Tuesday, 6 October 2020

O meio é meu pastor e nada me faltará

Aqueles que não conseguem vencer na vida vingam-se falando mal dela”.

Voltaire

Dizem por aí que a vida nos prega peças e eu estou inteiramente de acordo com isso, mesmo não estando de acordo com tudo o que dizem por aí. Dizem também que o homem é produto do ambiente em que está inserido e disso eu discordo com todas as minhas forças.

Com relação à segunda parte dessa história, a que diz que o homem é produto do meio, eu acredito que isso se trata da maior bobagem que a alguém deu cabo de imortalizar. Isso pode se dar em partes, mas para que fosse tomada como verdadeira, como de fato é tomada, deveria ser observada com mais vigor.

Na minha opinião, isso é uma teoria de covardes, que tenta generalizar uma situação com o objetivo sempre de tirar do indivíduo a responsabilidade e culpar algo maior e intangível, como o Estado, os marcianos, Deus ou o Satanás.

De acordo com essa sinistra teoria, quando uma pessoa sai de sua casa, seja numa favela ou numa mansão, e mata um indivíduo ou faz algo benéfico a alguém, a culpa ou o mérito não é dela e sim da sociedade, do governo ou do Judas, nunca dessa pessoa que cometeu algum dos dois atos.

Essa teoria relega o indivíduo à categoria de retardado, que não possui vontade própria e é guiado somente pelas benesses ou durezas que a vida e o ambiente ao redor impõem.

Simples, não? Dá menos trabalho. Colocamos a culpa no presidente da república e tudo bem, tomemos uma cerveja e já que ninguém é culpado de nada, abolimos a profissão de advogados, que cá pra nós, não seria nada mal. Dessa forma cretina de ver as coisas, não teríamos nenhum cidadão nas cadeias, somente uma placa dizendo: “O governo está preso aqui”.

Dessa forma, e explicando porque a vida nos prega peças, vou contar onde me colocaram e com isso, darei o meu testemunho sobre o porquê que essa teoriazinha de botequim não funcionou comigo.

É verdade que o primeiro ambiente que me meti, fora o da minha própria casa e da casa de familiares, foi o Colégio Nossa Senhora das Neves, um colégio tradicional e católico de minha cidade. Lá, onde freqüentei de 1978 (no maternal) a 1990 (na oitava série), não escutava nada sobre política ou sobre nada. O único movimento político dentro desse colégio que eu me recordo era a eleição do Centro Cívico e nada tinha de esquerda nem de direita, as discussões eram baseadas nas “grandes” realizações que cada chapa poderia realizar.

Até então eu era um virgem político e econômico. Alienado à tudo o que dizia respeito à vida de pessoas que não estavam no meu circulo de convivência.

Dando uma seqüência cronológica, o ano de 1991 começou com grandes mudanças. Por pressões episcopais, fui convidado a me retirar desse santo colégio. Porém, já havia percebido indícios que isso iria acontecer e me antecipei para não ser pego de calças curtas. E para surpresa de minha própria família, que via em mim um desleixado com os estudos, pois tinha acabado de ser reprovado na sétima série, consegui aprovação no concorridíssimo exame de seleção da “Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte”, a famosa ETFRN.

Foi com satisfação que disse para as freiras que eu mesmo iria sair daquele colégio “atrasado” e estava entrando na Escola Técnica, que não precisavam me dar a carta de convite de saída.

Chegando na Escola Técnica, começou o meu calvário que se prolonga até hoje. O ambiente era mais politizado do que a sede do PC do B. Não existia outro assunto que não fosse política. Lutavam contra tudo e contra todos. Desde os professores até os alunos.

No início eu achava aquilo tudo bacana. Todos sempre andavam com livros embaixo do braço, para demonstrar erudição. Falavam de teorias marxistas, leninistas e trotskistas com um vigor que me deixava boquiaberto. As poucas moças dali gostavam daqueles “intelectuais” e eles percebendo isso, aumentavam ainda mais o grau de falação. E de embromação.

O negócio era contestar. Tudo. E eu era praticamente um mudo, somente a escutar o que eles tinham a falar. Pareciam tão sábios que eu tinha até medo de abrir minha boca para fazer perguntas, quem diria ousar contrariar esse “gênios da raça”.

Mas sempre me questionava por dentro. Aquelas teorias me pareciam tão bonitas, mas ao mesmo tempo tão impraticáveis e preconceituosas. Uma das perguntas que eu me fazia era: “Porque esse cara fala que temos que respeitar o ser humano, seja qual for sua escolha de vida e ao mesmo tempo vive me policiando porque eu tinha um tênis Reebok ou porque eu ia para boates, ao invés de usar alpercata e ir comer no Morre em pé?

Começava a perceber ali uma ditadura disfarçada de gente “boa”.

Bem, resumindo, passei impune a tudo isso e em 1996 entro na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Pensava que iria mergulhar num ambiente diferente. Ledo engano. Toda a turma da ETFRN estava lá agora (cursando jornalismo, ciência social ou serviço social) e eram mais numerosos, fazendo greve por tudo e com poder maior de conquistas. Desde 1991 que eu tinha greve todo ano, já não agüentava mais. Na UFRN, essas greves não cessariam.

Em 31 de dezembro de 1999 chego em Montréal, na conturbada província do Québec, no continental Canadá. Até me inteirar das coisas, me sentia aliviado, tinha enfim chegado num lugar onde essas pragas de pensamento de esquerda não existiam.

Para minha maior decepção, descobri que aqui tudo era igual a França e não somente o idioma. Tudo o que eu tinha mais ojeriza, existia aqui. Um pensamento de início do século passado, calculo que lá pela década de 1910.

Senão vejamos: são contra a mundialização; não dão chances de trabalho qualificado aos imigrantes, mesmo estes sendo infinitamente superiores aos seus cidadãos, intelectualmente e socialmente falando (caracterizando assim uma reserva de mercado para a imbecilidade); através da Lei 101 obrigam os imigrantes e seus filhos a estudarem em francês e terem esse idioma como primeira língua, não deixando eles escolherem livremente o que estudar; querem se separar do resto do Canadá pois se julgam superiores às demais províncias, porém são os mais atrasados, seja em relação às taxas de desemprego, ao número de indústrias, ao grau de escolaridade e à renda per capita.

Enquanto os vizinhos do sul atraem talentos, não importando sua origem ou nacionalidade, os energúmenos do Québec se apóiam em reclamar da globalização e não enxergam que o fracasso de seus negócios está no pobre capital humano existente aqui, pois até os bons que existem aqui, os americanos carregam pra lá, oferecendo salários que chegam ao dobro do mirrados quebecoises.

Assim como os franceses, eles não possuem autocrítica e dão de ombros para isso e creditam esse fenômeno à moeda, pois o dólar americano vale um dólar canadense e meio. Pura cegueira.

Aqui, como na França, o que predomina é a cultura do Estado do bien-être social. Quer dizer, uns trabalham para uma cambada de vagabundos ficarem em casa recebendo 1.000 dólares por mês sem nada fazer. Para os nascidos aqui, empregos há aos borbotões. Eles não trabalham porque simplesmente se acostumaram a ter essa quantia na conta todo começo de mês.

E o estúpido sistema proporciona isso. A esposa de um amigo passava o mês em casa e recebia além de 700 dólares por mês e ticket de leite para o filho, um subsídio para o aluguel, cujo valor original era de 820 dólares e ela pagava apenas 150 dólares.

Ela conseguiu um emprego num banco. Pois bem, o resultado foi uma simples equação que ela fez: se ela trabalhasse o mês inteiro e ganhasse seu salário, não valia a pena, pois ela perderia o subsídio do apartamento, a mesada do governo e o ticket do leite e ainda não ficava em casa dormindo. Ela Parou de trabalhar. E assim como ela existem inúmeros outros cidadãos do Quebec.

Acho que esquerda brasileira adoraria se no Brasil as coisas funcionassem assim.

Bem, a peça que me foi pregada é que desde 1991 eu vivo num ambiente onde o pensamento que mais abomino me cerca, com apenas um descanso no meu período sabático entre os anos de 1994 e 1996.

E mesmo assim, eu sou a prova viva de que o meio não influencia o comportamento dos indivíduos, senão, depois dessa imersão na cultura canhota que ainda não consegui me libertar, eu seria um guerrilheiro de Fidel, um ativista do Green Peace, um escudo humano no Iraque, ou pior ainda, um idiota com um broche do PT na lapela, gritando palavras de ordem ou frases feitas e obsoletas de uma passado que caiu com a derrocada do assassino sistema soviético, chinês ou argelino.

O destino me pregou essa enorme peça e está rindo, mas como se diz por aí, e disso eu concordo plenamente, quem ri por ultimo, ri melhor.

Fabiano Holanda, Montréal, Maio de 2003.

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