“O
povo é aquela parte do Estado que não sabe o que quer.”
Hegel
No
inverno de 2001, cursei uma disciplina no mestrado chamada Gestão
Comparada, ministrada pelo professor Allain Joly. Nessa disciplina,
tínhamos por base o método da comparação entre as especificidades
culturais de cada país e suas características de gestão,
relacionando-as também com as respectivas características de outros
países também.
Para
dar mais interatividade ao curso, cada aluno deveria ficar
responsável em fazer um panorama profundo sobre um determinado país
e depois apresentar e discutir com os outros alunos. Por sorteio,
fiquei encarregado de estudar o Chile.
À
princípio, eu não tinha muita informação sobre este país, só
sabia que produzia vinho. Mas, quanto mais eu me aprofundava, mais eu
constatava o quanto eu tinha sido enganado pela imprensa brasileira e
pelo mito monstruoso criado em torno da figura do ex-presidente
chileno General Augusto Pinochet.
Sim,
mito monstruoso sim, pois Fidel Castro (outro mito, só que este do
“bem”, construído pela nossa Intelligentzia) fazia muito
pior do que o general chileno e só se conseguia ler coisas boas
sobre a revolução cubana e seu líder máximo. Vão chupar bagos,
canalhas!
Cada
vez mais passo a acreditar na força dessa pergunta: porque tantas
daquelas pessoas que eu admirava quando mais novo, como Chico Buarque
de Holanda, por exemplo e tantos outros, vivem esculhambando os
Estados Unidos, Pinochet, Médici, Geisel e se embrenham tanto em
defender pilantras como Fidel Castro?
Isso
é curioso, pois na verdade se formos olhar para o lado assassino da
questão, e isso é o que eles mais reclamam, Fidel matou muito mais
gente do que Pinochet para chegar e se manter no poder. E os
presidentes brasileiros não mataram nem 5% do número do barbudo
satânico cubano.
Em
números oficiais, tivemos não mais que 300 mortes no Brasil, em 21
anos de ditadura militar. E essa contagem abrange números de ambos
os lados, ou seja, do governo e dos terroristas. Estes são números
oficiais, não contestados por nenhum lado.
Desde
minha tenra idade eu escutei dizer que Pinochet era um crápula. De
fato, uma ditadura militar sempre deixa para trás as suas mazelas e
tristezas e apesar de eu defender descaradamente uma total liberdade
política e econômica, às vezes, uma ditadura “pode” ser útil
aos interesses de um país. Outras vezes não, é verdade. Não quero
dizer que se trata de um método totalmente eficaz. Quero dizer
também que não é totalmente ineficaz.
No
caso do Chile eu diria que a política praticada por Pinochet fez com
que o Chile ficasse sendo hoje em dia uma ilha de prosperidade dentro
de uma América do Sul cheia de problemas.
Nós
devemos reconhecer o papel central que teve o governo militar do
general Augusto Pinochet, no Chile, no que se refere à liberalização
do mercado, na liberdade do comércio e na abertura do país à
concorrência internacional.
O
Chile vai bem dentro de uma América Latina que tudo vai mal. E o
irônico disso tudo é que toda essa prosperidade veio de decisões
tomadas no período compreendido entre 11 de setembro de 1973 à 5 de
outubro de 1988, o período de governo do velho ditador.
Lá,
existiram os Chicago Boys, que eram jovens economistas chilenos que
veneravam dois mestres: Milton Friedman (professor da Universidade de
Chicago) e Sérgio Castro (da Universidade Católica de Santiago).
Essas pessoas colocaram à prova as idéias do neoliberalismo e antes
mesmo que elas tivessem seduzido Margaret Tatcher em Londres ou
Ronald Reagan em Washington, elas estavam à serviço de Pinochet.
A história foi injusta. Figuras emblemáticas do liberalismo
econômico que entraram para a história foram somente Tatcher e
Reagan. Esqueceram Pinochet. Talvez por não se sentirem à vontade,
quem sabe?
O fato é que essa turma fez do seu país o laboratório de seu
modelo até então teórico, fundado sobre a eliminação do controle
de preços, da abertura comercial à concorrência internacional, do
auxilio à exportação e sobretudo, fundado sobre um processo
radical de privatizações, incluindo os serviços de saúde e de
previdência social e entregando ao setor privado as centenas de
empresas que tinham sido nacionalizadas durante o governo de Salvador
Allende.
Nesse caso, a ditadura não foi nenhum fator dificultador: ela
permitia impor suas reformas sem discussões nem compromisso a uma
sociedade condenada ao silencio e à docilidade.
Mas, apesar dessa contradição, que a liberdade econômica tenha
surgido da falta de liberdade política, essas reformas transformaram
profundamente a sociedade chilena, pois permitiram uma mudança
radical nas estruturas de produção do país e uma decolagem
econômica.
A mudança do regime se caracterizou por uma profunda modificação
das estruturas políticas e pela continuidade do sistema econômico,
precisamente porque este era completamente eficaz.
O país assinou acordos comerciais bilaterais com o México, Canadá,
América Central, União Européia e com os Estados Unidos assinado,
em 2002.
Outro ponto é o baixo nível de corrupção no país. O motivo: são
raros os contratos públicos.
A constatação que faço é de que numa população infantil, ou
seja, que não sabe o que quer da vida ainda, não deveria ser
liberada para escolher os seus dirigentes e muito menos opinar nos
destinos que a sua nação deve tomar.
Por exemplo, onde já se viu dar direito a um analfabeto de votar? E
pior, onde já se viu dar direito a um analfabeto de possuir cargos
políticos? E de um analfabeto de ser presidente de uma nação?
Calculo como sendo mais ou menos um pai indo perguntar ao filho de 6
anos que rumos deverá tomar na sua profissão ou o que fazer com o
dinheiro extra que recebeu de herança. O filho dele provavelmente
irá dizer para usar todo o dinheiro comprando brinquedos e que o pai
não deve trabalhar mais, para ficar o dia inteiro com ele em casa.
É assim que se comportam os eleitores verdes. E por que não dizer
verdes e amarelos?
Escrito
em Montréal, em setembro de 2003.

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