certo, embora eu ainda não tenha prosperado nele. Quer crença maior do que essa? Porque, sou como dizia dizia Roberto Campos: “Um idiota da objetividade e um viciado da coerência”. Desde muito tempo descobri que o Brasil só iria andar pra trás, afinal: “A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor”.

A irracionalidade, a canalhice, a esquizofrenia, são tão grandes, que chego a me deparar, não raramente, com pessoas dizendo que os ataques às torres gêmeas, no mês passado, foram merecidos. Eles dizem: “Os porcos imperialistas americanos têm que pagar de alguma forma”. Meu Deus do céu, perdoa os idiotas!!! Como dizia Tom Jobim, temos que parar de admirar o que deu errado.

É mais fácil pros imbecis admirar os terroristas e achar que o que eles fizeram foi o máximo. Bem mais fácil do que admirar os Estados Unidos, o “safado universal”. A eterna luta de Davi contra Golias. Odiar o mais forte. Só que nesse caso, Davi era um terrorista malvado e sanguinário, que estuprou a mãe de Golias.

Roberto Campos disse que em nenhum momento buscou a grandeza, em todos os momentos apenas tentou fugir da mediocridade. Disse que foi um apóstolo sem a coragem de ser mártir. Lutou contras as marés do nacional-populismo, antecipando o refluxo da onda. Às vezes ousou profetizar, não por ver mais do que os outros, mas por ver antes. Por muito tempo, ao defender o liberalismo econômico, foi considerado um herege imprudente. Felizmente os acontecimentos mundiais o promoveram a profeta responsável.

Certa vez ele disse uma coisa que responde a perguntas que me são feitas quase diariamente. Como o Brasil, tão rico, tem tantos problemas? Ele disse que há países naturalmente pobres mas vocacionalmente ricos. Há outros que têm riquezas naturais mas que parecem ter vocação de pobreza. O Brasil está nesse último caso.

Não nos faltam recursos naturais, nossa pobreza não pode ser vista como imposição da fatalidade. É uma pobreza consentida, resultante de mal gerenciamento e negligência na formação do capital humano.

Ao explicar o título de sua autobiografia, ele disse que nunca teve profundidade, inteligência ou poder para erguer um farol que lançasse um facho de luz para as futuras gerações. Disse que suas memórias são apenas uma lanterna num popa de um pequeno barco. Como dizia Samuel Taylor Coleridge: “A luz que a experiência nos dá é a mesma de uma lanterna na popa, que ilumina apenas as ondas que deixamos para trás”.

Assim, contrariando um silêncio proposital que eu vinha dedicando à imbecilidade canhota, por entender que não devemos jogar pérolas aos porcos, pois eles gostam mesmo é de lavagem, escrevo somente esse texto para externar minha imensa tristeza e luto. E vos deixo com o depoimento de Delfim Netto a respeito do falecimento de Roberto Campos, meu mestre em tudo que envolve economia, politica e raciocínio lógico.

Delfim disse: “É uma pena. O país perde um grande brasileiro, um homem extremamente competente, conhecedor profundo da realidade nacional. Homem de muita coragem e que viu o reconhecimento de todas as suas idéias depois de muitos anos. Campos tinha grande capacidade analítica e ao mesmo tempo, conseguia fazer piada, divertir-se”.


Fabiano Holanda, Montréal, Outubro de 2001.

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