“Aprendi
silêncio com os falantes, tolerância com os intolerantes e
gentileza com os rudes. Ainda, estranho, sou ingrato à esses
professores”.
Khalil
Gibran
Cena
1
Esta
cena se passa num ponto qualquer, no longíquo nordeste brasileiro,
mas precisamente em uma coordenação de um curso qualquer, de uma
universidade qualquer. O aluno José se dirige a secretária:
-
Bom dia, por gentileza, eu gostaria do telefone do professor Silva,
será que você tem por ai?
-
Olha, nós não somos autorizados a dar o número do telefone do
professor Silva para aluno nenhum!
-
Mas, veja bem, eu preciso resolver um negócio com ele, é muito
importante... tudo bem, me passa pelo menos o e-mail.
-
Infelizmente, não podemos fazer nada por você. Peça ao professor
quando encontrar com ele. O próximo, por favor...
Cena
2
Esta
outra cena se passa dentro da residência do aluno José, num país
bagunçado chamado Canadá. Ele pega o telefone, após consultar
rapidamente uma lista disponível até ao mais singelo dos plebeus,
com o telefone e número do bureau de cada professor e faz uma
ligação e essa cai na secretária eletrônica e o aluno José deixa
a seguinte mensagem:
-
Olá professor Omar, o senhor não me conhece, eu estava querendo
apenas conhecer o senhor, falar dos meus projetos e quem sabe ver se
podíamos trabalhar juntos..
O
aluno José deixou seu número de telefone na secretária eletrônica
do professor e desligou. Após mais ou menos 30 minutos, recebe uma
ligação de um tal Omar. Nem se lembrava mais de quem se tratava. Só
depois que o sujeito disse o motivo da ligação, ele se lembra...
-
Olá, aqui é o Omar, você me ligou há poucos minuto, me desculpe,
eu não estava aqui, cheguei agora... e então? Quer passar aqui hoje
ou prefere amanhã? Apenas me diga quando e a gente arranja uma hora
conveniente para nós dois...
No
caso da primeira cena, prefiro omitir o nome dos personagens por
questões de ética, se é que me entendem. No segundo caso, o Omar
em questão se trta de um dos maiores nomes da administração
mundial atual, o professor Omar Aktouf.
Isso
poderia demonstrar que a humildade é qualidade dos grandes. Sim,
isso lá é verdade. Mas, no “desorganizado” Canadá, todos os
professores agem assim. Então, concluo, ou todos são realmente
grandes, o que não é verdade, pois em todos os lugares existem “os
acima da média” ou o problema é cultural mesmo.
Todos
os professores, sem exceção, são acessíveis e através de
rendez-vous, encontramos com quem desejarmos para tratar de
não importa o que. Assim, podemos concluir que o negócio é cultura
organizacional mesmo.
A
simplicidade do senhor Akouf e pretensão do professor Silva são
sensíveis. Isso demonstra que arrogancia e imposição de distância
são carcaças de pessoas despreparadas e temerosas de um contato
mais próximo com qualquer pessoa que não seja alguém que não
possa beneficiá-lo, de uma forma ou de outra.
Este
foi apenas um exemplo, prosaico é verdade, de como o aluno é
tratado em uma universidade brasileira, para termos em seguida uam
visão mais ampla do enorme engao que estão cometendo os
responsáveis pelo ensino superior no Brasil, principalmente nas
universidades federais, pois lá, o corpo docente tem a impressão
que estão eternamente a nos fazer favores.
No
caso acima fica claro a visão que o professor brasileiro tem do
aluno: um eterno pedinte, pois pede aumento de nota, pede aumento de
prazo pra entrega de trabalhos, etc. e que não interessa a ele
divulgar o número do seu telefone para não ser importunado, mais ou
menos como não dar o número à um vendedor chato.
É
verdade, não podemos negar, existem realmente alguns alunos que são
“foda”, mas alguém tem que começar a moralizar isso e acredito
que o corpo docente tem muito mais armas pra isso do que o “podado”
aluno. O professor possui a desenvoltura e o aluno, principalmente no
início da graduação, é mais um seguidor de regras do que um
regulador.
Na
visão do professor canadense, e isto já foi questionado por mim a
alguns professores daqui, o aluno é visto como um parceiro atual e
futuro companheiro de profissão, de negócios, de pesquisa ou seja
lá oque for e que no mínimo, é sempre bom ter um amigo.
No
Brasil, a relação é de comandante/soldado,
desconhecido/desconhecido, sem direito a “intimidades”.
Pior ainda é quando o aluno se mostra capaz e interessado. O que era
pra gerar um orgulho no professor, pelo contrário, gera um
sentimento mesquinho de autoproteção e então ele pensa assim:
“Quem esse cara pensa que é?”
Se
o aluno for dedicado à leitura, o professor acha que ele está
querendo ser boçal. Na verdade, o professor tenta desmoralizar o
esforçado como forma de demonstrar quem sabe mais ali. O medo de
perder o posto de mestre é mais alto do que compartilhar informações
com um “aluno”. Só aceitam fazer isso com quem tenha titulação
igual ou superior à ele, afinal, temos que proteger os pares.
Quem
já teve que correr, bajular, idolatrar, fazer o escambau pra
persuadir um professor a ser o seu orientador sabe o que estou
falando. Ora, se é obrigação da universidade, pra que esse
estrelismo? Aqui no Canadá, se trata de uma honra e estatus para
qualquer professor ser sempre chamado pra ser orientador e eles fazem
isso com a maior disposição.
Os
alunos envolvifos em iniciação científica, uma elite digamos
assim, tem um tratamento que deveria ser dado aos demais alunos. Se
seguissemos esse padrão, teríamos uma outra qualidade de aluno.
Um
outro ponto bastante negativo e responsavél pela ridicularização
dos acadêmicos brasileiros no exterior diz respeito à ênfase das
pesquisas. No Brasil, a ênfase é dada à metodologia científica ao
invés do conteúdo e relevância do tema estudado.
No
exterior é lógico que o método não é posto de lado, mas a ênfase
é sobre o conteúdo. O que isso traz de positivo? O que vai ajudar à
nossa comunidade, país ou região? No Brasil abundam temas como
“Análise real da cor do raio da cilibrina”, “Estudo histórico
de quem realmente amolava o machado de Assis”, “Estudo
investigativo para apurar quem de fato matou o Mar Morto”, e por aí
vai...
Lembro-me
até hoje do dia em que disse aos meus professores que viria ao
Canadá fazer um mestrado. Imediatamente uma professora, “doutora
sim sinhô”, argumentou, misturando ironia e despeito: “Vai
fazer mestrado lá for a pois não tem metodologia, ne? Quero ver
fazer aqui...”
Não
respondi nada. Apenas fiquei observando até onde vai a ignorancia
humana...
Realmente,
fazer um mestrado no Brasil, significa saber muito de metodologia
científica e pouco ou quase nada sobre o tema abordado, copiando
outras dissertações na cara de pau. Um caso representativo disso
foi uma doutoranda brasileira que fazia o seu curso aqui em Montréal
e foi apresentar o seu trabalho num congresso mundialde administração
em Taiwan. Após 30 minutos de explanação vazia e sem lógica,
vieram as perguntas. Então ocorreu o que a brasileira nunca imaginou
nem nos seus piores sonhos. Um americano pediu o microfone e fez a
seguinte pergunta:
-
Ok, tudo bem, seu trabalho está metodologicamente perfeito, nada
está faltando, completíssimo, piriri, parara, enfim, perfeito. Mas,
me explique, serve pra que mesmo?
Silencio
geral. Brasileira chorando em um canto, palestrante substuída,
fracasso total. A mesma me relatou isso alguns dias depois, já de
volta à Montréal. Na hora não pude deixar de me solidarizar, mas
no meu íntimo isso entrou como uma prova do que venho pregando.
Metodologia sem conteúdo não dá liga em lugar sério!!!
No Brasil é assim,
aluno de biologia fazendo dissertação em estratégia empresarial é
prática comum. Tem algum problema nisso? Não. Se estiver
metodologicamente correto, tudo são flores. E quanto à colega, acho
que se conscientizou que seu trabalho nao acrescentaria nada à
humanidade. Que era somente um misto de enganação/cumprimento de
metas de bolsa. Percebeu que anos de trabalho não passaram de
enxugamento de gelo.
Pode
alguém alegar que existem brasileiros respeitados no meios
acadêmicos internacionais. É verdade, não podemos negar isso. Mas,
se observarmos mais profundamente, veremos que todos eles, apesar de
serem brasileiros, fizeram seus estudos for a do Brasil e aprenderam
que enganação só serve mesmo na academia tupiniquim e que quando
chega na hora da verdade, não adianta apelar pra citações no vazio
ou dar uma aula sobre pesquisa exploratória. Isso não importa no
mundo real. Só na realidade paralela chamada Brasil.
Isso
é notório quando vamos apresentar a nossa monografia ao final do
nosso curso de graduação. Em raríssimas exceções, são
convidados especialistas da área apresentada. É mais ou menos
assim. O trabalho é sobre a viabilidade da implementação de um
aeroporto e ao invés de chamarem técnicos capazes de avaliar o
trabalho, chamam professores de recursos humanos, metodologia
científica ou processo decisório pra julgar o trabalho.
Inacreditável,
mas é assim que vem funcionando há anos e não há indicação que
vá mudar. Brincamos que fazemos trabalhos e os professores brincam
que orientam. O mundo anda enquanto ficamos parados e pegue aluno
formado nas ruas, baseados nesses critérios.
Por
fim, lanço aqui uma teoria, simples e manjada, com apenas dois
vetores, para darmos um salto importante com destino à aceitacao e
entrada na parte acadêmica da internacionalização.
Primeiro,
uma mudança de comportamento e prisma na relação aluno/professor,
transformando o aluno em parceiro e o incentivando de forma concreta.
Segundo, temos que parar já com isso e mudarmos nossa ênfase.
Metodologia é importante mas não é o fim. Temos que parar com a
preguiça e fazer um trabalho realmente sério. Estamos anos luz
atrasados em termos de pesquisa.
Esse
negocio de metodologia sem conteúdo é como sexo sem orgasmo. O
trabalho foi feito mas o objetivo não foi atingido. E se o agente se
contentar apenas com o “fazer” do sexo, para justificar que fez e
não parecer um incapaz e não com o orgasmo, ele deve estão fazer
um trabalho metodologicamente correto e sem conteúdo, que o seu
clímax também terá sido obtido.
Fabiano
Holanda. Montréal, Julho de 2002.

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