Tuesday, 6 October 2020

Pagar pra falar e pra ouvir

Quem se preocupa sinceramente com os pobres deve buscar, obsessivamente, elevar a demanda de mão-de-obra através de medidas como: 1) A privatização de empresas estatais, pois o governo falido perdeu a capacidade de investir; 2) A eliminação de restrições ao capital estrangeiro, que geraria empregos e traria tecnologia; 3) A diminuição dos encargos sociais e burocráticos, que oneram o custo da contratação.”

Roberto Campos

A minha relação com o telefone sempre foi de amor e ódio. Sempre gostei de usá-lo, mas nunca gostei de falar demais por ele. E sempre gosto de telefonar. Receber o telefonema já não é uma das minhas coisas favoritas. Mas o fato é que o meu primeiro contato com a invenção de Graham Bell, esse grande canadense, foi com um aparelho que se localizava na sala da minha casa. Ficava em cima de um móvel e tinha um cadeado, para que somente as ligações fossem feitas com autorização de quem pagava a conta, no caso, o meu pai, o proprietário do 221-0274.

Parece uma história medieval, o que estou contando aqui. Os nascidos dos anos 90 vão ficar perdidos igual a mim quando falam em escarradeiras. O cadeado era tipo um cinto de castidade da comunicação. O dono ciumento do aparelho queria manter a virtude da conta preservada e assim metia a tranca. Como o brasileiro era e sempre será um sujeito inventivo, logo se aprendeu que ao bater na lingueta que segurava o gancho reproduzia o número que se desejava discar.

E as contas voltaram aos píncaros, pois a diversão da rapaziada era ligar pro Disque-Amizade, 145, pra bater papo e atrapalhar a foda de quem por ali tentava planejar. O cara todo galante tentava cantar a menina e quem estava escutando a conversa gritava: “Ele é um fudido, tá liso, e é casado!!”, antes que o cara pudesse se explicar, a menina desligava. E o cara passava a nos esculhambar, e pegue palavrão de todo lado.

O grande professor de matemática Hélio Barra Boa ia me dar aula particular na sétima série na parte da tarde. Ele dizia pra eu fazer os exercícios e cochilava com os braços cruzados. Quando eu o acordava, ele perguntava se eu havia feito, o que eu nao havia pois não sabia de porra nenhuma, e ele pedia pra usar o telefone. Com maestria driblava o cadeado com as batidinhas na lingueta e ia bater papo com as empregadas que queria comer. O resultado, claro, fui reprovado, pois o temido professor Luzimar não alisava o couro de ninguém, muito menos o meu e o de Barra Boa, o terror das empregadas domésticas.

O 145 era o percursor do MIRC, do ICQ e do bate papo do UOL. Até que por meados de 1995, meu amigo Alberto Campos me apareceu com um telefone móvel. Era um PT 550 da Motorola, que se pagava pra ligar e pra receber. Segundo ele, só haviam até aquele momento, dez unidades em todo o Rio Grande do Norte. O do pai dele e de mais 9. Era uma fase de teste. A bateria durava 2 horas.

Eu demorei a ter um. Foi só com a TIM e apesar de ser ainda um número analógico, já foi no fim dele. Logo chegou a BCP e eu adquiri um telefone Digital, sob a batuta do ilustre Juliano Sammy. Até sair do Brasil, eu tinha um Nokia.

Mas voltando um pouco na história, ter uma linha de telefone em casa era uma coisa difícil de se obter. Tinha uma fila enorme de espera e tínhamos que pagar uma fortuna no mercado paralelo. Eu sabia que alguém tinha posses quando este tinha duas ou mais linhas em casa. Chegavam a cobrar até o valor de um automóvel por uma linha. A outra opção era esperar na fila da estatal até cinco anos.

A embratel, criada em 1965 e a Telebrás, criada em 1972, não tinham mais fôlego pra acompanhar os investimentos necessários e o presidente Fernando Henrique precisava privatizar urgentemente a telefonia brasileira. Evidentemente, a esquerda nojenta brasileira foi contra e fez de tudo pra impedir. Hoje, no começo dos anos 2000, alguém é contra essa privatizações? Nem os canalhas esquerdistas falam mais nisso.

Em 16 de agosto de 1995, foi promulgada a emenda constitucional 8, que flexibilizava as telecomunicações, mas a cegueira brasileira acerca de como seria feita era uma vergonha. Ficamos patinando até 29 de julho de 1998, quando o governo vendeu os 20% de ações que ainda tinha na Telebrás. Arrecadou 22 bilhões de reais, 63% acima do lance inicial. Houve logo um investimento da ordem de 100 bilhões de reais no sistema.

O esquerdista acredita que o governo tem que inventar dinheiro, mas não temos como fazer isso. O melhor mesmo é deixar a iniciativa privada tomar conta das empresa e ainda administrá-las e o governo recebe os impostos, sem ter dor de cabeça. Além de que nós, os pagadores de impostos, não temos que investir nosso dinheiro na modernização das instalações dessas empresas e muitos arcar com o passivo trabalhista dos super remunerados e super protegidos funcionários públicos.

Dizem que não há melhor programa social do que um emprego. É verdade. Mas uma privatização também não é longe disso. Uma distribuição enorme no número dos telefones no país, em um curto espaço de tempo. Em 1998, quando a privatização foi realizada, tinhamos 20 milhões de linhas fixas no país. Em 2001, já tínhamos 47 milhões. Já o telefone celular, tínhamos 7.5 milhões de linhas em 1998, em 2002, já tínhamos 35 milhões de linhas.

E o que perdemos com essa privatização? Porra nenhuma. O Brasil deveria agora privatizar Petrobrás, Caixa, Banco do Brasil e tudo o que vê pela frente. A modernização, a competição e o cliente irão agradecer.

Mas o discurso da canalha comunista que agora governa o país é sempre mentiroso. Nada irá me espantar caso o molusco saia repetindo por aí que as pessoas agora tem telefone por causa dele, apesar dele ter sido veementemente contra a privatização da telefonia.

O grande Raul já nos anos 70 dizia: eu já paguei a conta do meu telefone, eu já paguei por eu falar, eu já paguei por eu ouvir... muita gente queria ter esse prazer e não podia. Com a privatização, foi possível para muita gente ter esse gasto a mais, que se trata na verdade de uma grande infra-estrutura que necessitamos para pavimentar a grande estrada que nós vemos na nossa frente nesses anos 2000...

Aqui nos Estados Unidos e Canadá, não pagamos pulso... será um grande avanço quando isso acontecer no Brasil... lembro ainda que tínhamos que acessar a internet discada à meia noite e um minuto e desligar as 5:59 da manhã, pois nesse período era cobrado somente um pulso... e no meio daquela música massa que estavámos baixando há 3 horas no Napster, tínhamos que desligar... e tem gente que ainda tem saudade!!! Viva a privatização, viva a facilidade, viva a competição!!!

Escrito em Boston, Massachussets, em agosto de 2003.

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