“Choramos
ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes”.
William
Shakespeare
Quanto
mais me aprofundo e observo, menos entendo esse complexo animal
chamado humano.
Existem
os ditos “normais” e os conhecidos como “loucos”. Mas, quem
decide o lado que joga cada personagem? Seriam os médicos
capacitados para escalarem esses times? E quanto aos loucos que não
“precisam” de internação? Que agem livremente por ai? E com
relação aos que “precisam” de isolamento? Se observarmos ao
longo da história veremos que o louco de hoje pode ser o sábio de
amanhã, e vice-versa.
Isso
é bastante subjetivo. Sujeito à interpretações das mais diversas,
partindo livremente de cada um. A verdade, e o problema ao mesmo
tempo, é que se um invíduo qualquer foge aos padrões e normas de
uma maioria, ele automaticamente é carimbado e tratado como louco.
Por
outro lado, se esse mesmo indivíduo, sem alterar em nada o seu
comportamento específico e seguir a massa, mesmo que seja uma massa
de loucos, ele é catapultado à categoria de uma pessoa “normal”.
A
loucura pode ser encarada e concebida de diferentes formas no
decorrer da história. Da mais alta valorização e respeito
atribúido ao louco na antiguidade, enquanto visto como encarnação
de mnifestações divinas à degradação e marginalização a qual o
louco foi submetido nos asilos sujos de fezes e urina nos séculos
seguintes. Sem esquecer dos choques elétricos que eram dados nos
loucos em alguns manicômios até bem pouco tempo atrás.
Nota-se
que a sociedade manda isolar nos seus manicômios ou relegam
intelectualmente ao ostracismo todos aqueles que desejam se defender
porque se recusaram a ser cúmplices de sujeiras ou maldades, pois o
louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de
gritar certas verdades intoleráveis.
Antonin
Artaud dizia que um louco autêntico é um homem que preferiu ficar
louco, no sentido socialmente aceito, em vez de trair uma determinada
idéia superior de honra humana. O próprio Artaud foi internado como
louco e foi marginalizado e incompreendido enquanto viveu.
Como
todo seu devaneio, Antonin Artaud é uma importante referência. Tudo
que aos olhos de seus contemporaneos parece mero delírio e sintoma
de loucura, é hoje reconhecido nas mais avançadas correntes do
pensamento crítico e criação artística nas suas várias
manifestações: teatro, arte de vanguarda e criações
experimentais, manifestações coletivas e expontaneas, poesia,
linguística e semiologia, psicanálise e antipsiquiatria, cultura e
contracultura.
Dessa
forma e deixando o tempo de lado e se atendo aos grupos, situados em
um mesmo espaço de tempo, eu sou louco para um árabe e este é
completamente insano para mim. Nunca conseguirei compreender sua
lógica insana e nem ele se esforçará pra entender a minha.
Analisando
espaço e tempo, concluo que o melhor e mais correto seria manter-se
na sua própria loucura até que se julgue necessário por pelo menos
um tempo razoável para mudar, caso julgue também necessário. É
incabível pensar na possibilidade de ser chamado de louco por um
grupo diferente a cada dia. Isto já não é loucura, é covardia e
imbecilidade.
De
outra parte, se todos somos considerados loucos, somos todos
imprevisíveis e a recíproca também é verdadeira. Isso explicaria
a mudança súbita de comportamento de muitos. Nesse quesito, as
mulheres seriam o que mais perto se chegaria do louco original.
Um
criminoso que consegue provar que é louco, consegue sair da cadeia
pra cumprir pena em um manicômio. Isso se tornou uma grande
alternativa jurídica usada por advogados inescrupulosos. Advogados
esses que são considerados “normais”, donos e senhores feudais
da lei, os “doutores” advogados. A ironia é que esses “doutores”
vivem de se fazerem e de tentarem nos fazer de loucos.
Mas,
como o planeta é compoto de loucos, nem sempre as fórmulas
prescritas dão certo. Muitos até morrem tentando entender a loucura
alheia. Ou morrem tentando fazer alguma malandragem com um louco. É
preciso ter cuidado. O louco tem sua própria lógica e julgamentos
independentes dos que estão nos códigos penais.
Randall
McMurphy, personagem de Jack Nicholson no filme One flew over the
cuckoo's nest (Um estranho no ninho, no Brasil), chega em um
hospício tentando se livrar de uma pena por ter tido relações
sexuais com uma menina de 14 anos, o que se chama de “Statutory
rape”. Uma vez lá dentro, ele tem várias descobertas e faz uma
verdadeira revolução dentro do hospício, seja repensando suas
próprias convicções, seja incentivando os “verdadeiros loucos”
que lá estavam a também repensarem as deles.
Foi
morto por um louco bem mais forte do que ele, que era muito seu
amigo, mas que acreditava que só tiraria McMurphy realmente dali se
o matasse. O louco, além de louco, era um indígena e tinha suas
próprias crenças à parte da loucura.
A
experiencia dessa vida louca me deixou ao menos uma herança, um
gabarito pra acertar em cheio loucos e bêbados. A receita é
simples: quando um louco diz “eu sou louco”, ele não é. É um
impostor. O mesmo se aplica a um “bebum”. Se ele disser estou
bêbado, ele não está. Está apenas fingindo.
Se
ele é louco ou está bêbado, ele não vai saber porque pra ele
aquilo ali será o normal. Seria o mesmo que alguém sair gritando:
“eu sou normal, eu sou normal”. Se encontrar alguém assim, pode
internar, pois este é o verdadeiro louco varrido.
Seguindo
o raciocínio que constatamos no caso de Artaud, percebemos que os
grupos são efêmeros e a loucura disso tudo é comprovar como somos
o que parecemos ser. E a coisa é tão séria que até nós mesmos
acreditamos nessa suposta insanidade.
O
caso dos grupos é bastante curioso. Todos nós colocamos e somos
colocados dentro de grupos por terceiros diariamente. Exemplificando
pra clarear. Para mim o melhor filme de todos os tempos é o The
Godfather (O poderoso chefão, em português).
Se
um sujeito chegar pra mim e falar que esse filme é um “lixo”,
automaticamente eu o jogo num grupo dentro da minha cabeça com a
seguinte placa: “Grupo dos que não entendem porra nenhuma de
filme”. Podem criticar uma coisa ou outra, mas dizer que é lixo?
Não, não perco mais tempo com ele.
No
mesmo sentido, existem pessoas que sei que já me colocaram na
geladeira quando o assunto é política ou economia. Muitos por falta
de argumentos, muitos por falta de paciência mesmo.
Outro
dia eu conversava com uma menina que fazia mestrado comigo e era
orientada por Omar Aktouf e ela dizia que tinha muitos problemas de
relacionamento com o professor por conta do seu radicalismo.
Eu
não creio nisso. O que acontece é que as pessoas tentam derrubar
sólidos argumentos, estudados, pensados, repensados por anos e
quando não conseguem, desistem e te chamam de radical. É a maneira
mais simples.
Não
que eu seja inteligente, acima da média, gênio ou algo assim.
Apenas todos os que encontrei até agora que me chamam de radical são
pessoas da mais pura vacuidade mental, muito abaixo do que eu
chamaria de medíocre. Gostaria de encontrar um marxista convicto,
daqueles bem fudidos, sem nem casa pra morar, pra me convencer que
ele tá certo e que seus resultados são convincentes. Mas até hoje
nenhum debate valeu que eu levantasse nem a sobrancelha.
Os
canhotos até hoje só me fizeram rir. Os argumentos são parcos e se
apóiam somente na caridade e na piedade, tentando convencer as
pessoas pelo coração mole, como se todos nós fossemos pessoas sem
cérebros. Tenhamos cuidado com a estratégia gramsciana de
dominação, já alertava o filósofo Olavo de Carvalho.
O
governo esquerdista de Lula tá bem parecido com o governo
“neoliberal” de FHC. Nem em termos econômicos, ideológicos ou
políticos. Apenas criou o famigerado “Ministério da Fome”.
Insuportável
é o falatório desse povo. Falando em loucura, será que todos os
meus amigos estão loucos? Todos estão empolgados com o safado na
presidência. Não desejo o mal a ningúem, mas depois não venham
dizer que não avisei. Esse barbudo sem vergonha pode até se fazer,
mas de louco não tem nada. Esse dá nó em pingo de éter. Ou de
cachaça. Tempos sombrios vindouros é que o temos no cardápio!!
Fabiano
Holanda, Montréal, Janeiro de 2003.

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