Tuesday, 6 October 2020

Imbecilidade acadêmica endêmica

Aprendi silêncio com os falantes, tolerância com os intolerantes e gentileza com os rudes. Ainda, estranho, sou ingrato à esses professores”.

Khalil Gibran

Cena 1

Esta cena se passa num ponto qualquer, no longíquo nordeste brasileiro, mas precisamente em uma coordenação de um curso qualquer, de uma universidade qualquer. O aluno José se dirige a secretária:

- Bom dia, por gentileza, eu gostaria do telefone do professor Silva, será que você tem por ai?
- Olha, nós não somos autorizados a dar o número do telefone do professor Silva para aluno nenhum!
- Mas, veja bem, eu preciso resolver um negócio com ele, é muito importante... tudo bem, me passa pelo menos o e-mail.
- Infelizmente, não podemos fazer nada por você. Peça ao professor quando encontrar com ele. O próximo, por favor...
Cena 2

Esta outra cena se passa dentro da residência do aluno José, num país bagunçado chamado Canadá. Ele pega o telefone, após consultar rapidamente uma lista disponível até ao mais singelo dos plebeus, com o telefone e número do bureau de cada professor e faz uma ligação e essa cai na secretária eletrônica e o aluno José deixa a seguinte mensagem:

- Olá professor Omar, o senhor não me conhece, eu estava querendo apenas conhecer o senhor, falar dos meus projetos e quem sabe ver se podíamos trabalhar juntos..

O aluno José deixou seu número de telefone na secretária eletrônica do professor e desligou. Após mais ou menos 30 minutos, recebe uma ligação de um tal Omar. Nem se lembrava mais de quem se tratava. Só depois que o sujeito disse o motivo da ligação, ele se lembra...

- Olá, aqui é o Omar, você me ligou há poucos minuto, me desculpe, eu não estava aqui, cheguei agora... e então? Quer passar aqui hoje ou prefere amanhã? Apenas me diga quando e a gente arranja uma hora conveniente para nós dois...

No caso da primeira cena, prefiro omitir o nome dos personagens por questões de ética, se é que me entendem. No segundo caso, o Omar em questão se trta de um dos maiores nomes da administração mundial atual, o professor Omar Aktouf.

Isso poderia demonstrar que a humildade é qualidade dos grandes. Sim, isso lá é verdade. Mas, no “desorganizado” Canadá, todos os professores agem assim. Então, concluo, ou todos são realmente grandes, o que não é verdade, pois em todos os lugares existem “os acima da média” ou o problema é cultural mesmo.

Todos os professores, sem exceção, são acessíveis e através de rendez-vous, encontramos com quem desejarmos para tratar de não importa o que. Assim, podemos concluir que o negócio é cultura organizacional mesmo.

A simplicidade do senhor Akouf e pretensão do professor Silva são sensíveis. Isso demonstra que arrogancia e imposição de distância são carcaças de pessoas despreparadas e temerosas de um contato mais próximo com qualquer pessoa que não seja alguém que não possa beneficiá-lo, de uma forma ou de outra.

Este foi apenas um exemplo, prosaico é verdade, de como o aluno é tratado em uma universidade brasileira, para termos em seguida uam visão mais ampla do enorme engao que estão cometendo os responsáveis pelo ensino superior no Brasil, principalmente nas universidades federais, pois lá, o corpo docente tem a impressão que estão eternamente a nos fazer favores.

No caso acima fica claro a visão que o professor brasileiro tem do aluno: um eterno pedinte, pois pede aumento de nota, pede aumento de prazo pra entrega de trabalhos, etc. e que não interessa a ele divulgar o número do seu telefone para não ser importunado, mais ou menos como não dar o número à um vendedor chato.

É verdade, não podemos negar, existem realmente alguns alunos que são “foda”, mas alguém tem que começar a moralizar isso e acredito que o corpo docente tem muito mais armas pra isso do que o “podado” aluno. O professor possui a desenvoltura e o aluno, principalmente no início da graduação, é mais um seguidor de regras do que um regulador.

Na visão do professor canadense, e isto já foi questionado por mim a alguns professores daqui, o aluno é visto como um parceiro atual e futuro companheiro de profissão, de negócios, de pesquisa ou seja lá oque for e que no mínimo, é sempre bom ter um amigo.

No Brasil, a relação é de comandante/soldado, desconhecido/desconhecido, sem direito a “intimidades”. Pior ainda é quando o aluno se mostra capaz e interessado. O que era pra gerar um orgulho no professor, pelo contrário, gera um sentimento mesquinho de autoproteção e então ele pensa assim: “Quem esse cara pensa que é?

Se o aluno for dedicado à leitura, o professor acha que ele está querendo ser boçal. Na verdade, o professor tenta desmoralizar o esforçado como forma de demonstrar quem sabe mais ali. O medo de perder o posto de mestre é mais alto do que compartilhar informações com um “aluno”. Só aceitam fazer isso com quem tenha titulação igual ou superior à ele, afinal, temos que proteger os pares.

Quem já teve que correr, bajular, idolatrar, fazer o escambau pra persuadir um professor a ser o seu orientador sabe o que estou falando. Ora, se é obrigação da universidade, pra que esse estrelismo? Aqui no Canadá, se trata de uma honra e estatus para qualquer professor ser sempre chamado pra ser orientador e eles fazem isso com a maior disposição.

Os alunos envolvifos em iniciação científica, uma elite digamos assim, tem um tratamento que deveria ser dado aos demais alunos. Se seguissemos esse padrão, teríamos uma outra qualidade de aluno.

Um outro ponto bastante negativo e responsavél pela ridicularização dos acadêmicos brasileiros no exterior diz respeito à ênfase das pesquisas. No Brasil, a ênfase é dada à metodologia científica ao invés do conteúdo e relevância do tema estudado.

No exterior é lógico que o método não é posto de lado, mas a ênfase é sobre o conteúdo. O que isso traz de positivo? O que vai ajudar à nossa comunidade, país ou região? No Brasil abundam temas como “Análise real da cor do raio da cilibrina”, “Estudo histórico de quem realmente amolava o machado de Assis”, “Estudo investigativo para apurar quem de fato matou o Mar Morto”, e por aí vai...

Lembro-me até hoje do dia em que disse aos meus professores que viria ao Canadá fazer um mestrado. Imediatamente uma professora, “doutora sim sinhô”, argumentou, misturando ironia e despeito: “Vai fazer mestrado lá for a pois não tem metodologia, ne? Quero ver fazer aqui...

Não respondi nada. Apenas fiquei observando até onde vai a ignorancia humana...

Realmente, fazer um mestrado no Brasil, significa saber muito de metodologia científica e pouco ou quase nada sobre o tema abordado, copiando outras dissertações na cara de pau. Um caso representativo disso foi uma doutoranda brasileira que fazia o seu curso aqui em Montréal e foi apresentar o seu trabalho num congresso mundialde administração em Taiwan. Após 30 minutos de explanação vazia e sem lógica, vieram as perguntas. Então ocorreu o que a brasileira nunca imaginou nem nos seus piores sonhos. Um americano pediu o microfone e fez a seguinte pergunta:

- Ok, tudo bem, seu trabalho está metodologicamente perfeito, nada está faltando, completíssimo, piriri, parara, enfim, perfeito. Mas, me explique, serve pra que mesmo?
Silencio geral. Brasileira chorando em um canto, palestrante substuída, fracasso total. A mesma me relatou isso alguns dias depois, já de volta à Montréal. Na hora não pude deixar de me solidarizar, mas no meu íntimo isso entrou como uma prova do que venho pregando. Metodologia sem conteúdo não dá liga em lugar sério!!!

No Brasil é assim, aluno de biologia fazendo dissertação em estratégia empresarial é prática comum. Tem algum problema nisso? Não. Se estiver metodologicamente correto, tudo são flores. E quanto à colega, acho que se conscientizou que seu trabalho nao acrescentaria nada à humanidade. Que era somente um misto de enganação/cumprimento de metas de bolsa. Percebeu que anos de trabalho não passaram de enxugamento de gelo.

Pode alguém alegar que existem brasileiros respeitados no meios acadêmicos internacionais. É verdade, não podemos negar isso. Mas, se observarmos mais profundamente, veremos que todos eles, apesar de serem brasileiros, fizeram seus estudos for a do Brasil e aprenderam que enganação só serve mesmo na academia tupiniquim e que quando chega na hora da verdade, não adianta apelar pra citações no vazio ou dar uma aula sobre pesquisa exploratória. Isso não importa no mundo real. Só na realidade paralela chamada Brasil.

Isso é notório quando vamos apresentar a nossa monografia ao final do nosso curso de graduação. Em raríssimas exceções, são convidados especialistas da área apresentada. É mais ou menos assim. O trabalho é sobre a viabilidade da implementação de um aeroporto e ao invés de chamarem técnicos capazes de avaliar o trabalho, chamam professores de recursos humanos, metodologia científica ou processo decisório pra julgar o trabalho.

Inacreditável, mas é assim que vem funcionando há anos e não há indicação que vá mudar. Brincamos que fazemos trabalhos e os professores brincam que orientam. O mundo anda enquanto ficamos parados e pegue aluno formado nas ruas, baseados nesses critérios.

Por fim, lanço aqui uma teoria, simples e manjada, com apenas dois vetores, para darmos um salto importante com destino à aceitacao e entrada na parte acadêmica da internacionalização.

Primeiro, uma mudança de comportamento e prisma na relação aluno/professor, transformando o aluno em parceiro e o incentivando de forma concreta. Segundo, temos que parar já com isso e mudarmos nossa ênfase. Metodologia é importante mas não é o fim. Temos que parar com a preguiça e fazer um trabalho realmente sério. Estamos anos luz atrasados em termos de pesquisa.

Esse negocio de metodologia sem conteúdo é como sexo sem orgasmo. O trabalho foi feito mas o objetivo não foi atingido. E se o agente se contentar apenas com o “fazer” do sexo, para justificar que fez e não parecer um incapaz e não com o orgasmo, ele deve estão fazer um trabalho metodologicamente correto e sem conteúdo, que o seu clímax também terá sido obtido.

Fabiano Holanda. Montréal, Julho de 2002.

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