“Aqueles
que não conseguem vencer na vida vingam-se falando mal dela”.
Voltaire
Dizem
por aí que a vida nos prega peças e eu estou inteiramente de acordo
com isso, mesmo não estando de acordo com tudo o que dizem por aí.
Dizem também que o homem é produto do ambiente em que está
inserido e disso eu discordo com todas as minhas forças.
Com
relação à segunda parte dessa história, a que diz que o homem é
produto do meio, eu acredito que isso se trata da maior bobagem que a
alguém deu cabo de imortalizar. Isso pode se dar em partes, mas
para que fosse tomada como verdadeira, como de fato é tomada,
deveria ser observada com mais vigor.
Na
minha opinião, isso é uma teoria de covardes, que tenta generalizar
uma situação com o objetivo sempre de tirar do indivíduo a
responsabilidade e culpar algo maior e intangível, como o Estado, os
marcianos, Deus ou o Satanás.
De
acordo com essa sinistra teoria, quando uma pessoa sai de sua casa,
seja numa favela ou numa mansão, e mata um indivíduo ou faz algo
benéfico a alguém, a culpa ou o mérito não é dela e sim da
sociedade, do governo ou do Judas, nunca dessa pessoa que cometeu
algum dos dois atos.
Essa
teoria relega o indivíduo à categoria de retardado, que não possui
vontade própria e é guiado somente pelas benesses ou durezas que a
vida e o ambiente ao redor impõem.
Simples,
não? Dá menos trabalho. Colocamos a culpa no presidente da
república e tudo bem, tomemos uma cerveja e já que ninguém é
culpado de nada, abolimos a profissão de advogados, que cá pra nós,
não seria nada mal. Dessa forma cretina de ver as coisas, não
teríamos nenhum cidadão nas cadeias, somente uma placa dizendo: “O
governo está preso aqui”.
Dessa
forma, e explicando porque a vida nos prega peças, vou contar onde
me colocaram e com isso, darei o meu testemunho sobre o porquê que
essa teoriazinha de botequim não funcionou comigo.
É
verdade que o primeiro ambiente que me meti, fora o da minha própria
casa e da casa de familiares, foi o Colégio Nossa Senhora das Neves,
um colégio tradicional e católico de minha cidade. Lá, onde
freqüentei de 1978 (no maternal) a 1990 (na oitava série), não
escutava nada sobre política ou sobre nada. O único movimento
político dentro desse colégio que eu me recordo era a eleição do
Centro Cívico e nada tinha de esquerda nem de direita, as discussões
eram baseadas nas “grandes” realizações que cada chapa poderia
realizar.
Até
então eu era um virgem político e econômico. Alienado à tudo o
que dizia respeito à vida de pessoas que não estavam no meu circulo
de convivência.
Dando
uma seqüência cronológica, o ano de 1991 começou com grandes
mudanças. Por pressões episcopais, fui convidado a me retirar desse
santo colégio. Porém, já havia percebido indícios que isso iria
acontecer e me antecipei para não ser pego de calças curtas. E para
surpresa de minha própria família, que via em mim um desleixado com
os estudos, pois tinha acabado de ser reprovado na sétima série,
consegui aprovação no concorridíssimo exame de seleção da
“Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte”, a famosa ETFRN.
Foi
com satisfação que disse para as freiras que eu mesmo iria sair
daquele colégio “atrasado” e estava entrando na Escola Técnica,
que não precisavam me dar a carta de convite de saída.
Chegando
na Escola Técnica, começou o meu calvário que se prolonga até
hoje. O ambiente era mais politizado do que a sede do PC do B. Não
existia outro assunto que não fosse política. Lutavam contra tudo e
contra todos. Desde os professores até os alunos.
No
início eu achava aquilo tudo bacana. Todos sempre andavam com livros
embaixo do braço, para demonstrar erudição. Falavam de teorias
marxistas, leninistas e trotskistas com um vigor que me deixava
boquiaberto. As poucas moças dali gostavam daqueles “intelectuais”
e eles percebendo isso, aumentavam ainda mais o grau de falação. E
de embromação.
O
negócio era contestar. Tudo. E eu era praticamente um mudo, somente
a escutar o que eles tinham a falar. Pareciam tão sábios que eu
tinha até medo de abrir minha boca para fazer perguntas, quem diria
ousar contrariar esse “gênios da raça”.
Mas
sempre me questionava por dentro. Aquelas teorias me pareciam tão
bonitas, mas ao mesmo tempo tão impraticáveis e preconceituosas.
Uma das perguntas que eu me fazia era: “Porque esse cara fala que
temos que respeitar o ser humano, seja qual for sua escolha de vida e
ao mesmo tempo vive me policiando porque eu tinha um tênis Reebok ou
porque eu ia para boates, ao invés de usar alpercata e ir comer no
Morre em pé?
Começava
a perceber ali uma ditadura disfarçada de gente “boa”.
Bem,
resumindo, passei impune a tudo isso e em 1996 entro na Universidade
Federal do Rio Grande do Norte. Pensava que iria mergulhar num
ambiente diferente. Ledo engano. Toda a turma da ETFRN estava lá
agora (cursando jornalismo, ciência social ou serviço social) e
eram mais numerosos, fazendo greve por tudo e com poder maior de
conquistas. Desde 1991 que eu tinha greve todo ano, já não
agüentava mais. Na UFRN, essas greves não cessariam.
Em
31 de dezembro de 1999 chego em Montréal, na conturbada província
do Québec, no continental Canadá. Até me inteirar das coisas, me
sentia aliviado, tinha enfim chegado num lugar onde essas pragas de
pensamento de esquerda não existiam.
Para
minha maior decepção, descobri que aqui tudo era igual a França e
não somente o idioma. Tudo o que eu tinha mais ojeriza, existia
aqui. Um pensamento de início do século passado, calculo que lá
pela década de 1910.
Senão
vejamos: são contra a mundialização; não dão chances de trabalho
qualificado aos imigrantes, mesmo estes sendo infinitamente
superiores aos seus cidadãos, intelectualmente e socialmente falando
(caracterizando assim uma reserva de mercado para a imbecilidade);
através da Lei 101 obrigam os imigrantes e seus filhos a estudarem
em francês e terem esse idioma como primeira língua, não deixando
eles escolherem livremente o que estudar; querem se separar do resto
do Canadá pois se julgam superiores às demais províncias, porém
são os mais atrasados, seja em relação às taxas de desemprego, ao
número de indústrias, ao grau de escolaridade e à renda per
capita.
Enquanto
os vizinhos do sul atraem talentos, não importando sua origem ou
nacionalidade, os energúmenos do Québec se apóiam em reclamar da
globalização e não enxergam que o fracasso de seus negócios está
no pobre capital humano existente aqui, pois até os bons que existem
aqui, os americanos carregam pra lá, oferecendo salários que chegam
ao dobro do mirrados quebecoises.
Assim
como os franceses, eles não possuem autocrítica e dão de ombros
para isso e creditam esse fenômeno à moeda, pois o dólar americano
vale um dólar canadense e meio. Pura cegueira.
Aqui,
como na França, o que predomina é a cultura do Estado do bien-être
social. Quer dizer, uns trabalham para uma cambada de vagabundos
ficarem em casa recebendo 1.000 dólares por mês sem nada fazer.
Para os nascidos aqui, empregos há aos borbotões. Eles não
trabalham porque simplesmente se acostumaram a ter essa quantia na
conta todo começo de mês.
E
o estúpido sistema proporciona isso. A esposa de um amigo passava o
mês em casa e recebia além de 700 dólares por mês e ticket de
leite para o filho, um subsídio para o aluguel, cujo valor original
era de 820 dólares e ela pagava apenas 150 dólares.
Ela
conseguiu um emprego num banco. Pois bem, o resultado foi uma simples
equação que ela fez: se ela trabalhasse o mês inteiro e ganhasse
seu salário, não valia a pena, pois ela perderia o subsídio do
apartamento, a mesada do governo e o ticket do leite e ainda não
ficava em casa dormindo. Ela Parou de trabalhar. E assim como ela
existem inúmeros outros cidadãos do Quebec.
Acho
que esquerda brasileira adoraria se no Brasil as coisas funcionassem
assim.
Bem,
a peça que me foi pregada é que desde 1991 eu vivo num ambiente
onde o pensamento que mais abomino me cerca, com apenas um descanso
no meu período sabático entre os anos de 1994 e 1996.
E
mesmo assim, eu sou a prova viva de que o meio não influencia o
comportamento dos indivíduos, senão, depois dessa imersão na
cultura canhota que ainda não consegui me libertar, eu seria um
guerrilheiro de Fidel, um ativista do Green Peace, um escudo humano
no Iraque, ou pior ainda, um idiota com um broche do PT na lapela,
gritando palavras de ordem ou frases feitas e obsoletas de uma
passado que caiu com a derrocada do assassino sistema soviético,
chinês ou argelino.
O
destino me pregou essa enorme peça e está rindo, mas como se diz
por aí, e disso eu concordo plenamente, quem ri por ultimo, ri
melhor.
Fabiano
Holanda, Montréal, Maio de 2003.

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