“Perdoe
seus inimigos, mas não esqueça seus nomes”.
John
Kennedy
Adquiri,
ainda no Brasil, uma antena que detectava todo movimento considerado
não-real, mas que queria passar a imagem de real. O
fabricante me assegurou que ela funcionaria bem até pelo menos 2045,
quando eu teria 70 anos. Trouxe-a a Montréal na esperança de
continuar utilizando esse maravilhoso instrumento. Mas, para minha
surpresa, ela não funciona mais.
Liguei
pro fabricante indignado e ele me mostrou uma cláusula, naquelas
entrelinhas, que dizia que essa antena só funcionava abaixo do
Equador. Mais uma vez fui enganado, mas vou fazer o que? Apesar de
não parecer, por acomodação, nunca corro muito atrás dos meus
direitos de consumidor.
Então,
totalmente indefeso, continuei a tentar a viver sem ela. Um desastre
total. A sensação, só para se ter uma idéia, seria como se alguém
tirasse de você algo como o telefone, o carro, o computador, a
geladeira e de quebra, o vaso sanitário. Todos de uma uma única
vez. É mais ou menos assim como me sinto, devido ao costume que
adquiri com essa antena.
Mas,
mesmo quando ela ainda funcionava, servia só pra pessoas
falsificadas. Com máquinas, roupas ou qualquer objeto inanimado, ela
não funcionava. Camisas e tênis do coreano, por exemplo, se não
fossem tão facilmente identificáveis, passariam por legítimos,
pois a antena não acusaria. Porém, sua utilização era deveras
brilhante no que se referia à pessoas. Quando um falso se aproximava
de mim, a antena me dava um toque de alerta. Tinha três estágios.
1) Negativo, pode ficar à vontade. 2) Alerta, lance um papo qualquer
pra testar. 3) Positivo, cuidado, falso na área.
Quando
dava o resultado 3, era um barulho tão infernal que fazia na minha
cabeça que eu tinha que me afastar o mais rápido possivel dessa
pessoa, pra não endoidar de vez ou ter que apaga-la.
E
como se isso não bastasse, esse magnifíco aparelho ainda tinha o
poder de retirar a real pessoa de trás da falsa, o que era mais
assustador ainda, como se fosse uma alma. Mais ou menos assim: “Olá
Fabiano, tudo bem? Você está forte hein?”
E
aí a máquina disparava no meu ouvido e eu visualizava por trás
dessa pessoa a pessoa real, que dizia, em som imperceptível aos
ouvidos de quem não possuía a antena: “Esse cara não
se toca que com essa barriga não pode usar esse tipo de roupa?”.
Para
não ficar louco, eu desligava a máquina e saía correndo pra longe
dessa pessoa. A máquina era chata, mas era funcional e me fez viver
bem na minha cidade Natal, desprezando as pessoas Made in
Paraguai e me dedicando de peito
aberto e alma escancarada àquelas verdadeiras. Se não gostou da
roupa ou do corpo, fique calado, não estou clamando aqui a falta de
educação.
Sem
a máquina é difícil viver. Talvez mal costume, diriam alguns.
Concordo, até. O fato é que é difícil. Mas, como sou bom
observador, felizmente consegui perceber algumas características que
podemos anotar para não cair completamente nas garras desses
falsários.
Tome
cuidado, muito cuidado, com aqueles que alegam não possuir
desafetos, que dizem aos quatro cantos que gostam de tudos e de
todos. Essa é a espécie mais cruel dessa sub-raça. Quem gosta de
todo mundo, não gosta de ninguém. E digo mais, desafetos,
preconceitos e pregas são coisas que pretendo cultivar até o resto
dos meus dias.
Quem
não tem um desafeto é porque ou ele é um sujeito inútil e sem sal
ou então é um puxa-saco de todos, isto é, um eterno concordante
passivo. E isso também é uma variação do falso, pois ninguém
pode passar a vida inteira sem discordar de nada. Outra
característica crucial, porém mais dificilmente identificável a
primeiro momento é a do menino de recados, aquela raça que se
utiliza do leva-e-traz como way of life.
Se
ele não encontrar a discórdia, ele fabrica uma. Distorce frases e
fatos em busca do seu prazer, que é ver o atrito entre as pessoas,
embora sendo ele sempre o sujeito que ajudou um a desmascarar o
outro. Ele é o bonzinho, aquele que detesta ver alguém falando mal
ou fazendo maldade com outro. Por isso, ele vai contar agora o que
nunca imaginou que aquela pessoa poderia ter feito. Um escandalo,
meninas!
Mas,
o que esse invídiduo não percebe e se percebe, subestima os outros,
é que o mal dos espertos é acreditar que todo mundo é otário.
Quase sempre são desmascarados. Uns mais rapidamente, outros levam
mais tempo. As vezes muito tempo.
Uma
alternativa pra esse problema é que as duas pessoas envolvidas na
trama se encontrem para conversar. Aí o menino de recados se acaba.
O problema é que dificilmente eles querem conversar, devido a raiva
gerada pelo caso.
Aprendi
na vida que o tempo é parceiro fiel de quem tem honestidade. E
quanto mais honesto for, mais ainda o tempo ajudará. O falso é
imediatista, vence à curto prazo ou nem tão curto assim, depende do
prisma, mas no fim aquele que tem honestidade sempre é agraciado
pelo tempo. Ainda que seja no último suspiro, no canto do cisne.
Outra
característica marcante do falso é que ele sempre se faz de vítima.
Ele sempr é injustiçado. Nunca vi nada igual. Acredito até ser
praga dos céus. “Olhe o que fulano fez comigo? Logo eu,
que não faço nada com ninguém!!”.
Quando
alguém não tem o costume de praticar o mal, nunca diz essa frase
exdrúxula. Tenho alguns amigos como eu, verdadeiros (sem falsa
modéstia e com orgulho), que não vivem só do bem, nem que seja em
pensamento, mas que também não ficam com esse discursinho furado.
Tenho outros também que possuem uma ingenuidade intrínseca, uma
ausência total da vontade de praticar ou pensar o mal, porém,
também, não proferem essa maldita frase. Esses últimos são
pessoas fabricadas artesanalmente, não em série como nós, a
maioria.
Existem
outras caractrísticas mais sutis dos falsos, mas com essas vocês já
podem identificar no atacado. Os outros detalhes, eu deixarei somente
pros especialistas e aficcionados, minuciosos e colecionadores como
eu.
Oswaldo
Montenegro fez uma canção destinada ao chato. Ele dizia que o chato
era aquele cara que a gente fala “aparece lá em casa” e
ele aparecia. Ele dizia que era preciso perdoar o chato, pois o chato
tinha uma ingenuidade perene. No caso do falso, nao é preciso
perdoar o falso. O falso tem um veneno perene e como os butantãs
pelo mundo são poucos, é fundamental evitar a picada.
O
que quero dizer é que a falsidade domina o mercado. Por onde vamos,
a verdade sempre se esconde. Sempre temos a versão oficial e a
versão real. Cada vez mais a verdade fica a ver navios. Seja o
governo, o político, a opinião do colega, os resultdos esportivos
ou os atentados terroristas, quase nunca a verdade está ao alcance
da massa. Quando muito, chega nos 1% mais atentos, aqueles que
possuem a referida antena.
Para
se governar é preciso mascarar nímeros, falsificar balanços,
fantasiar a verdade, construir obras bem em cima da terra, visíveis
ao olhos da todos, para chamar a atenção para o que se deseja e
encobrir o que não se deseja que seja visto. O político que queira
elaborar um plano sério de governo, sem fantasia, não se elege.
O
negócio é ser populista, mentir pra dizer o que a massa de
ignorantes deseja ouvir. Prometer, mesmo sabendo que não consegue
cumprir, nem que tenha intenção, como fazem os atuais líderes nas
pesquisas presidenciais brasileiras. O colega, dependendo do tempo
que ainda pretende viver ao seu lado, será aquele vaselina, sempre
elogiando, mesmo o impossível de se elogiar.
As
negociatas das copas do mundo para fabricar campeões, os Barrichelos
deixando os Michaels ganharem, os escândalos das loterias
esportivas, nos mostram que torcer está cada vez mais complicado.
Mostram que a verdade morre a cada dia e aos poucos ela vai sendo
enterrada junto àqueles que possuem dignidade. Ela foi enterrada um
pouco com Ayrton Senna...
Meu
ponto é que a falsidade está bastante atuante nos dias de hoje, e
que a exemplo da neve e da seca, não podemos combatê-la, mas
aprender a viver com ela.
Baseados
no curso “como chegar a presidencia em apenas três lições” o
PT segue também sua cartilha de atrair votos. Sabendo do desespero
do povo com o atual governo, se utilizam disso para pregar frases de
efeito e se tornarem campeões de votos. As três últimas eleições
foram uma grande lição. E José “Machiavel” Dirceu
aprendeu bem.
O
que me desagrada é a dupla face, a traíragem. Os PTlhos não estão
agindo corretamente. A partir da posse, a máscara vai cair. Não é
possível que um partido abandone toda sua história de uma hora pra
outra. Caso contrário, porque algum empresário se aliaria à esse
partido, que sempre teve como arquiinimigo a figura do empresário?
Em outra mão, admiro sujeitos como Oscar Niemeyer e José Saramagos.
Não mudaram. São imbecis até hoje. E morrerão imbecis.
O
Niemeyer, em entrevista essa semana à revista Época, teve a coragem
de abrir a boca pra dizer que tanto ele quanto os russos estavam
tranquilos, que mais dia menos dia o comunismo iria voltar àquele
país. Acho que esse velho deve tá cheirando muito pó pra abrir a
boca pra dizer uma merda dessas. Quem se livra dessa praga chamada
comunismo e volta pra ela?
O
Saramago, ao ler publicações portuguesas aqui em Montréal, pude
perceber que os lusos clamam para que o Nobel de literatura fique
mesmo somente na ficção, pois segudo os mesmos, quando “Saraminha
paz e amor” abre boca, o ambiente todo “fica a
empodrecer”. É um tendencioso nojento, só aprecia obras de
escritores comunistas e lembrando espisódio recente que ficou famoso
no mundo inteiro, comparou os israelenses aos campos de concentração
nazistas, dizendo que são as mesmas coisas. É um grandioso
CANALHA!!
Entretanto,
o que me admira nesses dois caras, ícones de suas respectivas
profissões, é a maneira verdadeira com que conduzem suas vidas.
Embora eu não tenha o interesse nem de apertar a mão desses
safados. Mas todos sabem que eles são comunistas, desde a empregada
deles até o morador da região mais longínqua da Patagônia. Eles
são e parecem ser. São fiéis à sua própria crença pagã.
Niemeyer alega que o problema é o sistema, que não adianta votar em
ninguém, pois o que precisa ser mudado é o sistema capitalista. Uma
transição completa e irrestrita ao comunismo.
Não
meu querido Oscar, o que precisa mudar são as pessoas. Talvez a
população inteira. O Brasil seria uma potência mundial se não
tivéssemos todos os dias do ano, bilhões desperdiçados em
falcatruas.
Para
finalizar, afirmo que de todos os defeitos listados no meu cardápio,
nem o meu mais ferrenho inimigo poderá encontra o item falsidade,
apesar da lista de defeitos ser enorme. Sei que sendo sincero, a vida
será mais ingrata comigo, mas é um preço que pretendo pagar.
Talvez alguma hora eu me venda, quem sabe. Até hoje não o fiz.
Dizem
que todos tem o seu preço. O PT, por exemplo, já se vendeu. Não
sei por quanto, mas deve ter sido muito caro, pois foram tão
aguerridos nos seus propósitos. Talvez fosse pra valorizar o passe.
Ou então era apenas o “tapía”.
É
por isso que essas letras são uma homenagem aos falsos. Parabéns,
vocês co nseguem e sempre conseguirão seus objetivos. Talvez por eu
não ter conseguido ainda ser assim, e não ter atingido objetivo
nenhum, tenha inveja de vocês e perca meu tempo escrevendo isso.
Talvez seja só ranço. Despeito realmente é uma coisa triste.
Fabiano
Holanda, Montréal, Outubro de 2002.

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