Thursday, 15 October 2020

A faixa da discórdia

        


        A grande questão no caso da retirada de Israel da faixa de Gaza é porque a retirada? Por que agora?

 

        Porque Ariel Sharon está fazendo isso de maneira unilateral, quando na verdade ele sempre foi dramaticamente contra isso, e inclusive ganhou as ultimas eleições fazendo campanha contra a saída de Gaza?

 

        O mundo inteiro está perplexo com sua mudança de política. E sabemos que Sharon está pondo em risco sua carreira política fazendo isso. A administração de Bush está aturdida, embora diga apoiar. Os britânicos estão perplexos, os outros países europeus perdidos e os paises árabes vizinhos estão apreensivos, embora superficialmente satisfeitos.

 

        Então porque Sharon fez isso? Acredito que não tenha nada a ver com satisfazer palestinos ou críticos de Israel, até porque não importa o quanto Israel se curve, nunca irá satisfazer seus inimigos. Eles não querem um convivência pacífica com Israel, eles querem a vitória, eles querem Israel destruído e ponto final. 

 

        Este ato demonstra, à primeira vista, fraqueza e apenas encoraja os militantes palestinos a serem mais violentos, pois pensam que conseguiram este “prêmio” devido à seus ataques terroristas. E o pensamento é: “a estratégia está dando certo. Israel está com medo e cedendo”. Mas acredito que existe uma coisa escondida por trás desse ato de Sharon.

 

        Por outro lado, é claro no Oriente Médio que nenhum país árabe deseja um estado palestino próspero. Os palestinos são um problema para todo mundo. O Egito expulsou a Organização pra Libertação da Palestina (OLP) nos anos 1960. A Legião Árabe na Jordânia empurrou a OLP pro Líbano e então a Síria invadiu o Líbano quando o OLP ficou poderosa demais.

 

        A Palestina é então uma causa que serve somente pros outros atacarem Israel. Então se acredita que Sharon está saindo de Gaza somente para colocar os outros países na defensiva e expor a hipocrisia deles sobre a Palestina, que na verdade ninguém gosta.

 

        E o que Gaza vai se tornar na verdade é um refúgio pra gangues e extremistas islâmicos, que irão ameaçar a estabilidade no Egito, mais do que em Israel.

 

        E não esqueçamos de uma importante coisa. Se necessário, o exercito de Israel pode reocupar Gaza em apenas uma noite. E em outra mão, o exército do Egito é que vai ter que lidar com o Hamas em sua fronteira com Gaza.

 

        O ponto central da decisão de Sharon pode ser mostrar a falta de capacidade da liderança palestina em formar um governo que irá trazer a paz. Em outras palavras, a faixa de Gaza não irá ficar apenas sob responsabilidade de Israel, mas também sob responsabilidade daqueles que fingem querer justiça e soberania pra o Estado Palestino. 

 

        Os quase 10.000 israelenses que foram removidos à força de Gaza são vitimas e garantias. Suas angustias e raiva são evidentes contra a determinação de Sharon e Israel de sair mesmo de Gaza, mas Sharon tem um subterfúgio: passando o problema de Gaza para outros, o mundo saberá se eles podem atingir razão e equilíbrio para esta área tradicionalmente volátil de pessoas armadas até os dentes e muitos sem casa pra morar. E se funcionar, o chamado West Bank pode ser o próximo.

 

        Mas na minha opinião, o grande golpe de mestre de Sharon foi armar uma perfeita cilada, o que nós chamamos de arapuca de pegar passarinho. Se ocorrer como ele espera, os extremistas irão usar a faixa de Gaza como incubadora de terroristas e me digam se não será extremamente conveniente para Sharon e seu exército invadir a faixa de Gaza matando todo mundo, sem colocar em risco a vida de um único residente israelense?

 

        Golpe de mestre. Mesmo com os ocupantes de Gaza traumatizados com a retirada. E se olharmos, a faixa de Gaza é um pedacinho de terra tão pequeno que nem se deve levar em consideração e é quase inútil.

 

        Por fim, e exceto por aqueles israelenses que viviam lá, Israel não está desistindo de muita coisa. Mas, mesmo esse pouco, irá testar a sinceridade daqueles que pregam por um Estado Palestino.

 

Fabiano Holanda, Brampton, Ontário, Agosto de 2005.


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