Tuesday, 6 October 2020

O Estado sarado

A riqueza de uma nação se mede pela riqueza do povo e não pela riqueza dos seus príncipes”.

Adam Smith

O governo do PT, recém vencedor das eleições presidenciais de 2002, terá pela frente alguns obstáculos e dificuldades. O primeiro deles está relacionado em como realizar as expectativas dos seus cegos, obstinados e idiotas eleitores.

Essa horda de jumentos não votou em Lula esperando que seja humano e resolva os problemas solucionáveis, mas que ele faça milagres. E pelo que se sabe, Lula é barbudo mas não tem nenhum parentesco com Jota Cristo e nem de longe pode ser chamado de santo. Pelo menos de nenhuma igreja registrada em cartório.

Mas conseguir provar que Lula não é Antônio Conselheiro é uma missão impossível. Temos um grande problema em pensar logicamente. O brasileiro pensa ao contrário de todos, tem a sua forma particular de pensar. Exemplo disso é que elegeram Lula pelos motivos errados. Gilberto Amado dizia que ficava extremanente feliz quando conseguia encontrar um brasileiro capaz de associar causa à consequencia.

Outro obstáculo verdadeiramente cruel é conseguir associar as aspirações da ala radical do PT ao mundo moderno. Aloýsio Mercadante terá muitas dificuldades em explicar pros seus eleitores porque ele terá que cumprir as metas do FMI, por exemplo. Grande parte do PT vai debandar e criar um partido mais radical ainda pro lado esquerdo.

Os Babás da vida e as Heloísa Helenas estão loucos com a possibilidade de ter a chance e não fazer a bendita “Revolução”. Será o mesmo que ter uma mulher na cama e brochar. A expectativa era melhor do que o ato. Até porque para alguns, sonhar é bem melhor do que conseguir.

Qual será o intento do PT? Até agora temos uma incógnita. De toda forma, eu gostaria de falar sobre o estado moderno, o estado sarado. Não devemos deixar o estado cheio de empresas e atribuições. Será que o PT conseguirá isso?

Acho difícil, pois já cometeu o primeiro deslize, criando o famigerado “Ministério da Fome”. O que é isso? Um Ministério pra fomentar a fome? Luiz Gonzaga já dizia: “Uma esmola pra um homem que é são, ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão”. Até a Bíblia ensina a pescar em vez de dar o peixe. Mas o PT não lê a Bíblia.

Mas falar em Bíblia, temos que deixar de lado a doutrina de coitadismo católica e partirmos pra doutrina protestante, que cada um tem que fazer sua parte. Se não fizermos isso, estaremos em maus lençóis. Caridade é muito bonito, no papel, mas de nada adianta, apenas empurra o problema pra frente. O que tem que se fazer é pensar numa maneira de ninguém não precise nem fazer e nem fazer caridade.

O ponto principal que quero deixae claro é que governo bom é governo enxuto. É um governo “sarado”, para usar uma expressão modernosa. Estado moderno é estado modesto. Simples como colocar um pão numa torradeira. O problema é que tem gente que nunca viu uma torradeira.

O governo tem que tomar conta de algumas coisas que justificam sua existência e elas são: Segurança, educação até o segundo grau, saúde, fiscalizar contratos e assegurar propriedade privada. No mais, o governo tem que perder o excesso de peso. Tem que colocar o peso últil no braço e tirar da barriga, onde o peso não é aconselhável e nem saúdavel.

Paul Johnson dizia que a capacidade destrutiva do indíviduo, por mais perverso que ele seja, é minúscula. A capacidade destrutiva do Estado, por melhor intencionada que seja, é ilimitada. Assim, o governo tem que parar de se meter a fazer o que ele não sabe e se concentrar no que ele precisa fazer. Um simples ato governamental pode incorrer em catástrofes ou em atos geniais. Só que é infinitamente mais fácil dele fazer asneiras. É como um elefante puxando uma carroça numa loja de cristais. Não é nem questão de má vontade.

No campo administrativo é bom notarmos que o governo é bem diferente de uma empresa. Isso tem que ficar bem claro. As motivações são bem diferentes. Essa última se baseia no lucro, o primeiro se baseia no desejo de serem reeleitos.

Um recebe dos clientes a sua receita, o outro do contribuinte. As empresas trabalham com competição, o governo com monopólio na maioria das vezes. Uma pode tomar decisões a portas fechadas, a outra tem que fazê-las democraticamente, somando lógico, os grupos de interesse.

Outra panacéia é pensar que ter muitas empresas estatais representa ser um governo forte. No Brasil, acredita-se que para controlar uma atividade, o governo tem que possí-la, não bastante o poder regulatório. Mas na verdade o que acontece é o contrário. As empresas possuídas pelos governo são muito mais rebeldes do que as privadas.

No campo dos investimentos, tudo o que o governo se mete a fazer tem que ter um caráter gigantesco. Nunca é modesto. Talvez seja por medo de dizerem que o goberno tá quebrado. Com isso temos os elefantes brancos e os gastos desnecessários. Em termos de gozação, diz-se por aí que um elefante é uma borboleta constrúida seguindo especificações governamentais.

Em campo trabalhista, é explicável a defesa de todos para com a existência das empresas estatais. Advoga-se a favor da empresa governamental por este ser um formidável empregador, ao contrário da empresa privada, que não se sente obrigado a manter mão de obra improdutiva.

Só para dar um exemplo. A Petrobrás possui uma das menores taxas de produtividade/funcionário entre as “Petros” de todo o mundo. Mas, mesmo assim, de dois em dois anos, essa empresa faz um concurso pra criar bancos de candidatos, preste a adentrar nessa caridosa instituição. É uma coisa inacreditável. Qualquer pessoa que pense um pouco vai perguntar: “Isto é uma empresa ou uma casa de caridade?”.

Trabalhar numa empresa estatal é sinônimo, na maioria das vezes, de estar num local mamando diretamente das tetas do contribuinte, passando e-mails de piadas e sacanagem, fazendo nada e ainda se gabando disso.

Eu gostaria de saber como alguém sente prazer em passar a vida toda mamando, sem produzir nada. É uma coisa altamente deprimente e repugnante alguém se contentar em ser um medíocre, se contentar apenas em ter um bom salário e quando chegar a velhice ver que não fez nada de produtivo e que sua passagem pela terra não foi percebida por ninguém. Morreu um burocrata, um carimbador de papéis, um pobre-rico. Eu planejo muito mais para a minha vida.

Piadas em torno do serviço em empresas públicas abundam. Ótima é aquela do veterano de guerra que perdeu os testículos numa explosão de granada e foi aprovado em um concurso público para trabalhar em uma repartição qualquer dessas aí da vida. O chefe dele disse no seu primeiro dia de trabalho: “O expediente começa as 8 da manhã, mas você pode chegar às 11 da manhã, pois das 8 até as 11 ficamos aqui somente coçando o saco, como você não tem saco, tá dispensado!”.

Outro piadista disse: “Quando me aposentar, quero continuar trabalhando, mas em uma área estatal de planejamento. A razão é simples. Ali você planeja o que não executa e depois avalia o que não fez”.

Mais importante, nunca devemos esquecer que as empresas públicas não sõ do público. Elas são dos políticos, dos tecnocratas e agora mais do que nunca, são reféns e gueixas dos sindicatos. E ainda encontro alguns palhaços que alegam que as leis trabalhistas andam a favor dos empresários.

Ora, só faltam estuprar os empresários com impostos e impossíveis leis trabalhistas e ainda reclamam de falta de emprego. Contradição, não? Quebram o empresário e querem emprego. É de fato muito engraçado.

Ninguém percebe que tornando o emprego caro, o empresário não vai contratar. Em resumo, é uma luxúria total aos que já estão empregados e que se fodam os que estão desempregados. Ou alguém já viu sindicato ajudando desempregado? Eles só ajudam quem contribui. Desempregado não contribui.

Se o empregado fosse barato, como nos Estados Unidos e nos países sérios, o empregador os contrataria menos assustado em perder as calças empenhadas na Caixa Econômica Federal, para pagar suas dívidas trabalhistas. Isso não é difícil de perceber. Mas eles querem o céu com sexo e isso não existe. Ou céu ou sexo.

No campo econômico, o que tenho a dizer é que é demais concentrar o poder econômico na mão do Estado, pois é dar poder demais a esse Leviatã. Já basta que tenha o monopólio do poder político. Como dizia o ilustre professor Roberto Campos: “Dar monopólios econômicos ao estado é correr o risco de transformar um eleitor independente em um cliente dependente”.

O papel do governo é navegar, não é remar. Prestar serviços, por exemplo, é remar e o governo não é bom remador. As pessoas tem que perceber que o governo não foi feito pra remar. Ele é bem mais importante. Ele tem que dirigir a embarcação. E ninguém pode remar e conduzir o barco ao mesmo tempo, a não ser que seja um barco muito pequeno, o que não é o caso do Brasil.

Peter Drucker no seu espetacular “The Age of Discontinuity” fortalece o que pretendo esclarecer. Diz ele: “Qualquer tentativa de combinar a ação governamental com o fazer, paralisa a capacidade de decidir, pois eles são órgãos decisórios e não estão focalizados em executar, nem equipados para isso. Essa não é sua preocupação fundamental”.

Uma frase de Ronald Reagan, um dos ícones do liberalismo econômico, aquele que contribuiu juntamente com a Dama de Ferro, Margaret Tatcher, para a continuidade do capitalismo liberal, descreve bem o que estou defendendo aqui. “O governo não é a solução, é parte do problema”.

Desejo muita, muita, mas muita sorte ao povo brasileiro. O governo que acaba de ganhar as eleições vai deixar um buraco tão grande nos corações e na esperança dos brasileiros, que não sei se iremos nos recuperar. Além, de claro, vazias as prateleiras das lojas.

Esse populismo, acenado pelo Ministério da Fome, aliado com o nacionalismo acentuado, ao defender veementemente a fabricação nacional das plataformas da Petrobrás, pode nos levar à ruína. Sem esquecer a política de enriquecer as castas e jogar migalhas aos pobres, que é marca registrada das esquerdas no mundo inteiro. Fidel Castro é um dos homens mais ricos do mundo, enquanto os cubanos não tem papel higiênico pra limparem suas bundas.

Com todo esse aparato, chances são, enormes, que o Brasil seja enterrado de vez no clube daqueles que ficam melhor sonhando do que conseguindo.

Fabiano Holanda, Montréal, Novembro de 2002.

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