Tuesday, 6 October 2020

Ode ao que é falso

Perdoe seus inimigos, mas não esqueça seus nomes”.

John Kennedy

Adquiri, ainda no Brasil, uma antena que detectava todo movimento considerado não-real, mas que queria passar a imagem de real. O fabricante me assegurou que ela funcionaria bem até pelo menos 2045, quando eu teria 70 anos. Trouxe-a a Montréal na esperança de continuar utilizando esse maravilhoso instrumento. Mas, para minha surpresa, ela não funciona mais.

Liguei pro fabricante indignado e ele me mostrou uma cláusula, naquelas entrelinhas, que dizia que essa antena só funcionava abaixo do Equador. Mais uma vez fui enganado, mas vou fazer o que? Apesar de não parecer, por acomodação, nunca corro muito atrás dos meus direitos de consumidor.

Então, totalmente indefeso, continuei a tentar a viver sem ela. Um desastre total. A sensação, só para se ter uma idéia, seria como se alguém tirasse de você algo como o telefone, o carro, o computador, a geladeira e de quebra, o vaso sanitário. Todos de uma uma única vez. É mais ou menos assim como me sinto, devido ao costume que adquiri com essa antena.

Mas, mesmo quando ela ainda funcionava, servia só pra pessoas falsificadas. Com máquinas, roupas ou qualquer objeto inanimado, ela não funcionava. Camisas e tênis do coreano, por exemplo, se não fossem tão facilmente identificáveis, passariam por legítimos, pois a antena não acusaria. Porém, sua utilização era deveras brilhante no que se referia à pessoas. Quando um falso se aproximava de mim, a antena me dava um toque de alerta. Tinha três estágios. 1) Negativo, pode ficar à vontade. 2) Alerta, lance um papo qualquer pra testar. 3) Positivo, cuidado, falso na área.

Quando dava o resultado 3, era um barulho tão infernal que fazia na minha cabeça que eu tinha que me afastar o mais rápido possivel dessa pessoa, pra não endoidar de vez ou ter que apaga-la.

E como se isso não bastasse, esse magnifíco aparelho ainda tinha o poder de retirar a real pessoa de trás da falsa, o que era mais assustador ainda, como se fosse uma alma. Mais ou menos assim: “Olá Fabiano, tudo bem? Você está forte hein?”

E aí a máquina disparava no meu ouvido e eu visualizava por trás dessa pessoa a pessoa real, que dizia, em som imperceptível aos ouvidos de quem não possuía a antena: “Esse cara não se toca que com essa barriga não pode usar esse tipo de roupa?”.

Para não ficar louco, eu desligava a máquina e saía correndo pra longe dessa pessoa. A máquina era chata, mas era funcional e me fez viver bem na minha cidade Natal, desprezando as pessoas Made in Paraguai e me dedicando de peito aberto e alma escancarada àquelas verdadeiras. Se não gostou da roupa ou do corpo, fique calado, não estou clamando aqui a falta de educação.

Sem a máquina é difícil viver. Talvez mal costume, diriam alguns. Concordo, até. O fato é que é difícil. Mas, como sou bom observador, felizmente consegui perceber algumas características que podemos anotar para não cair completamente nas garras desses falsários.

Tome cuidado, muito cuidado, com aqueles que alegam não possuir desafetos, que dizem aos quatro cantos que gostam de tudos e de todos. Essa é a espécie mais cruel dessa sub-raça. Quem gosta de todo mundo, não gosta de ninguém. E digo mais, desafetos, preconceitos e pregas são coisas que pretendo cultivar até o resto dos meus dias.

Quem não tem um desafeto é porque ou ele é um sujeito inútil e sem sal ou então é um puxa-saco de todos, isto é, um eterno concordante passivo. E isso também é uma variação do falso, pois ninguém pode passar a vida inteira sem discordar de nada. Outra característica crucial, porém mais dificilmente identificável a primeiro momento é a do menino de recados, aquela raça que se utiliza do leva-e-traz como way of life.

Se ele não encontrar a discórdia, ele fabrica uma. Distorce frases e fatos em busca do seu prazer, que é ver o atrito entre as pessoas, embora sendo ele sempre o sujeito que ajudou um a desmascarar o outro. Ele é o bonzinho, aquele que detesta ver alguém falando mal ou fazendo maldade com outro. Por isso, ele vai contar agora o que nunca imaginou que aquela pessoa poderia ter feito. Um escandalo, meninas!

Mas, o que esse invídiduo não percebe e se percebe, subestima os outros, é que o mal dos espertos é acreditar que todo mundo é otário. Quase sempre são desmascarados. Uns mais rapidamente, outros levam mais tempo. As vezes muito tempo.

Uma alternativa pra esse problema é que as duas pessoas envolvidas na trama se encontrem para conversar. Aí o menino de recados se acaba. O problema é que dificilmente eles querem conversar, devido a raiva gerada pelo caso.

Aprendi na vida que o tempo é parceiro fiel de quem tem honestidade. E quanto mais honesto for, mais ainda o tempo ajudará. O falso é imediatista, vence à curto prazo ou nem tão curto assim, depende do prisma, mas no fim aquele que tem honestidade sempre é agraciado pelo tempo. Ainda que seja no último suspiro, no canto do cisne.

Outra característica marcante do falso é que ele sempre se faz de vítima. Ele sempr é injustiçado. Nunca vi nada igual. Acredito até ser praga dos céus. “Olhe o que fulano fez comigo? Logo eu, que não faço nada com ninguém!!”.

Quando alguém não tem o costume de praticar o mal, nunca diz essa frase exdrúxula. Tenho alguns amigos como eu, verdadeiros (sem falsa modéstia e com orgulho), que não vivem só do bem, nem que seja em pensamento, mas que também não ficam com esse discursinho furado. Tenho outros também que possuem uma ingenuidade intrínseca, uma ausência total da vontade de praticar ou pensar o mal, porém, também, não proferem essa maldita frase. Esses últimos são pessoas fabricadas artesanalmente, não em série como nós, a maioria.

Existem outras caractrísticas mais sutis dos falsos, mas com essas vocês já podem identificar no atacado. Os outros detalhes, eu deixarei somente pros especialistas e aficcionados, minuciosos e colecionadores como eu.

Oswaldo Montenegro fez uma canção destinada ao chato. Ele dizia que o chato era aquele cara que a gente fala “aparece lá em casa” e ele aparecia. Ele dizia que era preciso perdoar o chato, pois o chato tinha uma ingenuidade perene. No caso do falso, nao é preciso perdoar o falso. O falso tem um veneno perene e como os butantãs pelo mundo são poucos, é fundamental evitar a picada.

O que quero dizer é que a falsidade domina o mercado. Por onde vamos, a verdade sempre se esconde. Sempre temos a versão oficial e a versão real. Cada vez mais a verdade fica a ver navios. Seja o governo, o político, a opinião do colega, os resultdos esportivos ou os atentados terroristas, quase nunca a verdade está ao alcance da massa. Quando muito, chega nos 1% mais atentos, aqueles que possuem a referida antena.

Para se governar é preciso mascarar nímeros, falsificar balanços, fantasiar a verdade, construir obras bem em cima da terra, visíveis ao olhos da todos, para chamar a atenção para o que se deseja e encobrir o que não se deseja que seja visto. O político que queira elaborar um plano sério de governo, sem fantasia, não se elege.

O negócio é ser populista, mentir pra dizer o que a massa de ignorantes deseja ouvir. Prometer, mesmo sabendo que não consegue cumprir, nem que tenha intenção, como fazem os atuais líderes nas pesquisas presidenciais brasileiras. O colega, dependendo do tempo que ainda pretende viver ao seu lado, será aquele vaselina, sempre elogiando, mesmo o impossível de se elogiar.

As negociatas das copas do mundo para fabricar campeões, os Barrichelos deixando os Michaels ganharem, os escândalos das loterias esportivas, nos mostram que torcer está cada vez mais complicado. Mostram que a verdade morre a cada dia e aos poucos ela vai sendo enterrada junto àqueles que possuem dignidade. Ela foi enterrada um pouco com Ayrton Senna...

Meu ponto é que a falsidade está bastante atuante nos dias de hoje, e que a exemplo da neve e da seca, não podemos combatê-la, mas aprender a viver com ela.

Baseados no curso “como chegar a presidencia em apenas três lições” o PT segue também sua cartilha de atrair votos. Sabendo do desespero do povo com o atual governo, se utilizam disso para pregar frases de efeito e se tornarem campeões de votos. As três últimas eleições foram uma grande lição. E José “Machiavel” Dirceu aprendeu bem.

O que me desagrada é a dupla face, a traíragem. Os PTlhos não estão agindo corretamente. A partir da posse, a máscara vai cair. Não é possível que um partido abandone toda sua história de uma hora pra outra. Caso contrário, porque algum empresário se aliaria à esse partido, que sempre teve como arquiinimigo a figura do empresário? Em outra mão, admiro sujeitos como Oscar Niemeyer e José Saramagos. Não mudaram. São imbecis até hoje. E morrerão imbecis.

O Niemeyer, em entrevista essa semana à revista Época, teve a coragem de abrir a boca pra dizer que tanto ele quanto os russos estavam tranquilos, que mais dia menos dia o comunismo iria voltar àquele país. Acho que esse velho deve tá cheirando muito pó pra abrir a boca pra dizer uma merda dessas. Quem se livra dessa praga chamada comunismo e volta pra ela?

O Saramago, ao ler publicações portuguesas aqui em Montréal, pude perceber que os lusos clamam para que o Nobel de literatura fique mesmo somente na ficção, pois segudo os mesmos, quando “Saraminha paz e amor” abre boca, o ambiente todo “fica a empodrecer”. É um tendencioso nojento, só aprecia obras de escritores comunistas e lembrando espisódio recente que ficou famoso no mundo inteiro, comparou os israelenses aos campos de concentração nazistas, dizendo que são as mesmas coisas. É um grandioso CANALHA!!

Entretanto, o que me admira nesses dois caras, ícones de suas respectivas profissões, é a maneira verdadeira com que conduzem suas vidas. Embora eu não tenha o interesse nem de apertar a mão desses safados. Mas todos sabem que eles são comunistas, desde a empregada deles até o morador da região mais longínqua da Patagônia. Eles são e parecem ser. São fiéis à sua própria crença pagã. Niemeyer alega que o problema é o sistema, que não adianta votar em ninguém, pois o que precisa ser mudado é o sistema capitalista. Uma transição completa e irrestrita ao comunismo.

Não meu querido Oscar, o que precisa mudar são as pessoas. Talvez a população inteira. O Brasil seria uma potência mundial se não tivéssemos todos os dias do ano, bilhões desperdiçados em falcatruas.

Para finalizar, afirmo que de todos os defeitos listados no meu cardápio, nem o meu mais ferrenho inimigo poderá encontra o item falsidade, apesar da lista de defeitos ser enorme. Sei que sendo sincero, a vida será mais ingrata comigo, mas é um preço que pretendo pagar. Talvez alguma hora eu me venda, quem sabe. Até hoje não o fiz.

Dizem que todos tem o seu preço. O PT, por exemplo, já se vendeu. Não sei por quanto, mas deve ter sido muito caro, pois foram tão aguerridos nos seus propósitos. Talvez fosse pra valorizar o passe. Ou então era apenas o “tapía”.

É por isso que essas letras são uma homenagem aos falsos. Parabéns, vocês co nseguem e sempre conseguirão seus objetivos. Talvez por eu não ter conseguido ainda ser assim, e não ter atingido objetivo nenhum, tenha inveja de vocês e perca meu tempo escrevendo isso. Talvez seja só ranço. Despeito realmente é uma coisa triste.

Fabiano Holanda, Montréal, Outubro de 2002.

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