Tuesday, 6 October 2020

Eu não vim de longe para me enganar

Não se deve olhar por demasiado para o abismo porque eventualmente ele pode olhar de volta”.

Frederico Nietzsche

Quando estamos morando fora do nosso país de origem, depois de um certo tempo, é natural que fiquemos saudosos em relação à algumas coisas particulares à nossa terra. No meu caso, a saudade que tenho é da boa Antártica, que dizem que já não é tão boa quanto antes, da picanha e da paçoca com feijão verde e manteiga do sertão.

Até algumas músicas que antes detestávamos passa a ser agora gostoso de ouvir. Outro exemplo representativo disso é o instrumento mais irritante e cretino da face da terra, o berimbau e quando eu o vi por aqui, foi uma felicidade incrível.

Nesse clima de saudosismo também ficamos ávidos por encontrar outros brasileiros que por cá estão, falar a nossa língua, aquela coisa toda. Mas é aí que caímos do cavalo. Salvo aqueles que vem pra estudar, a grande maioria do resto não vale uma bufa de um ganso e quanto mais longe ficarmos, melhor.

Amigos que tenho em Boston, Philadelphia, San Francisco, Toronto, Otawa e aqui em Montréal, correm longe dos patrícios brasileiros. Acredito que as demais cidades atrativas à estrangeiros da América do Norte a coisa não seja diferente. Só ficamos sabendo de casos de safadeza, esperteza, malandragem, traíragem, quando na verdade, nós deveríamos nos ajudar, pois queira ou não, viemos do mesmo lugar, falamos a mesma língua.

Casos de brasileiros que cobravam 10 dólares pra dizer onde ficava rua tal, de brasileiros donos de restaurante que pagavam 4 dólares por hora a outro brasileiro e 10 a outro que não fosse brasileiro, brasileiros que caguetavam outros no departamento de imigração, e tantas outras fuleiragens.

Quando você encontra brasileiros que estão aqui há mais tempo, eles querem saber de tudo, quanto você ganha, o que faz, qual seu status imigratório, se pretende ficar... Depois de ouvirem atentamente tudo o que você tem a dizer, eles começam a contar vantagens, quanto possuem, onde trabalham, isso e aquilo. E ficam contentes e com uma satisfação estampada no rosto quando estão numa situação “melhor” do que a sua. Mas se estão “pior”, prepare-se, chumbo grosso vem por aí.

O brasileiro que sai de casa atrás do American Dream, na sua maioria, não fica satisfeito somente quando ele atinge o céu. Ele só chega ao orgasmo quando comprova que o compatriota chegou também ao inferno. Tipo: “Fui capaz e você não!”.

E isso me faz pensar que existem povos onde a pobreza e o atraso são fatalidades e outros esses dois fatores são conseguidos através de muitos anos de esforço e crueldade. O Brasil se encaixa perfeitamente nessa segunda situação.

Ao observarmos outras comunidades que se instalam mundo afora, com exceção dos latino americanos, que também são terríveis, todos os outros povos são unidos e procuram se ajudar, pois sabem que eles tem muito mais a ganhar estando unidos do que procurando um lascar o outro.

O maior exemplo disso são os judeus, mas não só eles. Os portugueses tem uma comunidade forte em Montréal. O mesmo acontece com os italianos, indianos, paquistaneses, chineses, etc. Eles são unidos. Temos bairros só deles. Temos o bairro português, o bairro chinês, e enquanto brasileiros, temos uns se escondendo dos outros. Nem uma rua sequer considerada brasileira temos em Montréal.

Existem cidadãos portugueses, italianos, árabes, e outros que conseguem se eleger deputados. Se você estiver disputando uma vaga de emprego com um português com um patrão português, desista. Criam uma reserva de mercado entre eles pra própria sobrevivência da raça. Se nesse mesmo caso o patrão fosse brasileiro, você também não conseguiria a vaga, pelo motivo oposto.

Brasileiro não gosta de brasileiro. A gente nunca vai ver uma comunidade brasileira forte no mundo afora, somente casos individualizados de sucesso.

Mas tem também o outro lado da moeda, pois nada é só ruim ou só bom. A vontade e a capacidade de se adaptar ao local onde resolveu imigrar, o brasileiro tem de sobra. Eles não querem chamar atenção.

Já esses outros povos citados não fazem a menor questão de se integrarem ao local e com isso ocorrem alguns conflitos. E para aumentar ainda mais as turbulencias que vivemos atualmente, só nos Estados Unidos, o número dessas comunidades é alarmante, pois eles não querem apenas imigrar, eles querem fundar um novo país dentro do país que os recebem.

Samuel Huntington, estudioso da Harvard Academy for International Studies, nos lembra que até bem pouco tempo atrás, os imigrantes iam pros Estados Unidos para se tornar americanos. Atualmente, mudam-se para lá a fim de continuar sendo o que são.

Esses grupos sociais estão deixando de ser comunidades culturais dentro do território americano para se constituirem em “diásporas” radicais dentro do país, porém apoiando interesses dos seus países de origem. O que já valia pra judeus americanos, hoje vale pra chineses americanos, armênios americanos e assim por diante.

Segundo Huntington, a unidade nacional americana está desaparecendo. Sua advertencia é dramática. “Caso prevaleça o multiculturalismo e se desfaça o consenso sobre a democracia liberal, é provável que os Estados Unidos se juntem à União Soviética na lata de lixo da história”.

E isto não ocorre somente lá. Aqui no Canadá a coisa caminha do mesmo jeito. Eles saem de seus países de origem, provavelmente porque não estao felizes ou com oportunidades por lá e ao chegarem no país que lhes abriu as portas, querem que esse país aceite a cultura deles e que os cidadãos daqui se adaptem à isso, quando na verdade, o hóspede é quem se adequa às regras do dono da casa.

Vemos árabes filhos da puta gritando com mulheres canadenses na rua por estas estarem com roupas que não os agrada ou então querendo casar com 4 de uma vez. Vemos japoneses buscando disciplina e silencio nipônico onde moram e qualquer fechar de porta, já os incomodam e logo a polícia é acionada.

O Canadá tem uma particularidade nisso. Como a densidade demográfica é baixa, eles querem povoar o país, mas não podem concorrer com os Estados Unidos devido à moeda e economia mais fortes por lá. O que ocorre é que os canadenses mais preparados cruzam a fronteira do sul e essas vagas e as excedentes além dessas, estão sendo ocupadas por pessoas com baixo nível educacional.

O resultado dessa fraca política de imigração é que o Canadá vem caindo e nunca mais conseguirá recuperar o posto de melhor qualidade de vida do planeta, que conseguiu por 6 anos seguidos. A qualidade do imigrante baldeou a água. Endureceu o angu. A malha grossa aberta pra receber “alguém” está prejudicando o país. Mas... todo governo precisa de pagadores de impostos, não é mesmo? Se eles não valem nada, paciencia...

No caso do brasileiro, me fica uma dúvida. Seria melhor continuarmos a viver nas sombras, na maioria formado de elementos ilegais e não causar tumulto com a cultura legal ou chegar logo pra arrebentar, como fazem os árabes, por exemplo?

É o dilema do tímido. O tímido não pode ver um policial que acha que vai ser abordado por ele. O tímido ao entrar uma sala de aula, acha que todos estão olhando pra ele, então chega meia hora antes e sai meia hora depois. O medo maior do tímido é que alguém lhe passe a palavra. E nós aqui somos todos tímidos, nunca queremos a palavra.

O brasileiro viverá melhor assim, com uma imagem divertida para o gringo, afinal somos a terra do samba, da alegria, das mulheres fáceis e do soccer. Como o brasileiro disfarça bem, melhor pensarem isso do que descobrirem de que matéria é formado o brasileiro. Aquela coisa. Se descobrirem como são, todos são deportados sem hearings.

Temo verdadeiramente que os brasileiros saiam de suas tocas e decidam formar a sua comunidade. Isso acontecendo, iríamos mostrar a nossa cara. Se não conseguissem a deportação imediata, colocariam muros e nos isolariam em guetos. Ou coisa pior.

A conclusão que chego, com muito pesar, é que os brasileiros possuem uma imagem pro mundo exterior muito melhor do que merecem. O conselho que dou é que realmente continuem com esse comportamento à margem da sociedade e que não saiam dos buracos, pois só assim minaremos de vez as possibilidades de agrupamento e escaparemos do rídiculo de fazer com que a união em vez de fazer a força, faça a guilhotina e o carrasco.

À propósito, o título desse texto, foi retirado de uma canção maravilhosa do nosso Zé Ramalho, com três objetivos. Em primeiro lugar, gostaria de usar a frase ao pé da letra, realmente eu não vim de longe para me enganar. Já em enganei muito com essa turma, não me engano mais. Em segundo lugar, fazendo uma distorção da frase, falo em relação aos aventureiros que saem do Brasil e vem pra cá atrás do eldorado. De fato, eles também não vieram pra se enganar, não vieram pra dar murro em ponta de faca, ponto sem nó e de fato, a Lei de Gerson é o Evangelho deles.

Por último, o título dessa canção de Zé chama-se “A peleja do diabo com o dono do céu”. É a eterna luta do diabo pra levar esses expatriados pra casa quente lá debaixo contra Deus, que não quer deixar por nada nesse mundo, afinal, como todos nós sabemos, Deus é brasileiro!!

Ainda bem que Ele não dá as costas pros que estão longe de casa. Ainda bem!!

Fabiano Holanda, Montréal, Agosto de 2002.

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