Friday, 20 August 2021

A difícil e deliciosa tarefa de educar

A tarefa mais maravilhosa e difícil do mundo ao mesmo tempo é educar os seus filhos. O grande cheirador de pó chamado Freud já disse há mais de um século atrás: “A educação é uma dessas profissões em que errar é inevitável”. Assim, conclui-se que os pais perfeitos não existem. Mas eu acho que os pais devem estar sempre disponíveis para que a criança possa recorrer a eles nos momentos em que precisa de ajuda ou simplesmente quando querem dividir suas descobertas sobre o mundo.

Eu fico bobo demais com a inteligência das minhas filhas. Só não fico bobo com a inteligência do seu filho porque não acompanho. Mas a cada segundo sou surpreendido com o que escuto, vejo e presencio. Um dia, eu mostrei a fábrica da Ford que tem na Queen Elizabeth Way, fronteira de Oakville com Mississauga. Todas as vezes, após esse dia, quando elas vêem o símbolo da Ford na parede da fábrica, gritam: “Papai, olha a Ford”. Dias depois eu adicionei a informação que a Ford fazia carros. A partir dai, foi: “Papai, olha a Ford. A Ford faz carros.” Dois anos de idade. Quando tive aula do professor Allan Chanlat, no mestrado, ele dizia : quando tiverem filhos, observem a evolução diária, é maravilhoso. Lembro sempre dele.


Elas conhecem quando vai chegando em casa e deixo elas dizerem o caminho… E dizem. Por aqui, por ali. Desde que conseguem falar, ao me verem pela primeira vez no dia gritam: “Bom dia, papai”. Ou quando espirro: “Saúde, papai”. No que eu digo: “Obrigado”, e lá vem um: “De nada, papai”.

Eu acredito piamente que qualidade de tempo gasto com seus filhos é infinitamente mais importante do que quantidade. Passo o dia inteiro sem ter contato com as meninas, e mesmo assim, acredito que o tempo que passo com elas, elas ficam bastante satisfeitas. Claro, estou sempre em eterna disputa de atenção com Max and Ruby ou com os Backyardigans, que diga-se de passagem, foram ambos criados aqui em Toronto.


Mas, se olharmos na história, na Idade Média, os adultos tratavam as crianças como seres adultos, e estas recebiam a mesma atenção que era dispensada aos animais domésticos. Se bem que hoje em dia, muitos canadenses dão mais atenção aos animais de estimação do que aos próprios filhos, mas isso é outra história. Pedagogia comum na Idade média era levar as crianças pra assistir a execução de criminosos, pra aprenderem que o crime não compensa.


As crianças só foram reconhecidas como um ser diferente do adulto entre os séculos quinze e dezesseis. E só então pais e filhos se tornaram mais próximos efetivamente. Mas somente no final do século 17, com a disseminação da escola, que a visão dos pais mudou com relação aos pequenos. Os pais passaram a conviver mais com os filhos, que até então eram próximos efetivamente, mas eram considerados como enfeites. No século 19, a família passa a se organizar em torno dos filhos. A criança sai do anonimato e passa a polarizar a atenção com os adultos. A educação aqui nesse tempo é severa.


Em meados do século 20, a urbanização, o anticoncepcional e a carreira feminina tornaram a maternidade como uma escolha e não uma fatalidade como antes. As mulheres demoram mais pra ter filhos, mas quando decidem que chegou a hora, colocam uma carga emocional e um afeto muito maior do que as mulheres de antes. Nas teorias educacionais de hoje, dizem que as crianças precisam brincar e muito.

Apesar de largamente difundido que a interação dos filhos com a mãe é muito importante, a proximidade do pai é fundamental para o desenvolvimento cognitivo da criança. Eu acredito que o pai tem que participar. Nesse sentido, eu levo as meninas pra escola e pego todo dia. Todos os visitas médicas que elas foram na vida, eu estava presente. Todas as vacinas, eu segurei-as. Toda noite, eu faço questão de ficar um pouco com elas até elas dormirem. E com certeza, irei monitorar o desempenho escolar delas.


Acredito que a palavra-chave de uma educação mais distante possível do fracasso chama-se “atenção”. Os filhos estão sempre passando recados sutis aos pais. As crianças pequenas possuem grande dificuldade de explicar o que lhes dá aflição, então uma simples brincadeira pode deixar você ficar sabendo de muita coisa.

Esse acompanhamento, porem, não pode ser uma obrigação. Tem que ser prazeroso pros pais, pois se a criança percebe que os pais ficam entediados quando estão com elas, o resultado pode ser pior do que se você ficar quieto no seu canto. Se não está afim, não brinque, afinal a criança também tem que aprender que as vezes irão encontrar um “não” pela vida delas.


Pra quem não sabe, a criança precisa de carinho e afeto e de se sentir amada. Toda vida que puder, o pai ou a mãe deve deixar isso claro. Nem que você queira ficar no computador escrevendo, como estou fazendo agora, as minhas filhas estão perto de mim desenhando. Ou vendo TV sentadas no meu colo. E ganham vários beijos o tempo todo. E eu também ganho os meus.


A rotina é muito importante, pois do ponto de vista da criança que está crescendo, o normal é extraordinário. A criança deve saber a qualquer momento onde poderão encontrar os pais. Na hora de acordar, as meninas só pararam de acordar chorando quando iam no meu quarto e comprovavam que eu estava ali.


Outra coisa que é importante notar, é que a criança aprende por modelo e não por discurso. As pequenas mentiras fazem bastante mal. Ao invés de você dizer a verdade, que vai ao trabalho e que volta de noite, você mente e diz que vai ali e volta já. Ai quando volta, diz que não queria ter ido trabalhar, coisa e tal. Ai a criança irá fazer de tudo pra que você não vá pro trabalho, afinal, você nem gosta mesmo. Mas a verdade tem que ser dita, pois é uma forma das crianças serem apresentadas aos fatos da vida.


Para viver em clima de segurança, a criança precisa de regras, pois as regras ajudam a dar um senso de referencia, a partir do qual eles aprenderão a organizar o mundo deles. Não impor regras consiste num dos maiores pecados dos pais modernos. O não é uma palavra protetora. Claro que os filhos não gostam e dão show. Não importa. Democracia não funciona em educação.


Não se deve também lotar a agenda dos filhos como forma de fazer com que elas não sintam a falta dos pais. Eles continuam sentindo. Alem disso, a permanência da criança em casa é muito importante. É preciso passar um mínimo de tempo em um porto seguro, um cantinho onde cada objeto é conhecido e cada sombra é familiar. Isso é uma requisito especial pra que a criança se sinta segura.


Se dependesse dos filhos pequenos, os pais só se afastariam deles por alguns minutos e só se fosse pra sair pra comprar um brinquedo ou um sorvete pra eles. Já o desejo dos adolescentes é que os pais sumam de vez em quando, principalmente quando estão na companhia de outros adolescentes. Assim, o certo é estar com os filhos na medida certa, sem superproteger ou abandonar.

Espero acertar nessa que com certeza será o trabalho mais difícil e importante da minha vida. Esse mês minhas filhas completam dois anos de idade. Que privilégio eu tenho. Deus é muito bom!!


Fabiano Holanda, junho de 2008, Mississauga, ON.




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