Tuesday, 6 October 2020

Liberdade sem responsabilidade

Não devemos acreditar na maioria que diz que apenas as pessoas livres podem ser educadas, mas sim devemos acreditar nos filósofos, que dizem que só as pessoas educadas é que são livres”.

Epictetus.


Observando como algumas comunidades e seus membros usam e abusam da liberdade nesse país, me pego pensando o que liberdade em excesso pode causar nas pessoas que não são acostumadas com ela? E mais ainda, qual efeito que isso reflete nos outros?

O limite dessa liberdade, que pode ser abstrata para alguns, mas é bem definida pra outros, é o que causa uma grande série de problemas. Essa suposta ambiguidade só traz perdas ao homem de bem, afinal os fracos de caráter se aproveitam dessa brecha e praticam suas palhaçadas, muitas vezes impunemente.

Não podemos dar liberdade total e irrestrita à uma criança justamente porque ela não sabe ainda se utilizar desse benefício. Um pai não vai deixar um filho de cinco anos sair de casa, sem dizer onde vai e nem que horas volta. Seria uma burrice sem tamanho. Similar é dar liberdade à certas pessoas, pois não sabem viver com ela.

Algumas pessoas repetem que “A sua liberdade acaba onde começa a minha”. Acho isso um conceito falho. A sua liberdade e a minha estão interligadas e para que exista a minha liberdade, é necessário que a sua esteja consagrada e que viva em perfeita comunhão com a minha, caso contrário ela não pode validá-la.

Junto com essa liberdade exagerada, temos ainda o problema da falta de respeito ao próximo. A violência entre os homens está associada com esses dois pontos.

Alguns anos atrás, visitei uma cidade no velho oeste potiguar chamada Caraúbas. Lá, apesar de uma enorme fama de violenta, não vi sequer uma discussão. Abismado, perguntei ao meu amigo e ele me disse que lá ninguém desrespeitava ninguém levianamente. Todo mundo educado e obrigado e com licença eram bem usados. Ele me disse que lá ninguém brigava por besteira pois a punição era severa e instantanea. Então optaram pelo caminho da cordialidade.

A liberdade pode matar. Lembro do caso dos cintos de segurança. Quando era criança, a gente usava se quisesse. Muitos carros nem vinham com cinto. De três pontas então, só conheci depois de grande. Então começou a campanha pra usarmos o cinto. Quase ninguém usava, mesmo sabendo que era pra sua prória proteção.

Foi que de repente, não mais do que de repente, foi instaurada uma punição pra quem não quisesse usar o cinto. E todos passaram a usar. Mas quem não entende a liberdade, reclamava do governo, dizendo que não podiam escolher se eles e os filhos queriam morrer sem cinto. Compreende que às vezes é preciso que as coisas sejam forçadas?

Da mesma forma no Brasil, um grupo de pilantras nos anos 60, em nome de uma liberdade fajuta, pois na verdade queriam implantar um sistema comunista no Brasil, se sentiam livres pra matar, roubar, sequestrar, extorquir e outras mazelas brasil adentro.

O discurso deles era que estavam pegando em armas para acabar com a ditadura militar, justamente porque os militares atendendo um chamado do povo, interrompeu a escalada pêlega iniciada com o pêlego-mor, João Goulart. Isso ficou tão enraizado na cabeça do brasileiro que virou “in” ter sido um terrorista, comunista, bandido, e tudo que fosse contra os militares. Os professores de história canalhas que fizeram mais esse desfavor à nação.

Na cabeça doente desses vagabundos, Fidel é um herói porque exterminava aos borbotões opositores do seu sistema e os militares eram monstros porque em 25 anos de governo militar, desapareceram 247 terroristas. Esses são números para Fidel numa tarde, enquanto tomava seu rum, fumava seu charuto e jogava Texas Hold'em. Canalhas como Chico Buarque e Oscar Niemeyer pensam assim. Dois pulhas.

Dá pra sacar como o conceito de liberdade é elástico e flexível? Li o livro Autópsia do medo, sobre a vida e morte do delegado Sérgio Fleury, de Percival de Souza. O autor afirma que os dois lados envolvidos na guerra não podem ser eximidos de culpa. Houve excessos dos dois lados, mas que a violência começou a ser escalada pelos terroristas.

Acontece que hoje em dia, esses terroristas estão ocupando cargos e querendo punir os militares. O Brasil é mesmo sui-generis. Seja terrorista e em vez de punição, irás virar deputado, como Gabeira e tantos outros.

Mas e a tal liberdade? Tocqueville dizia que ela era algo extremamente frágil e por isso deveria ser querida e protegida. Compreende? E não usada como se usa um papel higiênico. Mas ele alertou contra os perigos de se querer igualdade, essa impossível de se alcançar e que quando se tenta, só se tem desgraça.

Quando se busca igualdade, ameaçamos a liberdade, pois criamos a tirania da maioria e um estado autoritário e despóta, que foi o que aconteceu em todos os países comunistas e que os lindinhos queriam implantar no Brasil. A gente deveria fazer oração pros militares todos os dias, agradecendo o mal que eles evitaram.

Tocqueville afirmou que o ideal liberal, que tem por base a independencia do indivíduo, é inconciliável com o ideal de igualdade, pois este último nivela as pessoas, retirando entre outras coisas, sua liberdade de expressão e tudo o mais.

É neste ponto que ele combate o socialismo por entender que difundem idéias politicas onde o que deve prevalecer é o igualitarismo em detrimento da defesa da liberdade. O socialismo fortalece o poder do estado que desemboca em um despotismo no qual a liberdade dos cidadãos desaparece.

Para Mill, a luta entre liberdade e autoridade é a característica mais marcante nas frações da história. Segundo ele, nenhuma sociedade que não garanta a liberdade de expressão e opiniões, a liberdade de escolha do próprio plano de vida de cada cidadão e a liberdade de associação, não é uma sociedade livre, seja qualquer forma de governo.

Mill, no entanto, fala muito da responsabilidade que deve acompanhar essa liberdade. Liberdade existe pra ser usada e não mal interpretada ou manipulada. Os imigrantes oriundos de países onde a liberdade é mais cara do que ouro, tem que se adequarem para não terem uma over dose dessa maravilha, igual ao sujeito que nunca comeu camarão.

Tal qual uma baleia que viveu toda a vida num aquário e vai pro oceano de repente. Inicialmente ela pode achar que está melhorando de vida, mas na verdade não sabe nem como arranjar alimentos pra sua sobrevivência e se pudesse pediria pra voltar pro aquário.

Fabiano Holanda, Montréal, Março de 2002.

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