Tuesday, 6 October 2020

Por trás dos lugares com dois assentos


O fruto do meu trabalho deve ser pra mim”.

Voltaire.


Como passageiro de metrô, mesmo sempre cansado, pude fazer uma simples e conclusiva constatação que mostra um pouco como é o comportamento humano. No metrô de Montréal, existem lugares com dois assentos e lugares com apenas um.

Nessa experiência involuntária, pude perceber, ao longo de centenas de viagens, que as pessoas nunca procuravam sentar-se num banco com dois lugares, caso houvesse um banco de apenas um lugar vazio. Procuravam sempre fazer a viagem sozinhas. Essa vontade era tanta, que chegavam até a trocar de vagão, só pra realizar esse desejo, o que me fez concluir de uma vez por todas que não era coincidência.

Foi quando deu um clique na minha mente. Poxa, não era só eu quem gostava de ficar sozinho no meu canto!! Aquele pessoal todo também. Comecei a fazer uma ligação entre os sistemas de produção de um país. E em uma escala mais macro, vi que o ser humano é totalmente individualista, que sua preocupação maior é com ele mesmo e com seus familiares.

O homo-sapiens é individualista por sua natureza. Foi assim que Deus fez. O ser humano nunca foi e nem nunca será coletivista. Deus não quis assim. O ser humano não se sacrifica por sua comunidade. Se não acredita, analisemos a vida animal como um todo.

A grande maioria dos animais conhecidos pela ciência são individualistas. Temos algumas exceções, no reino dos insetos. As Abelhas e as formigas, devido à sua natureza, são coletivistas. Para essas espécies, o mais importante é a sobrevivência da comunidade.

A resposta quem dá são os genes. Eles que determinam tudo. A grande prioridade para qualquer individuo de qualquer espécie do planeta (com raras exceções mostradas no parágrafo anterior) é a proteção do seu código genético. Para essa esmagadora maioria, a melhor forma de preservar sua carga genética é a prática da atuação individual de cada indivíduo da comunidade.

As abelhas e formigas são exceções porque nascem de uma única fêmea, a rainha. O que isso significa? Que todos os indivíduos dessa comunidade possuem o mesmo código genético. Neste caso, o sacrifício coletivo significa diretamente o sucesso do seu gene. Não importa pra onde ele olha, todo mundo é brother ou sister.

Nós, humanos, temos códigos genéticos diferentes nas nossas comunidades, então como poderemos um dia querer que dê certo algum sistema de organização econômico-social que seja coletivista? Não funciona pelo simples fato de sermos individualistas.

Porém, quem quer dizer isso com palavras claras, além de mim? Pouca gente. Ninguém assume, porque a canalha comunista/socialista que infectou as redações, artes e salas de aula na América Latina, colocou nas cabeças e mentes de todos, que o ato de pensar em si mesmo é algo nefasto. Pois pensar em si mesmo mata a doutrina nebulosa deles pelo pé. Não cresce nem capim ao redor.

A individualidade está intimamente ligada com o individualismo. São gêmeos. E o que é a individualidade? É a capacidade de nós nos reconhecermos como unidade, mesmo que integrada e inserida num contexto maior, como nossa família, amizades, bairro, cidade, país, planeta, universo. Somos indivíduos com pecualiaridades próprias, uma parte única do universo composto de pessoas diferentes que às vezes partilham interesses em comum.

Deus, oquem criou tudo, não era comunista. Ou quem não acredita nele, pode seguir o mesmo pensamento. Nesse caso aqui, não importa. Deus não era comunista. Se ele fosse, todos teriam o pênis medindo 30 centímetros ou medindo 5 centímetros. Todos seriam loiros ou morenos. Todos teriam 2 metros de altura ou apenas um. Mas, pela impressão digital, já sabemos logo. Deus não queria todos iguais. Senão todos teriam a cara de Brad Pitt ou de Tião Macalé.

Os que se assumem individualistas (pois o resto finge não ser pra mamar nos outros) consideram legítimo cuidar dos seus próprios interesses. Ele não espera muito dos outros e prefere dar pouco de si.

Nesse período pós-world trade center, a discussão que anda muito em voga, principalmente aqui no Norte da América, é sobre o individualismo. Pensam os pobres iludidos que os Estados Unidos irão mudar sua maneira individualista de pensar por que foram atacados.

Os Estados Unidos se tornaram a nação forte que são principalmente em consequência da doutrina protestante. São frutos das anarco-democracias e seus maiores representantes. A expressão máxima das anarco-democracias, é o individualismo americano.

Na disciplina chamada Gestion Comparée, que fiz no meu curso de mestrado na HEC Montréal, ministrada pelo grande professor Alan Joly, um canadense que fez doutorado na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo.

Nessa disciplina, conheci um autor holandês chamado Hofstede. Ele é doutor em psicologia social e um dos principais nomes em termos de características dos países ligados com gestão.

Os Estados Unidos são o país com maior grau de individualismo entre todos os 53 estudados por Hofstede. Este é um valor cultural bastante arraigado no país. “A maioria dos americanos acredita que o individualismo é positivo e que isso é uma das raízes da prosperidade do país”, disse Hofstede.

O fato dos indivíduos serem movidos pelo seu próprio bem estar foi muito bem compreendido após Thomas Hobbes. A sua grande obra é O Leviatã. Nela é abordada a teoria contratual do governo e Hobbes é muito específico ao citar que o principal motivo por trás da teoria contratual é o comportamento do cidadão em seu próprio benefício.

Depois veio Locke, e com ele a idéia de que o indivíduo age em seu próprio benefício ganhou impulso ainda maior. Não esqueçamos Adam Smith, que foi o pioneiro a descobrir a importância dos mercados livres, nos quais os participantes buscam seu próprio bem estar, de forma independente, fazendo com que a economia atinja a eficiência.

Temos que ter a consciência que a humanidade é composta de indivíduos distintos, que não conhecem uns aos outros e que levam em consideração seu próprio bem estar em primeiro lugar.

O Wal-Mart não vende barato pensando no seu bem-estar, mas no dele. Mas graças à ele pensar no bem-estar dele, nós somos beneficiados com os preços competitivos.

Como podemos então pensar num Sistema aonde a felicidade é plena, como dizem os canalhas, alegando que os seres humanos podem e querem viver harmoniosamente sem cobiçar o que é alheio e ajudando uns aos outros?

Somos um exército, exército de um homem só...”

Fabiano Holanda, Montréal, Fevereiro de 2002.

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