“Não
se deve olhar por demasiado para o abismo porque eventualmente ele
pode olhar de volta”.
Frederico
Nietzsche
Quando
estamos morando fora do nosso país de origem, depois de um certo
tempo, é natural que fiquemos saudosos em relação à algumas
coisas particulares à nossa terra. No meu caso, a saudade que tenho
é da boa Antártica, que dizem que já não é tão boa quanto
antes, da picanha e da paçoca com feijão verde e manteiga do
sertão.
Até
algumas músicas que antes detestávamos passa a ser agora gostoso de
ouvir. Outro exemplo representativo disso é o instrumento mais
irritante e cretino da face da terra, o berimbau e quando eu o vi por
aqui, foi uma felicidade incrível.
Nesse
clima de saudosismo também ficamos ávidos por encontrar outros
brasileiros que por cá estão, falar a nossa língua, aquela coisa
toda. Mas é aí que caímos do cavalo. Salvo aqueles que vem pra
estudar, a grande maioria do resto não vale uma bufa de um ganso e
quanto mais longe ficarmos, melhor.
Amigos que tenho em
Boston, Philadelphia, San Francisco, Toronto, Otawa e aqui em
Montréal, correm longe dos patrícios brasileiros. Acredito que as
demais cidades atrativas à estrangeiros da América do Norte a coisa
não seja diferente. Só ficamos sabendo de casos de safadeza,
esperteza, malandragem, traíragem, quando na verdade, nós
deveríamos nos ajudar, pois queira ou não, viemos do mesmo lugar,
falamos a mesma língua.
Casos
de brasileiros que cobravam 10 dólares pra dizer onde ficava rua
tal, de brasileiros donos de restaurante que pagavam 4 dólares por
hora a outro brasileiro e 10 a outro que não fosse brasileiro,
brasileiros que caguetavam outros no departamento de imigração, e
tantas outras fuleiragens.
Quando
você encontra brasileiros que estão aqui há mais tempo, eles
querem saber de tudo, quanto você ganha, o que faz, qual seu status
imigratório, se pretende ficar... Depois de ouvirem atentamente tudo
o que você tem a dizer, eles começam a contar vantagens, quanto
possuem, onde trabalham, isso e aquilo. E ficam contentes e com uma
satisfação estampada no rosto quando estão numa situação
“melhor” do que a sua. Mas se estão “pior”, prepare-se,
chumbo grosso vem por aí.
O
brasileiro que sai de casa atrás do American Dream, na sua
maioria, não fica satisfeito somente quando ele atinge o céu. Ele
só chega ao orgasmo quando comprova que o compatriota chegou também
ao inferno. Tipo: “Fui capaz e você não!”.
E
isso me faz pensar que existem povos onde a pobreza e o atraso são
fatalidades e outros esses dois fatores são conseguidos através de
muitos anos de esforço e crueldade. O Brasil se encaixa
perfeitamente nessa segunda situação.
Ao
observarmos outras comunidades que se instalam mundo afora, com
exceção dos latino americanos, que também são terríveis, todos
os outros povos são unidos e procuram se ajudar, pois sabem que eles
tem muito mais a ganhar estando unidos do que procurando um lascar o
outro.
O
maior exemplo disso são os judeus, mas não só eles. Os portugueses
tem uma comunidade forte em Montréal. O mesmo acontece com os
italianos, indianos, paquistaneses, chineses, etc. Eles são unidos.
Temos bairros só deles. Temos o bairro português, o bairro chinês,
e enquanto brasileiros, temos uns se escondendo dos outros. Nem uma
rua sequer considerada brasileira temos em Montréal.
Existem
cidadãos portugueses, italianos, árabes, e outros que conseguem se
eleger deputados. Se você estiver disputando uma vaga de emprego com
um português com um patrão português, desista. Criam uma reserva
de mercado entre eles pra própria sobrevivência da raça. Se nesse
mesmo caso o patrão fosse brasileiro, você também não conseguiria
a vaga, pelo motivo oposto.
Brasileiro
não gosta de brasileiro. A gente nunca vai ver uma comunidade
brasileira forte no mundo afora, somente casos individualizados de
sucesso.
Mas
tem também o outro lado da moeda, pois nada é só ruim ou só bom.
A vontade e a capacidade de se adaptar ao local onde resolveu
imigrar, o brasileiro tem de sobra. Eles não querem chamar atenção.
Já
esses outros povos citados não fazem a menor questão de se
integrarem ao local e com isso ocorrem alguns conflitos. E para
aumentar ainda mais as turbulencias que vivemos atualmente, só nos
Estados Unidos, o número dessas comunidades é alarmante, pois eles
não querem apenas imigrar, eles querem fundar um novo país dentro
do país que os recebem.
Samuel
Huntington, estudioso da Harvard Academy for International
Studies, nos lembra que até bem pouco tempo atrás, os
imigrantes iam pros Estados Unidos para se tornar americanos.
Atualmente, mudam-se para lá a fim de continuar sendo o que são.
Esses
grupos sociais estão deixando de ser comunidades culturais dentro do
território americano para se constituirem em “diásporas”
radicais dentro do país, porém apoiando interesses dos seus países
de origem. O que já valia pra judeus americanos, hoje vale pra
chineses americanos, armênios americanos e assim por diante.
Segundo
Huntington, a unidade nacional americana está desaparecendo. Sua
advertencia é dramática. “Caso prevaleça o multiculturalismo
e se desfaça o consenso sobre a democracia liberal, é provável que
os Estados Unidos se juntem à União Soviética na lata de lixo da
história”.
E
isto não ocorre somente lá. Aqui no Canadá a coisa caminha do
mesmo jeito. Eles saem de seus países de origem, provavelmente
porque não estao felizes ou com oportunidades por lá e ao chegarem
no país que lhes abriu as portas, querem que esse país aceite a
cultura deles e que os cidadãos daqui se adaptem à isso, quando na
verdade, o hóspede é quem se adequa às regras do dono da casa.
Vemos
árabes filhos da puta gritando com mulheres canadenses na rua por
estas estarem com roupas que não os agrada ou então querendo casar
com 4 de uma vez. Vemos japoneses buscando disciplina e silencio
nipônico onde moram e qualquer fechar de porta, já os incomodam e
logo a polícia é acionada.
O
Canadá tem uma particularidade nisso. Como a densidade demográfica
é baixa, eles querem povoar o país, mas não podem concorrer com os
Estados Unidos devido à moeda e economia mais fortes por lá. O que
ocorre é que os canadenses mais preparados cruzam a fronteira do sul
e essas vagas e as excedentes além dessas, estão sendo ocupadas por
pessoas com baixo nível educacional.
O
resultado dessa fraca política de imigração é que o Canadá vem
caindo e nunca mais conseguirá recuperar o posto de melhor qualidade
de vida do planeta, que conseguiu por 6 anos seguidos. A qualidade do
imigrante baldeou a água. Endureceu o angu. A malha grossa aberta
pra receber “alguém” está prejudicando o país. Mas... todo
governo precisa de pagadores de impostos, não é mesmo? Se eles não
valem nada, paciencia...
No
caso do brasileiro, me fica uma dúvida. Seria melhor continuarmos a
viver nas sombras, na maioria formado de elementos ilegais e não
causar tumulto com a cultura legal ou chegar logo pra arrebentar,
como fazem os árabes, por exemplo?
É
o dilema do tímido. O tímido não pode ver um policial que acha que
vai ser abordado por ele. O tímido ao entrar uma sala de aula, acha
que todos estão olhando pra ele, então chega meia hora antes e sai
meia hora depois. O medo maior do tímido é que alguém lhe passe a
palavra. E nós aqui somos todos tímidos, nunca queremos a palavra.
O
brasileiro viverá melhor assim, com uma imagem divertida para o
gringo, afinal somos a terra do samba, da alegria, das mulheres
fáceis e do soccer. Como o brasileiro disfarça bem, melhor
pensarem isso do que descobrirem de que matéria é formado o
brasileiro. Aquela coisa. Se descobrirem como são, todos são
deportados sem hearings.
Temo
verdadeiramente que os brasileiros saiam de suas tocas e decidam
formar a sua comunidade. Isso acontecendo, iríamos mostrar a nossa
cara. Se não conseguissem a deportação imediata, colocariam muros
e nos isolariam em guetos. Ou coisa pior.
A
conclusão que chego, com muito pesar, é que os brasileiros possuem
uma imagem pro mundo exterior muito melhor do que merecem. O conselho
que dou é que realmente continuem com esse comportamento à margem
da sociedade e que não saiam dos buracos, pois só assim minaremos
de vez as possibilidades de agrupamento e escaparemos do rídiculo de
fazer com que a união em vez de fazer a força, faça a guilhotina e
o carrasco.
À
propósito, o título desse texto, foi retirado de uma canção
maravilhosa do nosso Zé Ramalho, com três objetivos. Em primeiro
lugar, gostaria de usar a frase ao pé da letra, realmente eu não
vim de longe para me enganar. Já em enganei muito com essa turma,
não me engano mais. Em segundo lugar, fazendo uma distorção da
frase, falo em relação aos aventureiros que saem do Brasil e vem
pra cá atrás do eldorado. De fato, eles também não vieram pra se
enganar, não vieram pra dar murro em ponta de faca, ponto sem nó e
de fato, a Lei de Gerson é o Evangelho deles.
Por
último, o título dessa canção de Zé chama-se “A peleja do
diabo com o dono do céu”. É a eterna luta do diabo pra levar
esses expatriados pra casa quente lá debaixo contra Deus, que não
quer deixar por nada nesse mundo, afinal, como todos nós sabemos,
Deus é brasileiro!!
Ainda
bem que Ele não dá as costas pros que estão longe de casa. Ainda
bem!!
Fabiano
Holanda, Montréal, Agosto de 2002.

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