Tuesday, 6 October 2020

Buraco de rato


Pensar é o trabalho mais duro que há. O que é provavelmente o motivo porque tão puca gente se dedida a fazê-lo”.

Henry Ford

De uma maneira geral, eu dividiria as pessoas em três grandes categorias: os inertes, os ajustáveis e os visionários.
 
O primeiro grupo é composto por pessoas que são jogadas de um lado para outro durante suas tristes passagens pela terra. Elas nada escolhem, são como pedaços de madeira num rio caudaloso. Na maioria das vezes são os escravos do mundo. Tristemente, eles compõem 60% da humanidade.
 
O segundo grupo é formado por pessoas que tentam se ajustar às mudanças geradas no ambiente em que estão inseridas. Geralmente são pessoas que vivem razoavelmente bem e que estão sempre ávidas por saberem as novidades, pois é baseado nelas que esses traçam seus planos. Elas são 39% dos humanos do planeta terra.
 
O terceiro grupo é constituído por pessoas que inventam os caminhos e desbravam as matas. Pessoas que se adiantam do seu tempo. Para eles, as oportunidades não são percebidas, elas são criadas.
 
Em grande parte do tempo, pessoas que você não conhece pessoalmente e não são do seu convívio, mas que você escuta sempre o nome, são enquadradas nessa terceira categoria. Seja Bill Gates, seja o palhaço Tiririca. Eles criaram suas respectivas oportunidades. Apenas 1% dos indivíduos estão aqui nesse grupo.
 
Quem é capaz de antecipar o futuro, evita acontecimentos nefastos ou se preparará de forma máxima para os acontecimentos positivos. Isso todo mundo já sabe. Mas só quem sabe como aplicar é o terceiro e famoso grupo. Eu diria que uma pessoa que se adapta e se ajusta às novas situações e ao que se passa ao seu redor, perceberá em breve que somente isso não é mais suficiente. Hoje, é necessário ter um certo poder de influenciar o meio em que se vive.
 
O enorme problema percebido nos dias de hoje é que o grupo dos inertes está em franco crescimento, apesar dos investimentos cada vez maiores em educação ao redor do globo terrestre. Vejo nisso duas conseqüências: primeiro, o grupo dos ajustáveis irá diminuir. Segundo, por evolução, o grupo dos videntes vai ter que crescer, até mesmo para sobreviver. E desse aspecto, surgirão cada vez mais novidades ridículas em vez de inventos autênticos, pois não serão resultado de um processo natural e sim de um fenômeno forçado.
 
Gostaria de lembrar aos inertes que, é verdade, vocês têm razão, nós não escolhemos nascer, muito menos optamos pela nossa cor predominante ou escolhemos possíveis doenças. Mas, por outro lado, escolhemos nossas ações. E não consigo conceber como permanecer inerte se temos o divino poder de mudar as coisas. E digo por experiência própria, não existe nada impossível. Se nós não acharmos o caminho, é necessário inventá-lo.
 
No que se trata de resolução de problemas, os inertes possuem sempre uma solução para todos os problemas. Mas observem que essas soluções só são eficazes se nós tivermos a capacidade de pensar antes. Ter a solução depois do problema resolvido de nada adianta. E eles querem usar uma solução que além de obsoleta, não deu certo antes quando ainda era moderna, o que é pior ainda, imagine quando já está mais do que ultrapassada?
 
Além disso, os inertes procuram sempre o caminho mais fácil, pensando poderem colher algum fruto disso, não sabendo que as melhores e mais incríveis coisas da vida são provenientes de um caminho mais difícil e trabalhado.
 
Qual o caminho mais fácil hoje? É ser antiamericano? Então, o inerte está lá, com o tridente apontado pros Yankees.
 
Na segunda grande guerra, seduzido pelo caminho mais fácil, Getúlio queria entrar na guerra ao lado da Alemanha de Hitler, da Itália de Mussolini e do Japão dos kamikazes, pois era dado como certa a vitória do Eixo. Quem sabe não teria sido melhor ter entrado, aí seríamos destruídos e reconstruídos sob uma nova efígie, como o Japão e Alemanha?
 
Mas, no cenário manifestante de hoje, e se não invadisse nenhum país à sua volta, Hitler continuaria na Alemanha matando os judeus, pois isto seria uma questão interna, como alegam os analistas internacionais. E ninguém teria nada a ver com isso, afinal, foram os judeus que escolheram morrer.
 
Os sábios pacifistas de hoje alegam que ninguém pode interferir na questão do Iraque. Se Saddam tortura ou deixa de torturar, utiliza câmaras de estupro, mata dissidentes (até membros de sua própria família), dizima populações inteiras, todos civis, usando gás (como fez na cidade curda Halabja em 1988, localizada no norte do Iraque, matando mais de 5.000 pessoas), isto não é problema de ninguém, só do povo iraquiano, afinal amam o ditador!!!
 
Mas, os Estados Unidos são pior”. Chegam a babar de raiva quando falam da morada do Lúcifer, da mansão do coisa ruim. Já criaram um senso contrário ao pensamento. É impossível alegar que talvez algum americano venha a fazer alguma coisa boa um dia. É uma pena que se tenha chegado a esse extremo.
 
Porém, falo dos inertes... ah, os inertes! Os inertes, que curiosamente pensam que são ativos e engajados politicamente e dizem que pessoas que não vão às ruas reclamar por isso e aquilo são alienados e conformados. Eles são de fato uma raça curiosa que merecem um estudo sério, uma espécie de dissecação.
 
Para simplificar um pouco, o inerte-bicho-grilo-manifestante de hoje vê somente as aparências. E é necessário conhecer a realidade para transformá-la, porque nós não podemos transformar o que não conhecemos. Ou alguém vai me dizer que essa massa de contrários a isso e aquilo sabem porque alguma coisa acontece, alem do que lêem nos jornais, e de uma imprensa também de cunho contestador? É um inseto que se alimenta das próprias fezes e que cresce de tamanho a cada dia. E já está imenso.
 
A primeira vez que eu percebi a correnteza empurrando a massa dos inertes foi no episódio ridiculamente apelidado de “manifestação dos caras pintadas”. E, inacreditavelmente, ainda existe muita gente boa que acredita que o presidente Fernando Collor caiu devido à força dessa valente juventude, saindo às ruas e bradando “justiça”. Inclusive tem um tal de Lindemberg Farias que lucra até hoje com esse triste episódio. É deputado do PT e integra o grupo dos três mosqueteiros. Os outros são Heloísa Helena e Babá.
 
Virou moda. Os idiotas só não percebem que são peças figurativas do esquema. Eles são como uma vela em cima de uma mesa que serve de pano de fundo para uma cena de sexo . Não é por causa dela estar ali ou não que o mocinho vai fazer ou deixar de fazer sexo com a princesa. Ela só serve para deixar a coisa mais romântica. E romantismo não falta nessa gente.
 
Raul Seixas já dizia, ridicularizando os cabeludos protestadores de plantão, que de nada adianta esse tipo de manifestação. Se alguém quiser entrar no mundo dos ratos, você tem que se fantasiar de camundongo e entrar no buraco deles e somente uma vez lá dentro, é que você pode mudar alguma coisa. Lindemberg entrou no buraco. Se ficar de fora somente gritando palavras de ordem, os ratos ficarão somente a sorrir. E eles já estão sorrindo.
 
É dessa forma que analiso os manifestantes pró-paz. Os bicho-grilo de hoje. Em todo o mundo, inocentes e maliciosos participam de uma pressão contra os Estados Unidos da América, na qual se tende implicitamente convencer o mundo que Saddam Hussein é apenas uma vítima.
 
Os pacifistas são ingênuos e estão prestando um desserviço ao mundo. É lindo defender a paz, mas o que está ocorrendo é uma inversão de valores.
 
Vejo textos e mais textos à favor da paz. Seria muito bonito se não fosse tolo ou intencionado. Paulo Coelho escreveu um texto intitulado “Obrigado, Bush!” E assim como ele, outros escritores populistas fizeram parecido. Paulo Coelho quer arrancar aplausos fáceis. Pessoas assim não vivem sem uma autopromoção.
 
Mas, infelizmente não é essa a temática desse texto. Deixemos o julgamento do senhor Bush e do senhor Hussein para quem é de direito. Eu tento dizer é que pensem na eficiência do protesto, antes de ficarem a bradar. Gritinhos e choros só servem para as mamães perceberem e correrem para alimentar os seus filhotes. Quando a história se passa com marmanjos, essa estratégia não é eficiente nem eficaz.
 
Para os inertes, ajustáveis e visionários, fique a mensagem. É necessário agir em tempo e não ficar à procura de um diagnóstico perfeito para poder se mexer e resolver algo. O único diagnóstico perfeito é, infelizmente, aquele que a gente obtém com a autópsia. E eu continuo me negando veemetemente a chutar quem está sendo chutado por todos.
 
Os escravos servirão!
 
Fabiano Holanda, Montréal, março de 2003.

No comments:

Post a Comment

Reputação

Meu amigo Hindenberg Dutra me disse certa vez, em mesa de bar na saudosa Picanha do Dudé, na avenida Xavier da Silveira, em Morro Branco : ...