Tuesday, 6 October 2020

Um estranho no ninho

Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes”.

William Shakespeare

Quanto mais me aprofundo e observo, menos entendo esse complexo animal chamado humano.

Existem os ditos “normais” e os conhecidos como “loucos”. Mas, quem decide o lado que joga cada personagem? Seriam os médicos capacitados para escalarem esses times? E quanto aos loucos que não “precisam” de internação? Que agem livremente por ai? E com relação aos que “precisam” de isolamento? Se observarmos ao longo da história veremos que o louco de hoje pode ser o sábio de amanhã, e vice-versa.

Isso é bastante subjetivo. Sujeito à interpretações das mais diversas, partindo livremente de cada um. A verdade, e o problema ao mesmo tempo, é que se um invíduo qualquer foge aos padrões e normas de uma maioria, ele automaticamente é carimbado e tratado como louco.

Por outro lado, se esse mesmo indivíduo, sem alterar em nada o seu comportamento específico e seguir a massa, mesmo que seja uma massa de loucos, ele é catapultado à categoria de uma pessoa “normal”.

A loucura pode ser encarada e concebida de diferentes formas no decorrer da história. Da mais alta valorização e respeito atribúido ao louco na antiguidade, enquanto visto como encarnação de mnifestações divinas à degradação e marginalização a qual o louco foi submetido nos asilos sujos de fezes e urina nos séculos seguintes. Sem esquecer dos choques elétricos que eram dados nos loucos em alguns manicômios até bem pouco tempo atrás.

Nota-se que a sociedade manda isolar nos seus manicômios ou relegam intelectualmente ao ostracismo todos aqueles que desejam se defender porque se recusaram a ser cúmplices de sujeiras ou maldades, pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de gritar certas verdades intoleráveis.

Antonin Artaud dizia que um louco autêntico é um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceito, em vez de trair uma determinada idéia superior de honra humana. O próprio Artaud foi internado como louco e foi marginalizado e incompreendido enquanto viveu.

Como todo seu devaneio, Antonin Artaud é uma importante referência. Tudo que aos olhos de seus contemporaneos parece mero delírio e sintoma de loucura, é hoje reconhecido nas mais avançadas correntes do pensamento crítico e criação artística nas suas várias manifestações: teatro, arte de vanguarda e criações experimentais, manifestações coletivas e expontaneas, poesia, linguística e semiologia, psicanálise e antipsiquiatria, cultura e contracultura.

Dessa forma e deixando o tempo de lado e se atendo aos grupos, situados em um mesmo espaço de tempo, eu sou louco para um árabe e este é completamente insano para mim. Nunca conseguirei compreender sua lógica insana e nem ele se esforçará pra entender a minha.

Analisando espaço e tempo, concluo que o melhor e mais correto seria manter-se na sua própria loucura até que se julgue necessário por pelo menos um tempo razoável para mudar, caso julgue também necessário. É incabível pensar na possibilidade de ser chamado de louco por um grupo diferente a cada dia. Isto já não é loucura, é covardia e imbecilidade.

De outra parte, se todos somos considerados loucos, somos todos imprevisíveis e a recíproca também é verdadeira. Isso explicaria a mudança súbita de comportamento de muitos. Nesse quesito, as mulheres seriam o que mais perto se chegaria do louco original.

Um criminoso que consegue provar que é louco, consegue sair da cadeia pra cumprir pena em um manicômio. Isso se tornou uma grande alternativa jurídica usada por advogados inescrupulosos. Advogados esses que são considerados “normais”, donos e senhores feudais da lei, os “doutores” advogados. A ironia é que esses “doutores” vivem de se fazerem e de tentarem nos fazer de loucos.

Mas, como o planeta é compoto de loucos, nem sempre as fórmulas prescritas dão certo. Muitos até morrem tentando entender a loucura alheia. Ou morrem tentando fazer alguma malandragem com um louco. É preciso ter cuidado. O louco tem sua própria lógica e julgamentos independentes dos que estão nos códigos penais.

Randall McMurphy, personagem de Jack Nicholson no filme One flew over the cuckoo's nest (Um estranho no ninho, no Brasil), chega em um hospício tentando se livrar de uma pena por ter tido relações sexuais com uma menina de 14 anos, o que se chama de “Statutory rape”. Uma vez lá dentro, ele tem várias descobertas e faz uma verdadeira revolução dentro do hospício, seja repensando suas próprias convicções, seja incentivando os “verdadeiros loucos” que lá estavam a também repensarem as deles.

Foi morto por um louco bem mais forte do que ele, que era muito seu amigo, mas que acreditava que só tiraria McMurphy realmente dali se o matasse. O louco, além de louco, era um indígena e tinha suas próprias crenças à parte da loucura.

A experiencia dessa vida louca me deixou ao menos uma herança, um gabarito pra acertar em cheio loucos e bêbados. A receita é simples: quando um louco diz “eu sou louco”, ele não é. É um impostor. O mesmo se aplica a um “bebum”. Se ele disser estou bêbado, ele não está. Está apenas fingindo.

Se ele é louco ou está bêbado, ele não vai saber porque pra ele aquilo ali será o normal. Seria o mesmo que alguém sair gritando: “eu sou normal, eu sou normal”. Se encontrar alguém assim, pode internar, pois este é o verdadeiro louco varrido.

Seguindo o raciocínio que constatamos no caso de Artaud, percebemos que os grupos são efêmeros e a loucura disso tudo é comprovar como somos o que parecemos ser. E a coisa é tão séria que até nós mesmos acreditamos nessa suposta insanidade.

O caso dos grupos é bastante curioso. Todos nós colocamos e somos colocados dentro de grupos por terceiros diariamente. Exemplificando pra clarear. Para mim o melhor filme de todos os tempos é o The Godfather (O poderoso chefão, em português).

Se um sujeito chegar pra mim e falar que esse filme é um “lixo”, automaticamente eu o jogo num grupo dentro da minha cabeça com a seguinte placa: “Grupo dos que não entendem porra nenhuma de filme”. Podem criticar uma coisa ou outra, mas dizer que é lixo? Não, não perco mais tempo com ele.

No mesmo sentido, existem pessoas que sei que já me colocaram na geladeira quando o assunto é política ou economia. Muitos por falta de argumentos, muitos por falta de paciência mesmo.

Outro dia eu conversava com uma menina que fazia mestrado comigo e era orientada por Omar Aktouf e ela dizia que tinha muitos problemas de relacionamento com o professor por conta do seu radicalismo.

Eu não creio nisso. O que acontece é que as pessoas tentam derrubar sólidos argumentos, estudados, pensados, repensados por anos e quando não conseguem, desistem e te chamam de radical. É a maneira mais simples.

Não que eu seja inteligente, acima da média, gênio ou algo assim. Apenas todos os que encontrei até agora que me chamam de radical são pessoas da mais pura vacuidade mental, muito abaixo do que eu chamaria de medíocre. Gostaria de encontrar um marxista convicto, daqueles bem fudidos, sem nem casa pra morar, pra me convencer que ele tá certo e que seus resultados são convincentes. Mas até hoje nenhum debate valeu que eu levantasse nem a sobrancelha.

Os canhotos até hoje só me fizeram rir. Os argumentos são parcos e se apóiam somente na caridade e na piedade, tentando convencer as pessoas pelo coração mole, como se todos nós fossemos pessoas sem cérebros. Tenhamos cuidado com a estratégia gramsciana de dominação, já alertava o filósofo Olavo de Carvalho.

O governo esquerdista de Lula tá bem parecido com o governo “neoliberal” de FHC. Nem em termos econômicos, ideológicos ou políticos. Apenas criou o famigerado “Ministério da Fome”.

Insuportável é o falatório desse povo. Falando em loucura, será que todos os meus amigos estão loucos? Todos estão empolgados com o safado na presidência. Não desejo o mal a ningúem, mas depois não venham dizer que não avisei. Esse barbudo sem vergonha pode até se fazer, mas de louco não tem nada. Esse dá nó em pingo de éter. Ou de cachaça. Tempos sombrios vindouros é que o temos no cardápio!!

Fabiano Holanda, Montréal, Janeiro de 2003.

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