Tuesday, 6 October 2020

Henry e Peter

Os analfabetos do próximo século não serão aqueles que não sabem ler ou escrever, mas aqueles que se recusam a aprender, reaprender e voltar a aprender”.

Alvin Toffler

Existem dois grandes pensadores da administração moderna, cada um com reputação e história própria. Henry Mintzberg, o primeiro deles, é professor da renomada McGill University, em Montréal, Canadá. É considerado o papa da estratégia empresarial. No Canadá, eles o conhecem como o Peter Drucker canadense e a revista Fast Money descreveu-o como sendo o Mick Jagger do Management.

O segundo, dispensaria comentários, é a maior sumidade em termos de administração de empresas, o maior pensador vivo dessa área, o austríaco naturalizado americano Peter Drucker, o próprio a quem os canadenses se referem com tanta admiração.

Na minha humilde comparação, seria o mesmo que Peter Drucker ser o Pelé e o Henry Mintzberg ser o Ronaldinho. Porém, ambos ainda bastante atuantes ou com pensamentos bem influenciadores.

Quando um estudioso dessa envergadura tece algum comentário ou lança algum pensamento, merece ser ouvido, pois sua bagagem acerca do tema é tão vasta que seria considerada uma perda de oportunidade desperdiçar fonte tão rebuscada.

Mas, interessante e instigante ao mesmo tempo, é quando essas sumidades entram em desacordo, mesmo isso sendo raro. Ficam os pobres mortais tentando achar uma falha nos argumentos dos mestres e com uma dúvida latejando na cabeça. Quem estaria realmente com a razão? Nesse caso, eles discordam sobre um tema um pouco batido, mas atual, a liderança.

Mintzberg, numa recente entrevista ao jornal Les Affaires, uma publicação québecois sobre negócios e administração, disse que a idéia de se ir para uma escola para se tornar um líder é completamente risível. Ele alega que a estrela de um líder se manifesta antes dos dez anos de idade.

Depois disso, tudo o que se pode fazer é criar condições que fortaleçam essa liderança, como colocar os administradores em situações difíceis, mudar situações para permitir que ele aprenda, e forçá-los a refletir sobre suas próprias experiências. Entretanto, para que tudo isso seja válido, é fundamental que seja praticado com um indivíduo que já esteja envolvido em cargos administrativos e construir o ensinamento a partir da experiência desse indivíduo e não em casos citados nos livros.

Em outras palavras, segundo Mintzberg, um MBA (Master Business Administration) não serve de nada se for usado para criar um líder, um administrador. É necessário que já se seja um administrador ou líder e só em seguida deve-se fazer um MBA. Aí sim, esse tipo de curso teria sua devida importância.

Por outro lado, Peter Drucker, no prefácio do livro O Líder do Futuro, uma coletânea de artigos sobre liderança, organizada pela Peter F. Drucker Foundation, alegando que já estuda a liderança há mais de 50 anos, diz que as lições aprendidas por ele são inequívocas.

Segundo Drucker, a maior definição de líder é alguém que possui seguidores.

E continuando, ao citar a grande lição que aprendeu sobre liderança, ele arremata: “líderes natos podem até existir, mas com certeza raros dependerão deles. A liderança deve e pode ser aprendida – e este, é claro, é o motivo de este livro ter sido escrito e o objetivo de sua utilização”, referindo-se ao livro já citado.

E então, só nos resta a questão: um indivíduo pode ou não aprender sobre liderança, ou sobre como se tornar um líder?

De minha parte, acredito que o maior líder, assim como o maior jogador de basquete, sejam mesmo oriundos de talentos natos. Michael Jordan foi visto por algum olheiro, alguém o treinou e depois ele se tornou o maior jogador de basquete de todos os tempos, pois além do treinamento, possuía uma predisposição natural para esse tipo de tarefa.

Porém, existem muitos jogadores de basquete que não possuíam tal talento e mesmo assim se tornaram jogadores de alto nível e eficientes. Segundo a teoria de Mintzberg, no meu ponto de vista, teríamos somente que lidar com os Michaels Jordans da vida.

Drucker, pelo contrário, incentiva àqueles que não possuem tanto talento, mas que podem cumprir perfeitamente seus objetivos, seja liderar, seja jogar basquete ou futebol.

Imagino que existem muitas empresas que perceberam a diferença que há entre contar com um dirigente detentor de um diploma de MBA em seus quadros ou sem esse diploma. Muitos deles nunca tiveram contato com gestão e ainda assim, se tornam perfeitamente grandes administradores e líderes. Engenheiros de todas as áreas, economistas e psicólogos são a prova viva disso.

Assim, nesse embate, e mesmo com uma carga infinitamente menor de pesquisa sobre o assunto para poder opinar solidamente, ficarei mesmo com Pelé, digo, Peter Drucker. Liderança pode e deve-se ser aprendida na escola.

Fabiano Holanda, Montréal, Fevereiro de 2003.

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