Tuesday, 17 November 2020

Aposentadoria sueca

Uma das grandes preocupações de Roberto Campos era a questão da previdência social. Ele argumentava que ela não deveria ser obrigatória, tendo em vista que o contribuinte deveria ter o direito de escolher quem administraria o seu dinheiro.

Pego-me com a mesma preocupação nesses meses antes de pagar o meu imposto de renda aqui no Canadá. Só de Canada Pension Plan, que é a previdência publica, eu vou ter que pagar uma fortuna. Conversei com o contador e ele me assegurou que era obrigatório esse pagamento. Fazer o que?

Espero que quando chegar o tempo deles me sustentarem, ainda possuam algum dinheiro em caixa, tendo em vista que a população mundial está envelhecendo, não está nascendo muita gente e a idade de aposentadoria permanece a mesma. Assim, o tempo de pagamento da pensão ao individuo aumentou consideravelmente.

Se eles calculavam que um individuo iria morrer aos 70 anos de idade, a previdência só teria que pagar 5 anos de aposentadoria pra um senhor que se aposentou aos 65 anos de idade. Mas se esse mesmo senhor morrer somente aos 95 anos de idade? Seriam necessários 30 anos de pagamento de aposentadoria por parte do governo.

Quem paga a conta? Os jovens que estão trabalhando no momento em que o senhor está recebendo a grana. Mas não vai estourar, tendo em vista que a população envelhece e o tempo de contribuição continua o mesmo? Alem de que, as taxas de natalidade estão cada vez menores? Vai estourar sim. Se continuar assim, vai estourar.

O país que não se preocupar com essa questão, irá enfrentar sérios problemas num futuro próximo. Isso sem falar que a maioria das previdências dos países já é deficitária nos dias de hoje... no futuro então...

Existe alguma perspectiva? Sim, é só observar o caso da Suécia. Em 1999, a previdência da Suécia tinha um rombo de 680 bilhões de dólares (duas vezes e meia o tamanho do PIB). O que o governo da Suécia fez? Em vez de taxar pesadamente as pessoas, eles estipularam uma taxa fixa de 16% dos ganhos de cada trabalhador, mais um adicional de 2,5% que pode ser aplicado num plano de previdência privada.

Quando se aposenta, o aposentado retira o que contribuiu durante seu tempo de trabalho mais os rendimentos, como se fosse uma caderneta de poupança. Dessa maneira, um rico não subsidia a aposentadoria de 30 pobres. Cada um recebe o que pagou e desfaz-se as incorreções causadas pelas contribuições diferentes.

Polônia, Lituânia e Itália já adotaram o sistema sueco e a Alemanha cogita fazer o mesmo. O Egito vai adotá-lo no próximo mês. Faço votos que o Canadá invente de fazer o mesmo.

Mas apesar de acreditar que o exemplo sueco é válido, ainda tenho forte convicção de que o melhor mesmo seria o cidadão poder optar entre fazer ou não a sua contribuição ao grande Leviatã, podendo escolher entre aplicar o seu dinheiro num fundo de pensão, no mercado imobiliario ou numa carteira de ações, que dão rendimentos melhores que os minguados juros governamentais.

Mas do que o governo se alimenta senão sugando dos cidadãos? No mes de abril, o grande drácula enfia os dentes nas nossas jugulares e fica rindo à toa... pega o nosso dinheiro, investe no que bem entende e nos devolve as migalhas quando ficamos velhos... parece que acreditam que não teremos mais dentes e as migalhas são mais fáceis de engolir... viva os impostos e a contribuição compulsória de previdencia!!!

Fabiano Holanda, Brampton, Março de 2007.

Índios norte-americanos

Os índios que vivem em terras americanas e canadenses são um problema que os governos não sabem como lidar. Eles possuem direitos e leis diferentes das leis do cidadão comum e usam e abusam desses privilégios.

No Canadá, por exemplo, eles não pagam impostos de 14% quando realizam qualquer compra, seja um refrigerante ou seja uma casa. Tem-se o preço na prateleira e na hora que chega no caixa, você paga mais 14% sobre o valor adquirido. Desses 14%, 8% são pro governo provincial e 6% pro governo federal. Os índios não pagam essas taxas.

Assim como não precisam fazer imposto de renda, recebem uma mesada do governo e possuem reservas com casas, água, luz e telefone, de graça. Dentro das reservas, a polícia não pode entrar em hipótese alguma, apenas se for convidada. Valendo-se desse direito, os índios fazem o que querem ali. Vendem cigarros e bebidas alcoólicas contrabandeadas e atravessam pessoas através das fronteiras canadenses e americanas, pois algumas reservas abrangem terras dos dois paises (por exemplo, uma prate da reserva é na província do Quebec, Canadá e outra é no Estado de Vermont, Estados Unidos).

Acredito que são essas facilidades que acabam por “estragar” os índios e geram uma falta de objetivos, de um propósito na vida. O índice de alcoolismo nas reservas é altíssimo, assim como o numero de pequenos delitos como arruaça, brigas e beber na rua. Como diz o ditado, mente vazia é casa do satanás.

No oeste canadense, onde a densidade demográfica é menor, os índios pintam e bordam mesmo. Os policiais começaram a pegar os índios “trouble makers”, os colocavam nos carros em pleno inverno, dirigiam por horas dentro das florestas, retiravam os seus casacos e os deixavam morrer no frio, pois não tinham como voltar. Fizeram isso por anos, até que um índio forte conseguiu voltar e abriu a boca. Dezenas de casos foram então esclarecidos.

Em resumo, o índio canadense é em sua maioria um povo pouco educado (educação escolar, quero dizer), e não gostam nenhum pouco dos brancos (que já consideram invasores) e dos imigrantes então, nem pensar (que já consideram invasores dos invasores). Eu mesmo já tive duas péssimas experiências com eles.

Nos Estados Unidos eu não conheço muito bem do dia-a-dia deles, nem seus problemas, pois não convivi com eles nos poucos meses que vivi em Boston (os únicos índios por lá são os de Governador Valadares). Sei que existem índios ricos e donos de cassino nos estados de Minnesota e Connecticut, entre outros. Inclusive, os índios são os maiores doadores individuais das campanhas dos democratas.

Estatísticas governamentais registram que existem 557 tribos indígenas nos Estados Unidos nos dias de hoje. Destes, quase 200 tribos exploram algum tipo de jogo de azar. Trata-se de mais uma vantagem da autonomia das reservas.

Donald Trump é um dos incomodados com o sucesso dos índios, alegando que o tratamento especial dado aos índios atrapalha os seus negócios com seus cassinos de Atlantic City, no estado de New Jersey. Trump diz que o governo sente culpa pelo massacre dos índios no passado e hoje amolece com as regras dos cassinos, que são rígidas pros donos não-indigenas.

Dito isto, fica o pensamento que mal caratismo não escolhe cor, religião ou local de nascimento. Basta que se relaxe, que o ser humano tira proveito. E o dinheiro é sempre o culpado. Quem foi o safado que inventou o dinheiro? 

Fabiano Holanda, Brampton, Fevereiro de 2007.

Um dia a gente se encontra

Ainda sem ter digerido a desgraça ocorrida na ultima sexta-feira, 19 de janeiro, tento escrever alguma coisa aqui, já que não posso fazer muito mais...

Geraldo Segundo, o nosso amigo, foi assassinado covardemente, em plena luz do dia, apos um dia de trabalho.

O termo “assassinado covardemente” é muito pesado pra você? Então vejamos... O assassino temos: o motorista valentão. A arma do crime temos: o veículo. E alguém discorda que dirigir imprudentemente, tentando brigar com outro que supostamente lhe deu uma “trancada”, é ou não uma forma de puxar um gatilho?

No meu ponto de vista, e aviso logo que faço montes pra quem discordar dele, é que o que aconteceu com o nosso amigo Gereba foi o mesmo que ocorreu com aquele sujeito que estava andando numa praça e levou um tiro na cara e morreu sem nem saber que estava morrendo, muito menos o motivo...

Eu espero em Deus que esse irresponsável seja punido na lei dos homens, na lei divina ou em qualquer outra lei que por ventura desejem. Em brancas nuvens é que não se pode passar. Chega. A vida humana não é mais material precioso na terra tupiniquim...

Tira-se a vida de alguém que nem se conhece. Alguém na flor da idade, cheio de sonhos, planos, projetos futuros... Alguém que sequer teve tempo de construir sua própria família, saborear a beleza de ter filhos... É muita crueldade...

Segundo morou com seus tios Cínara e Daltinho em Montreal quando chegou ao Canadá. Quando se mudou pra província de Ontário, veio morar comigo e na minha casa ficou por mais ou menos uns 6 meses... Não teve um final de semana nesse periodo em que não ficássemos ate de manhã, tomando umas, assando carne, ouvindo musica e conversando, debatendo... Quantas saudades desse tempo... Eu, ele e o baiano Bizinho... Depois fomos agraciados com a chegada de Walter Junior, o querido Maninho, que passou a fazer parte dessas noitadas...

Poucos dias antes de voltar ao Brasil, Gereba veio à minha casa se despedir e conhecer minhas filhas gêmeas que haviam acabado de nascer. Trouxe com ele duas caixas de fraldas, um vistoso litro de Absolut e a amiga Lis.

A Absolut, absolutamente, desceu rapidamente. Conversamos sobre os planos de cada um e ele me disse: “Rapaz, vou embora. Vou voltar a ser engenheiro no Brasa, pois essa vida de Canadá é muito boa, mas já enchi o saco...”

Comemos uma lasanha e pra sobremesa tivemos um bolo de cenoura, com cobertura de chocolate. Segundo velho comeu mais da metade do bolo sozinho, sempre se levantando pra ir pegar outra fatia e dizendo: “Homi, esse bolo ta pau demais, homi...” E dava uma daquelas risadas dele... E de comentário em comentário, lá se foi metade do bolo...

Quando nos despedimos, ele me deu um abraço e disse: “Amigo Dasca, espero você em Natal pra derrubarmos uns litros de vodka com nosso amigo Berbera...”

Infelizmente, algum filho da puta interrompeu esses planos. Um espírito de porco que não satisfeito em se fuder sozinho, ceifa a vida de outro individuo, pensando ser uma estrada um brinquedo de autorama, onde ele pode colocar pra fora suas frustrações...

Amigo Segundo, sei que de onde estás, com certeza irás ler essa mensagem, pois eras um dos parcos leitores desse blog. Um dia ainda tomaremos as vodkas que combinamos e com certeza, levarei um bolo de cenoura inteiro pra você devorar sem precisar disfarçar com aquele frasezinha fuleira...

Vai com Deus, amigo Gera... Você é um cara muito querido, vide as demonstrações de carinhos dos seus amigos... Gostaria de transcrever aqui o ultimo e-mail que recebi de Gereba... Ele me disse: “Estava indo um dia pro trabalho, logo cedo, e me peguei pensando no período em que morei por ai! Te digo uma coisa, Fabiano, inconscientemente, aprendi muita coisa com você... E serei sempre grato por isso! Valeu!”
Valeu você, Segundão. Descanse em paz e um dia todos nós estaremos reunidos novamente. Um forte abraço e não se preocupe, a gente te acha. 

Na foto acima, no meu quintal, com algumas Molson Dry e uma feijoada. Molso Dry era a nossa preferida na época.

Fabiano Holanda, Brampton, Janeiro de 2007.

Bio Parte 22 - As coisas acontecem rápido

Um belo dia, estava eu em casa e Luciano bate na porta. Disse que estava retornando ao Brasil. Eu não entendi nada. Somente depois de um mês é que fiquei sabendo por terceiros que ele estava casando e com Lucianna grávida.

O ano de 2002 entrou e eu estava mais acomodado no mestrado e continuando trabalhando com Miguel e Olga na Soleil Net. Em setembro, minha irmã chegou no Canadá e me mudei pra casa de Morin e Lu, no segundo andar, da rua Ethel, na cidade de Verdun. Comecei a colocá-la em determinados trabalhos com Olga também e assim ela foi ficando capaz de pagar as próprias contas e pra sanidade mental dela e minha, resolveu se mudar e foi morar na casa do lado com Tiago e Flávia. A casa também era de Morin e eles moravam no andar de baixo.

No andar de cima moravam meus amigos Otávio e Mônica, com sua filhinha Maíra, então com 4 anos de idade. Otávio, professor da Univerdade Federal do Pará, fazia ali um curso de doutorado na Universidade UQAM. Foi meu companheiro de cachaça e de música todos os finais de semana. E Maíra era meu xodó, coloquei-a pra andar de bicicleta e carregava-a pra todos os lados. Ela estudava numa escola em francês, perto da Igreja de Verdun.

O trio Marcelo, Augusto e Maurício foram embora pra Flórida, pra onde tinha uma prima de Augusto por lá. 2003 chegou e nada mudou até chegar março e eu, como concluinte do mestrado, tinha direito de fazer estágio em alguma empresa. Foi aí que ocorreu um problema de entendimento.

Eu havia aplicado pra trabalhar numa grande empresa de consultoria chamada Mckinsey. Mas também tinha aplicado pra trabalhar em mais de duzentas empresas, inclusive uma gigante do setor de logística de medicamentos chamada McKesson. Só que a primeira era pra uma posiçao de consultoria, a segunda era pra uma posição mais baixa.

Recebi um telefonema da empresa e o cara falou McKesson, mas eu entendi Mckinsey. Pensei porra, fui chamado pra McKinsey, esse mestrado é forte mesmo. Ele me deu o endereço onde eu deveria me apresentar. Comprei roupa nova, sapato, e fui pro endereço fornecido.

Chegando lá, vi um grande galpão. Uma senhora na recepção perguntou meu nome e já tinha um crachá. Pensei, porra, que legal. Mandou eu seguir por um corredor, onde fui parado por um sujeito com um jaleco. Onde estão suas botas de segurança?, perguntou o sujeito. Que botas?, perguntei eu. Ele disse: “Como você quer trabalhar numa fábrica sem botas de segurança?”. Fábrica? Pensei eu. Do que esse cara tá falando?

Ele então me entregou um negócio duro pra calçar sobre os sapatos e pediu pra eu seguí-lo, dizendo, ríspido, compre botas pra trazer amanhã. Foi quando eu fui andando e vendo o nome nas paredes Mckesson e não McKinsey. E eu todo arrumado. Mas não desisti, fui até o fim. Encontrei outros estudantes da mesma universidade todos sentados numa sala de reunião. Passamos por um briefing sobre a empresa e me levaram pro meu posto.

O trabalho consistia em pegar um carrinho cheio de remédios e dali escanear cada item. Na scanner de mão, dizia o que eu deveria fazer com ele. Se fosse vencido, colocava em uma prateleira tal. Se fosse violado, colocaria em outra. E por ai ía. Uma dificuldade tão grande que até um macaco bem treinado consegueria realizar tal tarefa. O meu chefe, não tinha um dente sequer na boca. Fiquei impressionado como um sujeito daquele, num país daqueles, não tinha dente. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Dezembro de 2006. 

Bio Parte 21 - Ataque às torres gêmeas

Fiquei no Brasil até setembro de 2001, marcando minha passagem pro dia 11 de setembro de 2001, coincidentemente. Íriamos viajar à noite, eu e Luciano Berberick e fomos na agência STB, do meu amigo Maninho, buscar as passagens. Chegamos lá e estávamos esperando as passagens, que custavam 700 dólares na época, pra quem era estudante, quando vimos na televisão um prédio em Nova York pegando fogo.

Ninguém ali imaginava se tratar de um ataque terrorista, e sim de um acidente aéreo. Maninho então ligou pra tentar alguma informação com a Continental Airlines, foi quando foi informado que o espaço aéreo americano estava fechado. Resultado, só pudemos embarcar no dia 13 de setembro. Fizemos escala em Newark, New Jersey, uma das sedes de Continental e rumamos pra Montréal. Sobrevoamos Manhattan e ainda muita fumaça saía do lugar aonde eram as Torres Gêmeas.

Voltei às aulas do mestrado, e continuei fazendo um trabalho aqui e outro acolá pra me manter e toda noite eu dava uma surra de xadrez em Luciano. Entao o mesmo recebeu a visita da então namorada Lucianna. Inclusive tomamos uma cana de vodka na sexta-feira a noite, pesada. O resto da turma chegaria no sábado cedo: os primos Augusto e Maurício Benfica e Marcelo Toscano. Combinamos de pegá-los no aeroporto. Eu não acordei. Luciano, sem falar uma palavra de inglês ou francês, foi sozinho pegar um táxi e deixou Lucianna com a incubência de bater no meu apartamento até eu acordar e irmos ao encontro dele no aeroporto.

Lucianna que falava inglês, explicou ao taxista que era pra ir pro aeroporto, mas disse que Luciano já imitava as asas de um avião com os braços e fazia o barulho do motor pra ver se o taxista entendia que era aeroporto. Mas a volta de lá seria uma incognita. Depois de muito tempo, Lucianna conseguiu me acordar. Tomei um banho rápido e fomos pegar um onibus pra ir pro aeroporto. Pegamos o onibus errado. Depois pegamos o certo. Mas quando chegamos lá, já tinham ido embora.

Como Luciano fez? Comprou um mapa no aeroporto e uma caneta e circulou o endereço no mapa e apontou pro motorista. O taxista entendeu e lá se foram. Chegaram lá, a gente ainda devia estar indo. Mas deu certo, eles foram morar um tempo na casa de Danielle, esposa de Zumel, no bairro judeu de Outremont.

Lá, através dela, conheceram Dona Eva, uma brasileira que tinha um Pet Shop e era casada com um quebecois chamado Raymond. Por sua vez, Dona Eva conhecia uma senhora chamada Lena, que conhecia Olga, que tinha uma empresa de Limpeza também. Olga é uma portuguesa irmã de Miguel e os dois eram donos da empresa Soleil Net. Miguel anos depois casou com Flávia, prima de Maninho da agência que nos vendeu a passagem. Flavia continua casada com Miguel e tem duas meninas lindas e um rapaz mais novo. Miguel conheceu Flávia através da gente que fomos trabalhar com ele.

Augusto foi trabalhar a noite toda no Hotel de la Montagne e ainda fazia a boate Thursdays. Mauricio ficou fazendo trabalhos esporádicos e Marcelo só estudava. Eu peguei dois contratos: Chapters a noite e Archambault de manhã cedo. E isso me ajudou a custear minha vida por lá, inclusive o mestrado. Logo logo tinha juntado 20 mil dólares. Trabalhava também nos finais de semana.

O trio se mudou pra um apartamento também em Outremont e economizavam o máximo. Só não havia economia de cerveja. Tomavamos muitas. Mas carne era só moída. Carne inteira era cara demais. Lembro de Maurício dizendo certa feita: “Rapaz, faz tempo que não mastigo uma carne sem ser moída, estou com medo de não saber mais”. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Dezembro de 2006. 

Bio Parte 20 - Acabava 2000

Já estava frio e abrimos o gás, correndo, não sei porque. Cheguei lá em cima da ladeira morto, bufando, e vimos uma loja do KFC. Entramos e pedimos um combo do Super Croque, como se dizia no Québec. Ninguém parava de rir, bêbado é foda. Só fomos ter notícias de Celso no outro dia.

A rotina voltou ao normal, muito trabalho, recebi a grande notícia da aprovação do mestrado na prestigiosa HEC Montréal, chegou o Natal de 2000 e deu aquele banzo. Fui pra casa de Morin e Lu. Cana vai, cana vem, começamos uma discussão, eu e Rosel, sobre direita e esquerda. Ele falando sobre a esquerda, colocou o dedo na minha cara, em riste. Eu avisei: “Amigo, fale o que você quiser, mas não coloque o dedo na minha cara!”. Ele foi falando empolgado, e outra vez colocou o dedo na minha cara, gritando. Avisei de novo, amigo, fale mas não bote o dedo na minha cara. A terceira vez você vai se arrepender. Ele aprendeu ali naquele momento como as coisas funcionavam comigo. Ele colocou o dedo pela terceira vez na minha cara, e antes dele poder ter qualquer reação, eu dei uma mordida tão forte no dedo dele, que ele queria tirar o dedo da minha boca e não conseguia.

O sangue escorria e eu não soltava. Todo mundo entrou em pânico, querendo que eu soltasse, me empurrando, puxando e eu agarrado. Mas o engraçado foi que em vez dele ficar puto, teve um acesso de riso. Pulava de um lado pro outro, dizendo com o sotaque baiano, “Lá ele, o potiguar é pitbull, o potiguar é pitbull, qual o quê?”.

Voltamos a beber novamente quando fizeram um curativo, mas por precaução, pediram pra gente evitar o assunto política. Todos estavam assustados demais. Pegamos um ônibus pra casa, bebemos mais umas cervejas que tínhamos lá e fomos direto pro Chabanel pro trabalho. O frio era tão intenso naquele primeiro dia de 2001 que usávamos máscaras de ski para proteger o rosto, senão queimava. Era terrível, com neve acumulada da noite anterior que batia na canela. Do metrô pro prédio, eu pensei que fosse morrer. Fizemos o trabalho e só assim que voltamos pra casa pra dormir.

Logo no começo de janeiro começaram as aulas do mestrado. Se eu pensava que estava preparado, tive a certeza que não estava. O francês falado academicamente era muito mais puxado do que o falado nas ruas e nas escolas de idioma. Me vi doido. Nesse tempo, eu tinha somente o trabalho de Luiz, do Ministério do Trabalho do Québec, que começava as 5 da tarde e ia até umas 10 da noite, às vezes um pouco mais. Chegava de lá, ia estudar ou fazer algum trabalho (que toda semana tinha um pra cada matéria) até umas 2 ou 3 da madrugada, pra acordar cedo no outro dia pra começar as aulas às 9 da manhã. Mas ainda tinha onibus, metrô e parte à pé, então tinha que sair de casa no máximo as 8 da manhã.

No primeiro trimestre, fiz logo uma disciplina com Alain Joly e como Miguel Anez fazia pós doutorado, aproveitou e fez essa disciplina comigo. Era gestão comparada e estudava formas de gestão em diferentes países. A universidade era linda, desde a arquitetura até a biblioteca, passando pelas salas de aula, auditórios, lanchonete, corredores, escritórios dos professores. Tudo era incrível, um tempo de muita esperança e alegria, apesar de eu achar que aquele clube não era pra mim.

Acabou o trimestre de inverno, como eles chamam e o trimestre de verão era opcional. Como eu tinha que ter tempo pra dormir um pouco e tempo pra juntar o dinheiro da mensalidade, eu decidi voltar somente no trimestre de outono. Trabalhei em Luiz até o meio do ano, quando ele alegou que queriam minha permissão de trabalho e eu não tinha e tive que sair. Aproveitei pra ir no Brasil em agosto de 2001, pois meu pai estava com dinheiro da aposentadoria e resolveu me presentear com uma passagem.
 
Fabiano Holanda, Brampton, Novembro de 2006. 

Bio Parte 19 - Boulevard Décarie, 3433

O apartamento que peguei era de Iêda, aquela que tinha nos ajudado quase um ano antes. Ela estava indo morar em Verdun, em um apartamento que Mario Morin e Lu, que é de Natal também, alugavam, com dois quartos, uma espaçosa sala e uma espaçosa cozinha. Fiquei nesse apartamento de André Boulais por dois anos, até 2002, quando minha irmã resolveu ir pro Canadá e eu precisava de dois quartos.

Dali saí pro meu primeiro dia no prédio do Ministério do Trabalho do Québec. A estação mais perto da minha casa era Vendôme, linha laranja e ia até Sauvé, quase no final do outro lado, da mesma linha laranja. Deu tudo certo lá, o salário era 1600 dólares por mês, trabalhando apenas 5 horas por dia. A fábrica era 800 dólares, trabalhando 8 horas por dia, sem liberdade de ir nem no banheiro. Pense numa evolução. Estava me sentindo rico. Pagava o aluguel, morava só e ainda sobrava 1235 dólares pra comer e beber.

Pra completar, Rosel tinha mais dois empregos. Um num edifício chamado Chabanel e outro num banco da Caisse Populaire Desjardins, na mesma rua onde morávamos. Um pagava 800 dólares por mês e outro pagava 400 dólares. Rosel me propôs dividir com ele esses dois prédios também, mas só durou 2 meses e ele ficou sozinho de novo. Mas por 2 meses eu ganhei 2400 dólares por mês. Dava certo demais, pois o mestrado ainda não havia começado.

Como nada pode ser floreado, vamos à segunda grande merda em Montréal. A primeira foi a dos filipinos. Celso passa no prédio num domingo e chama pra tomar uma cerveja e jogar sinuca num lugar que ele gostava. Vamos simbora Rosel? Ele disse vamos, ninguém ganha pra mim na sinuca. E ninguém ganhou mesmo, o fela da puta é muito bom na sinuca. Mas o fato não foi esse. Foram muitas partidas e muitas cervejas. Contra todos que estavam lá. Eu com dinheiro, Rosel com dinheiro e Celso com dinheiro. Foi uma farra.

Celso tinha um Honda Civic Hatch preto, como eu já devo ter dito. Na hora da saída, vimos Celso bêbado, como nós estavamos também. Dissemos a ele que iríamos de metrô e dali ele fosse pra casa dele. Ele insistiu em nos deixar em casa, foi quase uma briga. “Não, moço, nós vamos de metrô”, dizia Rosel. Depois de tanta insistencia, fomos com Celso. Ele pegou a Highway e lá fomos nós, felizes nos 120km/h e tal. E Celso rindo e conversando. Eu vi que havia chegado ao fim pois tinha um semáforo e os carros estavam parados. E eu vendo que estávamos nos aproximando dos carros parados e nada de Celso diminuir. Quando não tinha mais jeito, eu gritei, “Fela da puta, os carros estão parados!!!”. Ele meteu os pés no freio, travou os pneus, mas não teve jeito. O Honda entrou todo, fiquei com os joelhos nos peitos. O casal da frente num Chevrolet Cavalier saiu do carro sem saber o que estava acontecendo. Destruiu os dois carros.

Não tardou muito, chegou a polícia. Perguntou quem era o motorista, Celso se identificou. Ele chamou Celso num canto e o outro policial veio nos entrevistar. Perguntou se ele tinha bebido, eu disse que não tinha visto. Perguntou o mesmo a Rosel e Rosel disse o mesmo. Perguntou se nós tínhamos bebido, eu disse que sim e Rosel também, mas que isso não tinha relevância porque estavamos de carona. Ele disse não importa, andem aí nessa linha. A linha branca que tinha no meio da estrada.

Eu andei bem certinho, mas quando foi a vez de Rosel andar, parecia Charles Chaplin, desequilibrado, quase caindo. Eu caí na gargalhada, o que irritou profundamente o policial. Ele disse, “Tá vendo ali aquele sinal? Vocês dois vão embora, peguem o metrô e vão pras suas casas. O amigo de vocês vai ficar aqui, ele vai com o carro do guincho”. E assim fizemos. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Novembro de 2006. 

Bio Parte 18 - A primeira mudança

Pra completar, nos dias que tinha pouco trabalho, eu não era escalado e ficava em casa. Ligava pra Rosel, o bom baiano de Anajé e íamos bater papo e circular pela cidade, batendo fotos e tomando uma cerveja aqui e outra acolá. Numa dessas, ele perguntou como estava na fábrica. Ele tinha trauma da fábrica, pois o local não tem aquecimento e nem ar-condicionado e numa dessas coisas da vida, Rosel um sujeito “delgado”, como os hispanos o chamavam, pegou uma pneumonia e quase que ia dessa pra melhor.

Eu disse que a fábrica era uma merda e pior ainda era o salário. Ele disse então que iria falar com seu patrão, um outro peruano, chamado Luiz Moralez. Este senhor, o Moralez, era um ex-policial fugido por problemas com outros policiais corruptos, segundo ele. Pediu refúgio no Canadá, colocou uma empresa terceirada de serviços e Rosel arranjou emprego com ele. Ele pegava os contratos dele com um grego chamado George. Luiz andava numa Hilux cabine única, toda fudida e em umas vans mais fudidas ainda. O grego andava num Porshe e só andava de jaqueta de couro. Luiz então prometeu a Rosel que iria ver o que arranjava pra mim.

Nesse meio tempo, eu gastava meus dias indo pra fábrica das 8 às 4 da tarde e quando chegava, ainda ia juntar papelada pra dar entrada no processo de aplicação do mestrado. Traduções, certificações, cartas de recomendação, e todo o lereado. Foi um tempo pauleira. E pegue cerveja. Não estava juntando quase nada. Gastando quase todo nesse processo e nas bebedeiras. Ia morto pra fábrica no dia seguinte.

Foi então que quase simultaneamente, dois fatos mudaram o curso do meu caminho. Rosel ligou pra casa de Celso e deixou uma mensagem na secretária eletrônica dizendo que um cara que trabalhava pra Luiz no prédio do Ministério do Trabalho do Quebec estava saindo de férias, se eu queria substituí-lo e conforme fosse, Luiz me daria um sub-contrato ou coisa assim. Fiquei de dar a resposta à noite. Mas no meio do expediente da fábrica, eu vinha distraído pra pegar uma pilha de livros em uma mesa, quando um hispano grita e me empurra. Ato contínuo, a guilhotina que era uma máquina desce. Não sei direito o que eu ia perder, provavelmente os dedos todos ou as maos.

Fiquei em estado de choque o resto do dia. Nesse dia, o árabe filho da puta veio me pagar, rindo. Eu pensei esse viado tá rindo de que? Liguei pra Rosel e deixei uma mensagem na secretária eletrônica dele. Nunca mais coloquei os pés na fábrica. O ultimo pagamento o árabe entregou pra Celso, que me passou depois. Nesse mesmo dia, puto da vida, fui pra casa de metrô pois Celso havia saído mais cedo. Chegando lá, já estava um frio grande, e eu estava com muita fome. Vi a luz do quarto acesa. Toquei na campainha e nada de Celso abrir. Depois de uns 15 minutos, ele sai dizendo que eu esperasse no metrô pois ele estava com uma jovem lá dentro e que depois ele me chamava lá. Esperei mais ou menos uma hora e decidi ali, vou me mudar.

No dia seguinte já não fui pra fábrica confiando que ia dar certo com Luiz Morales. Fui ate o prédio de Rosel, no Boulevard Decarie, 3433, perto da Sherbrook. Lá encontrei com André Boulais, o proprietário e ele me disse que o apartamento 01 estava vagando. Fechei o contrato com ele ali mesmo. O aluguel, lembro até hoje, era 365 dólares mensais, com energia e água inclusos. Eu pagaria por fora somente telefone e lavanderia, essa com 4 moedas de 25 centavos, no basement do prédio. A internet era gratuita com uma empresa terrível chamada Net Zero, que fornecia internet gratuita mas que a todo momento ficavam aparecendo telas de anúncios. Dentro do apartamento já tinha uma TV de 14 polegadas, cama, sofá, cadeiras e material de cozinha completo. Ah, e uma varanda que dava pra Decarie. O código de entrada do apartamento era #1945, ano de nascimento de André. Celso me ajudou a levar as coisas e ali tinha meu primeiro lar. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Outubro de 2006. 

Bio Parte 17 - O retorno

Então ele me deixou na casa dele e rumou pra fábrica. Fiquei ali o dia inteiro tentando dormir e sem conseguir direito. Era muita coisa que tinha pra organizar até começar a relaxar meus ossos. Fui dar uma volta nas ruas do bairro naquela tarde de setembro. Ficava pensando no meu pai que não quis ir no aeroporto. Um sentimento de culpa de deixar pra trás aquele que nunca havia me deixado. Mas era meu destino, eu tinha que aceitar.

Fui pra estação Rosemont, peguei um metrô e circulei sem ter pra onde ir. Na volta, desci na estação Beaubien. Andei de volta, já era perto das 17 horas. Celso chegou ao mesmo tempo que eu. E veio com uma novidade. Era feriado do dia do trabalho e ele disse que iriamos viajar com o time de futebol americano de Montréal, os Alouettes. Ele havia ganho um sorteio no restaurante La Cage Aux Sports, que dava direito à irmos para um jogo dos Alouettes contra os Tiger Cats, de Hamilton, na província de Ontário. Iriamos no mesmo trem que o time. E lá fomos nós no dia seguinte.

Rumamos pra La Gare Centrale de Montréal muito cedo. Deixamos o carro lá e já fomos tomando um vinho. Depois passamos pra cerveja e quando chegamos em Hamilton, sete horas depois, ninguém sabia mais nem onde era o céu e o chão. A música alta nos intervalos, tocando rock, e a Budweiser rolando solta no estádio, me fez pensar que seria vida mansa o tempo todo. Fui com a camisa da seleção brasileira e quando o jogador principal dos Alouettes estava sendo entrevistado pela TV após a vitória sobre o Tiger Cats, eu apareci no campo visual dele e ele me chamou!! Acabei aparecendo também! Voltamos com o time, já relaxados, vieram de um em um agradecer a cada passageiro pela torcida e por terem perdido tempo de ir até lá. Isso é o Canadá. Chegamos tarde da noite, rumamos pra casa, afinal, no outro dia, começaria o trabalho na famigerada fábrica.

Acordamos cedo para preparar o almoço pra levar pra fábrica. O sistema era bruto. A fabrica se chamava Edicible, de uns judeus e não era verdadeiramente uma fábrica. Era uma enorme gráfica, do tamanho de um quarteirão. Basicamente, eles imprimiam livros, revistas, panfletos e qualquer coisa que se colocasse em papel. E lá mesmo cortavam, e montavam os livros e tudo o mais. Muitas máquinas impressoras, muitas guilhotinas e muita separação.

Cheguei um pouco antes das oito horas da manhã e Celso me levou pra falar com um árabe. Vejam só, o dono da fábrica era judeu e quem arrumava a força laboral era um árabe, que tinha uma agência de emprego. Um exemplo como o dinheiro une esses povos tão raivosos uns dos outros. Ele me disse que meu salário seria 5 dólares por hora, mas que seria descontado a hora do almoço, assim, minha diária seria de 37.50 dólares, das 8 da manhã até as 4 da tarde. Fiz minhas contas, daria 750 dólares por mês. Não era muito, mas naquela época, dava pra se virar em Montréal com o básico.

Comecei o trabalho separando panfletos em montes e colocando uma liga. Depois fui montar umas caixas. Depois carregar uns livros. Fiz coisa pra cacete e quando olhei no relógio da fábrica, ainda era 8:45. O relógio parecia estar em slow motion. Finalmente deu 4 horas e Celso me disse que iria ter que ficar de plantão. Pediu a um grupo pra me deixar no metrô e fui pra casa. Não sabia se ria ou se chorava. Quando peguei no sono, chega Celso e Lúcio, aquele peruano, com uma caixa de cerveja. Puta que pariu, pensei, o rojão aqui é pesado. Logo chegam dois caras novos do trabalho e começam a tocar na guitarra de Celso e cantar, basicamente Red Hot Chili Peppers. E fui trabalhar morto no outro dia.

Basicamente, isso se repeteria pelas próximas três semanas. Quando chegava o sábado e o domingo, sempre íamos pra casa de um brasileiro ou recebíamos brasileiros na casa de Celso, e pegue mais cerveja. Pouco dormia ou descansava. Emagreci horrores, com pena de gastar dinheiro com comida.
 
Fabiano Holanda, Brampton, Outubro de 2006. 

Bio Parte 16 - Pequena pausa

Casa de Celso, onde ele me deixou pra ir pra fábrica.
Se dependesse de mim, teria ficado direto naquele maravilhoso lugar. Vi o inverno pela primeira vez mostrar suas garras poderosas, mas vi também pela primeira vez a primavera. Ultimas semanas de março em Montréal era como uma respirada na superficie após passar cinco minutos sem respirar debaixo d'água. O sorriso nos rostos das pessoas, a felicidade no ar, gelo derretendo, parece que Montréal acorda quando chega março. A hibernação e os rostos fechados do inverno dão lugar à um clima maravilhoso, seis semanas depois da marmota mostrar sua cara.

Ter as estações do ano bem definidas dá a impressão de vivermos em 4 lugares diferentes sem sair do canto. Mas eu tinha que voltar ao Brasil, terminar umas disciplinas que eu vinha fazendo por e-mail, graças à boa vontade de alguns professores progressistas e por fim, tinha que concluir minha monografia e apresentar, para poder pegar meu diploma e voltar correndo pra Montréal pra poder aplicar pro mestrado. Tudo tinha que ser muito sincronizado. E foi. Mais ou menos.

Cheguei ao Brasil no aeroporto de Guarulhos e após essa temporada em Montréal, eu tive vontade de voltar do aeroporto mesmo. Só não o fiz pois precisava desse diploma. O calor insuportável, a má educação das pessoas, a má vontade dos atendentes das companhias aéreas, aquilo foi me dando um desespero, parecia um pesadelo. Naquele ponto, eu confirmei porque o Brasil é assim e o Canadá é do jeito dele. O povo e o calor. Essa foi a resposta daquele momento.

Retornei à UFRN, naquela época no setor 1, um calor infernal, mas um calor infernal mesmo. A comparação com a Universidade de Montréal não podia ser evitada. O uso de internet na Universidade em Montréal era franco e abundante. Na UFRN era restrito. Muito restrito. Minha sorte é que eu era bolsista do CNPQ da base de Miguel Anez e tinha um computador na nossa sala, mas o aluno normal, penava.

Eu estudava de manhã e de noite e saía de casa pra beber quase todo dia, querendo me despedir daquilo que foi a minha vida inteira. Fui muito ajudado por alguns professores, gravemente sacaneado por outros safados que se diziam apoiadores do nosso projeto, mas no fim, entre mortos e feridos, deu tudo certo, como sempre dá.

Tudo certo, monografia apresentada, diploma carimbado, inscrição no CRA feita, era hora de voltar ao Canadá. No dia 5 de setembro de 2000, olhei pro meu quarto pela última vez, naquela casa da avenida Brigadeiro Gomes Ribeiro, 1462, onde morei desde os 3 anos de idade até naquele momento com 24 anos e sabia que não iria mais voltar ali. Mesmo não tendo planos de ficar no Canadá, eu não pretendia mais morar naquela casa. Queria ganhar o mundo. Fazer um doutorado em outro lugar, quem sabe.

Meu pai, um homem que pouco expressava seus sentimentos, sabia disso. Meu amigo Flávio Teco foi me deixar no aeroporto, pois papai se recusou a ir. Acho que para ele ia ser demais me ver indo. Ele estava deitado na rede, fingindo dormir. Eu fui lá e falei: “Pai, estou indo”. Ele apenas acenou com a mão, disse “boa viagem, filho”, e se virou, cobrindo o rosto com o lençol.

E assim eu fui, respeitei aquele momento dele, e saí com o nó na garganta. Goose bumps, como se diz no Canadá. Dessa vez fui só. Zumel já estava lá. Combinei com Celso, ele foi me pegar no aeroporto, num Honda Civic coupé que ele tinha, preto. E já foi dizendo: “Já quer ir trabalhar na fábrica, paraíba? Vamos direto! Tá disposto?”. Eu disse que não queria, que tava morto, precisava descansar. Precisava na verdade colocar a cabeça em sintonia com aquilo tudo lá. Respirar um pouco. Eu sempre preciso de uns momentos pra alinhar os pneus e afinar o motor.
 
Fabiano Holanda, Brampton, Setembro de 2006. 

Bio Parte 15 - Domingo de sol

Um episódio dessas duas semanas finais marcou muito a minha trajetória em Montréal. Era um domingo e tínhamos planejado de ir conhecer o Les Bobards, um bar que tinha música brasileira tocando aos domingos, quase sempre com o brasileiro Paulinho Ramos na voz e violão. Ficava situado na famosa avenida St-Laurent.

Antes de irmos, Natan nos intimou a participar de uma festa baiana que eles consideram e prestigiam muito, o chamado Caruru. Natan estaria dando esse caruru pra agradecer a alguma graça obtida, não sei do que se tratava, mas disse que não poderíamos faltar e como tínhamos um senso de gratidão com ele, fomos nessa missão, apesar de eu saber que iria ficar o dia inteiro com fome.

Como Natan tinha medo de Júlia, pediu a casa de um amigo emprestada para realizar tal evento. O dono da casa era um sujeito chamado Pedro, que tinha um apartamento ali no Platêau Mount-Royal, mas que não iria estar em casa, por motivos de trabalho.

Chegando na festa, eu e Zumel percebemos logo que o ambiente não era hetero. Uma viadagem enorme e chega logo uma bicha descarada e gasguita chamada Billy. Esse Billy era brasileiro mas parece que ra filho de estrangeiro. Eu ficava sério olhando pros gestos tresloucados e gritinhos do tal Billy, mas Zumel ficava olhando pra cara do sujeito e gargalhando. Outra daquelas manias dele sem noção.

Porém, como tudo na vida é um quebra-cabeças que vai se encaixando, mais tarde, já pro fim da tarde, chega na festa um carioca e um peruano. Eles carregavam duas caixas de 24 cervejas Budweiser e eu pensei, taí dois caras gente boa.

Não tinham aparência de viados, e começamos a conversar. Ficamos eu, Zumel, e eles dois numa mesa, já cada um com uma Budweiser na mão. O carioca era Celso Mirres e o peruano era Lúcio. Celso perguntou: “Nada contra, mas vocês dois são viados?”. Eu respondi: “Viado é o caralho, porra!”. Foi um alívio fantástico por parte de nós quatro.

Então avisamos que íamos ao Les Bobards e Lúcio nos ofereceu carona, numa Van. Chegamos lá, praticamente só brasileiros na festa e era incrível, pois nauela época não existiam muitos brasileiros por lá. Tomamos todas, jogamos sinuca, foi uma farra ao tipo que eu fazia em Natal. Nessaa noite, através do viado Billy, que foi pra lá a pé, Zumel conheceu Danielle, que seria sua mulher por uns tempos e que depois se mudou pra Natal e virou corretora de imóveis por lá.

O engraçado foi o motivo que ela deu pra deixar o Canadá e ir morar no Brasil. Certa vez ela foi visitar Natal e lá, a manicure foi fazer a unha dela na residência onde ela estava. Ela achou aquilo tão incrível, que resolveu se mudar pra Natal, para que tivesse esse e outros pequenos luxos que não existiam no Canadá.

Na semana seguinte, fui tomar uma cerveja com Celso na casa dele e toquei a introdução de “La Bamba” em uma guitarra que ele tinha em casa. Ele gostou tanto que pediu para que eu repetisse umas 10 vezes. Lúcio novamente apareceu por lá e ficamos tomando várias.

E nesse interim, Celso me convidou a passar um tempo na sua casa até que me organizasse quando voltasse à Montreal em Setembro. E ainda me garantiu um emprego na “fábrica”. Mas se eu tivesse me recusado à ir na festa do Natan, nada disso teria acontecido e minha volta teria sido bem mais difícil. Incrível como tudo tem um propósito. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Setembro de 2006. 

Bio Parte 14 - Vivenciando o lugar

A escola de francês da Université de Montréal era muito legal. Tínhamos aula o dia inteiro por 3 meses. Zumel ficou um nível acima do meu. Eu concluí os níveis 1 e 2 em três meses e fiz grande amizades, principalmente com os latino americanos, como não poderia deixar de ser. Idiomas parecidos servem como válvulas de fuga do silêncio total. Se quer dar fim a um tagarela, basta colocar o mesmo no Cazaquistão. Em três dias ele se mata.

Teve um dia que fomos sair com a galera do francês ainda no começo do curso, pra nos conhecermos melhor, sugestão da professora, para podermos praticar o pouco que sabíamos. A tarefa era usar o francês, mas foi uma salada de idiomas, até árabe.

O encontro foi em uma pizzaria na Côte-des-neiges chamada Pizzadelic. Bem, fomos Dona Flor, eu e Zumel. Dona Flor era o apelido de uma nota de 20 dólares que estávamos dividindo. Pedimos duas doses de vodka, uma seven up e duas fatias de pizza, uma pra cada um. Com as taxas, a conta deu 19 dólares e pouco. Quando recebi o troco ficamos boquiabertos. Resolvemos que o lugar de liso era em casa e assim foi o resto do curso, praticamente. E o garçom, chateado, esperando a gorjeta, que por lá é Pourboire.

O mexicano Manuel Ávila e o colombiano César Gomez foram os que ficaram mais próximos, ambos do mesmo nível que eu. Pessoas muito boas. Nas últimas duas semanas, eu recebi uma grana extra do meu velho e pude sair mais de casa. No começo eu só ficava em casa, comendo e vendo televisão com os padres. Usando a Internet quando não tinha ninguém em casa e resolvendo exercícios dos livros do curso de francês. Fazia, apagava e fazia de novo. Fiz mais de 20 vezes cada. Quer que um cara tenha disciplina nos estudos e fique fera? Deixe ele trancado, liso, dentro de um quarto, sem nenhum eletrônico. Quando ele cansar de dormir e de fazer o que se faz sozinho, ele não vai ter outra alternativa senão estudar, até mesmo para passar a praga do tempo.

Manuel era um cara supertranquilo, gostava de fumar uma maconha e ficava o tempo todo rindo. Fotografo talentoso, era casado com uma canadense de Vancouver e já moravam em um apartamento deles. Fui lá tomar várias Molson Dry e praticar inglês com o casal. Escutavamos muita música e ele me contava histórias de Carlos Santana. Sua esposa era uma simpatia também, bebia cerveja com a gente e fazia tira-gostos.

Na casa de Manuel, em Verdun, tomei meu primeiro grande porre em Montreal. Saí de lá perto da hora do metrô fechar e não sei até hoje como consegui fazer a baldeação da linha verde pra linha azul e sair da estação e chegar na casa dos padres. Acordei no outro dia depois do almoço, sem saber onde estava. Longe da minha casa eu já estava, mas perdido sem me situar na casa dos outros, foi uma sensação estranha demais. Como se fosse o perdido dos perdidos. Dois níveis de perdição.

Cesar tambem um cara fantastico, colombiano com cidadania americana, falava inglês fluente e trabalhava com computadores. Tinha um amigo com quem dividia o apartamento chamado Alex. Fui na casa dele tomar uma grande, depois fomos pro Winston Churchill, na Crescent e voltamos pra terminar a cana por lá. Foi o segundo porre. Acordei lá também sem nem saber onde estava. Ressaca braba, tomando Canadian Whiskey. Os dois sabiam que o dólar americano valia mais do que o real e eles tinham bastante, fui convidado da noite.

No dia seguinte, no café da manhã por lá e Alex estava colocando ovo no prato. Cesar disse: |Enough! Eu entendi que significava chega. Pedi pra ele escrever a palavra num papel. É assim que se aprende.
 
Fabiano Holanda, Brampton, Agosto de 2006. 

Bio Parte 13 - Achando lugar

Já íamos nos despedindo, agradecendo ao Claude pela grande força, e também pela gratuidade do esforço, eis que num momento cinematográfico, Zumel se vira pra ele e diz:
  • E os nossos 100 que já pagamos, ele vai nos devolver né?”
Rapaz, o Claude nem respondeu, fechou a porta e deu um bom dia. Ligamos pra Natan e o intimamos de ir também, pra fazer número, uma vez que o filipino andava com mais 4, seriam 5 contra 3. Natan concordou, mas foi se tremendo todo. Eu combinei com Zumel, se der merda, a gente joga alguma coisa em cima desses putos e corre o máximo que puder até a casa de Natan.

Natan berrou logo, “Lá em casa não, lá em casa não, vão pro Metrô, se Júlia ficar sabendo, ela me mataaaaaaa…”. Canalha.

Mas uma vez chegando lá, o filipino tomou a chave das minhas mãos, e já foi mostrar pra outro inquilino. Nem falou nada. Ou seja, era tudo jogo de cena. O tal do se colar, colou. Bandidão.

Aparecida foi de grande valia, assim como Natan e Ieda nesse nosso começo em Montréal. Foi através de Aparecida que conhecemos o Padre Pierre Labine. Ele também era aluno de português de Aparecida. E por coincidência, era o padre do Oratório St-Joseph, aquele que tinha me maravilhado na chegada em Montréal.

O padre Pierre tinha uma casa em que alugava quartos por 300 dólares por mês, incluindo ai alimentação de boa qualidade. Pela maior parte dos 3 meses que ficamos por lá, só moravam eu, Zumel, o padre Pierre e o irmão Michel. E em quartos individuais. No final, foi que chegou uns africanos, mas aí já dominávamos o ambiente.

Isso foi uma bênção em todos os sentidos. O padre nos ajudou e muito. Inclusive nos levou pra passear em Ottawa e Cornwall e nos hospedamos numa fazenda da Igreja num feriado prolongado. Ali eu conheci de maneira direta o inverno canadense.

Saindo da casa, um frio seco e cortante, neve pra todos os lados, afinal lá não se passava o Snow Plower. Dentro da casa, uma lareira queimando a madeira da região, gerando um cheiro característico que onde eu estiver, eu ainda lembrarei daquele cheiro, mesmo com 100 anos de idade.

Abrimos um bom vinho, sentamos próximo a janela de vidro grande, apreciando a paisagem branca, aquecidos pela lareira natural. Se tivesse uma paz maior do que aquela, eu nunca tinha vivido. Parecia que ali as almas descansavam de verdade. Além de tudo isso, teve a experiencia de viajar pela primeira vez em rodovias cobertas de neve. Também uma outra experiencia fantástica. O padre gostava somente de música clássica. Deslizávamos na branca areia, ao som de Vivaldi, Bethoven, Mozart, Bach.

O padre Pierre também nos dava carona pra Université de Montréal todas as manhãs, ali na Avenida Decelles, uma vez que ele ia pro Oratório de toda forma. A casa onde morávamos era situada ali naquele região entre as estacões de metrô De Castelnau e Jean-Talon. Era na rua Faillon, esquina com a St-Denis. A noite tinha um carteado, eu e Zuma contra padre Pierre e Irmão Michel. No meio de uma tossida, Zuma dizia passa um 8 de copas. Os adversários iam à loucura, as vezes abandonavam o jogo. Não entendiam, mas achavam que estávamos combinando. E estávamos. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Agosto de 2006. 

Bio Parte 12 - Encrenca

Foi então que, perto da casa de Natan (esse era o apelido dele), apareceu um apartamento vago, 4 et demi, como se diz em Montréal, e lá fomos ver. O dono era um mafioso filipino, que só andava com uns 4 seguranças. Depois de vermos o apartamento, e constatarmos que o bicho era todo fudido, resolvemos alugar aquela joça. Demos 100 dólares de depósito e Natan foi o fiador do aluguel. Resolvemos aceitar por pura falta de opção. A japonesa iria voltar pro apartamento da Décarie e não tínhamos como pagar hotel. Mas...

Saindo de lá, compramos uma cerveja e fomos beber na casa de Natan. Não sei porque, me deu um negócio, uns arrepios premonitórios e resolvi não ir mais pra aquele lugar. Estava com um mal presságio. Como sempre confiei nos meus instintos (ou quando não confiei me dei mal), me levantei do sofá e disse em alto e bom som, de supetão: “Não vou morar ali naquele apartamento”.

O que? Como?”, foram os gritos de Zuma e Natan. “Não pode!”, berrou Natan. “Eu fui o fiador, ele vai vir atrás de mim, vai ficar ligando, oh meu Deus, porque você fez isso comigo?”. Como se tivesse em transe, confirmei, naquela merda daquele apartamento eu não entraria nem a pau.

Eu estar falando aquilo era uma coisa tão surpreendente pra mim quanto era para os dois. Não sei de onde, não sei porque, mas eu estava decidido a não descansar meus ossos naquele ambiente.

Liguei logo pro velho Jajá a cobrar via Embratel e expliquei o meu problema. Ele sem entender nada, disse que eu fizesse o que era melhor. E ficou uns dólares mais leve somente com essa frase. Zumel só fazia rir do desespero do baiano, nem ligava pro resultado da história, acanalhado que sempre foi.

Então o baiano Natan, em meio a pinotes histéricos, ligou pra uma professora de português da UQAM chamada Aparecida, uma mineira que morava em Montréal desde a sua fundação.

Ele queria conselhos. Isso era Natan ao telefone, ipsis letteris:

- “Sim mulher… Eles assinaram, mulher... Foi... E eu fui o fiador... Sim... Era um quatre et demi… Muito bonzinho… Foi... Aí o menorzinho (nota: ele estava se referindo a mim) implicou que não quer ir mais, mulher... Não sei porque ele assinou... Mas agora não quer ir mais... Ai meu Deussssss! Júlia vai me matar quando ficar sabendo disso…”

Nota do autor: não confundir essa Júlia do parágrafo acima, que é estudante de mestrado com a Júlia da outra página, que era promotora de eventos. São duas pessoas distintas.

Mas voltando ao papo de Natan ao telefone. Cara, pensei em mandar aquele bicho se lascar. Mas ao mesmo tempo, ele era o nosso único contato com a realidade. Aparecida então lembrou que tinha um aluno dela do curso de português que era defensor público e disse que fossemos lá ter com o indivíduo na manhã seguinte que ele iria nos ajudar. Em menos de uma semana no Canadá já estávamos com problemas jurídicos.

O nome do defensor público era Claude e no dia seguinte ele nos recebeu. Contamos tudo a ele e ele pediu o telefone do sujeito. Ligou e foi uma discussão braba, até que o Claude o ameaçou, dizendo saber de coisas dele e mandou deixar a gente livre dessa. Então o filipino marcou um encontro para que nós pudéssemos devolver as chaves do imóvel. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Julho de 2006. 

Bio Parte 11 - Desespero

Chegamos de volta ao hotel e arrumando minha mala, encontrei um papel que eu havia imprimido com os telefones de alguns brasileiros que moravam em Montréal, que encontrei numa busca simples no pré-histórico site “cade.com.br”, colocando as palavras chaves: “brasileiros em Montreal”.

Lá tinha os números de telefone de cinco pessoas. Como também deleguei a tarefa de ligar para essa lista para Zumel, o canalha ainda conseguiu fazer uma merda. Tinha o telefone de uma senhora chamada Júlia, e dizia ao lado que ela era promotora de eventos e o telefone de outra senhora chamada Gilda, que dizia que ela era jornalista. Zumel pegou o telefone de Júlia, pensando ser o de Gilda. E ligou e perguntou por Gilda, em português mesmo. Júlia disse que o nome dela era Júlia e não Gilda. Ai Zumel atacou com uma de suas manias imbecis:

Júlia? Ah, eu pensei que fosse Gilda. Bem Júlia, tem nada não, serve tu mesmo. Como só tem tu, serve tu mesmo, hehehe…”. Aí ato continuo, dá uma paradinha, coloca a mão tapando o telefone, olha pra mim e dá uma risadinha de rapariga. Como eu não ri, ele retornou ao papo. “O negócio é o seguinte. Somos estudantes, lisos, estamos em um hotel e o dinheiro já tá acabando. Será que tu não conhece nenhuma residência estudantil onde a gente possa se hospedar por três meses?”

Já fuzilou a mulher com esse problemão, logo no primeiro dia do ano de 2000. Ela, muito educada, disse que conhecia um cara de Salvador que poderia nos ajudar, mas que naqueles primeiros dias do ano, nada funcionava em Montréal. Puta merda, nem nisso havíamos pensado. Só pensamos em pegar o voo mais barato do bug do milênio e mais nada.

Mas o nome do cara que Júlia conhecia era Maurício e estava buscando um mestrado em Direito Ambiental, na universidade McGill. Ela nos deu o telefone desse sujeito. Zumel ligou e quem atendeu foi um cara chamado Natanael Bonfim, professor da Universidade Estadual da Bahia, que estava cursando um doutorado na universidade UQAM.

Só sei que quando Zumel desligou, foi logo dizendo que havíamos sido convidados pra jantar na casa desse Natanael. Ora, de graça eu iria até na de Papai Noel, quem dirá Natanael. As coisas pareciam estar clareando. Natanael era roommate de Maurício, e ainda tinha uma moça que por lá habitava, também baiana, chamada Júlia, estudante de algum mestrado ai desses da vida.

Ficamos conhecendo o figura e este logo ligou pra outra baiana chamada Ieda Muniz, para que esta pudesse nos dar uma luz. Ieda morava no prédio de propriedade de um senhor quebecois chamado André Boulais, situado no Boulevard Décarie, em NDG, quase na esquina com a Sherbrooke. Para nossa sorte, tinha uma japonesa que morava vizinho ao apartamento de Ieda, que iria viajar por 10 dias e estava disposta a nos alugar o apartamento dela por esse período pelo valor de 120 dólares.

Ora, o preço dos dez dias era o mesmo preço de UM dia do hotel. Foi ela fechar a boca e já estávamos lá com toda nossa parafernália. Foi bom pois dessa forma teríamos tempo pra procurar outro apartamento, pois todos os apartamentos de André Boulais estavam ocupados. Foi uma felicidade adentrar naquele ambiente, sabendo que estávamos pagando 12 dólares por dia, 6 pra cada um.

Seguindo indicação de Ieda, fomos logo a um depanneur que tinha lá perto, de uma chinesa, e fizemos umas comprinhas básicas pra sobrevivência. Evidentemente, deixando claro o que era meu e o que era de Zumel, pois o homem comia até pedra e a comida que o próprio escolhia nem cachorro chegava perto. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Julho de 2006. 

Friday, 13 November 2020

O preço do progresso

 

 

        Tanto se fala em progresso, em avanço tecnológico, em aumento da qualidade de vida, nisso e naquilo. Mas será mesmo que qualidade de vida está associada de verdade com progresso ou avanços tecnológicos? Há sempre alguns puristas que dizem que não.

 

É bem verdade que muita gente hoje em dia não sobreviveria sem um computador, sem uma internet, telefone, carro, água gelada e outras coisas mais. Mas será que somando aqui e subtraindo ali, no fim das contas, vivemos melhor ou pior do que os nossos avós?

 

Vejam o caso da pequena Beeton, situada na província de Ontário, no Canadá. Nessa cidadezinha, onde a atividade principal é a produção de mel (por isso o nome Bee Town, onde o “w” foi esquecido paulatinamente pela população), só existe um posto de gasolina. 

 

O dono desse posto, o senhor Doug, além de colocar gasolina nos carros, ainda troca óleo, freio e faz pequenos serviços há 13 anos, sendo ele um franqueado da empresa de petróleo canadense, a Petro-Canada.

 

Bem, o fato foi que a Petro-Canada vendeu a concessão do posto do Doug a uma outra empresa, que pretende abrir um novo posto de gasolina, desses modernos com loja de conveniência, lanchonete e bombas de gasolina self-service (como existem nas grandes cidades canadenses).

 

O curioso foi que 1,400 pessoas, dentro de uma cidade com 3,800 habitantes, colocaram seus nomes em um abaixo assinado propondo um boicote ao novo posto de gasolina, em solidariedade ao amigo Doug. Prometendo inclusive abastecerem seus carros na cidade mais próxima.

 

A população está injuriada e com razão. Doug saía a qualquer hora do dia ou da noite pra ajudar uma cidadã beetoniense que por acaso tivesse o pneu furado no meio da highway ou para salvar um outro honrado cidadão com seu carro quebrado à quilômetros de distancia. Na maioria das vezes, Doug ia até lá, rebocava o carro se preciso fosse, dava carona ao sujeito até sua casa, e no outro dia de manha cedinho, o carro já estava consertado. Sem dinheiro? Sem problemas, pague quando puder, dizia o Doug.

 

Dito isso, vale lembrar que Beeton tem também um hotel, chamado Muddy Water. Esse hotel um dia já foi um bordel. Quando anunciaram que o bordel iria acabar, os homens da cidades quase morreram.

 

Ficaram tristes, mas sobreviveram. Assim como, eles também irão sobreviver com o fim do posto do Doug e logo, logo irão esquecer e começar a abastecer no novo posto. Os cidadãos irão sobreviver, mas como no caso do bordel, Beeton nunca mais será a mesma.   

 

Evidentemente, a chegada do novo posto trará junto com ele a tão famosa modernidade e junto com a modernidade virão o aumento da população, a chegada de gente de fora com outros costumes, o aumento da criminalidade, portas começaram a passar noite trancadas, a inocência será perdida, brigas por vagas de empregos começarão, invejas, ganâncias, sacanagens, enfim, tudo o que se pode encontrar numa grande e moderna cidade.

 

A confiança nos outros se evaporará e precisarão de contratos para assegurar acordos, que por sua vez demandam advogados e quando estes começam a trabalhar, começam os litígios e... e...

 

Por fim, não sei se é a idade, mas cada vez me torno mais purista. E nem de longe eu penso que vivemos melhor do que nossos avós. Eles tinham qualidade de vida antes de começaram essa busca incessante por ela.

 

Como acontece na maioria das vezes, a humanidade fez tudo errado e estragou o que era bom. E felizes são os índios que nunca encontraram um sábio homem branco em seu caminho.

 

Fabiano H. Cavalcante, Brampton, Junho de 2006.



Bio Parte 10 - O topo da América

Chegamos em Newark completamente embriagados. Eu estava de fato tonto. Como não tínhamos o visto americano, um guarda veio nos buscar dentro da aeronave pra que ficássemos presos numa salinha, esperando até a hora da conexão sair pra Montreal. Naquela época esse procedimento era permitido. E o guarda chegou e a gente só fazia rir. O cara ficou puto e foi nos levando sem dar uma palavra. Ficamos nessa sala por pouco tempo e depois mandaram uma jovem senhora nos levar pro avião.

Zumel ainda embriagado, começou a fazer comentários jocosos com relação a menina. Bêbado, ele nem percebia o tamanho das besteiras que dizía. Ela andava na nossa frente e de vez em quando olhava pra trás e sorria. E isso continuou enquanto atravessávamos o gigantesco aeroporto de Newark. Quando chegou no portão de embarque, ela nos entregou ao oficial da companhia e ao se despedir, disse, em bom português de Portugal: “Muito prazer, meu nome é Teresa. Tenham uma boa viagem”. Foi o primeiro mico continental que passamos. Muitos outros ainda viriam.

Fizemos um vôo tranquilo e chegamos em Montréal na hora marcada. Depois de passarmos pela alfândega e imigração, paramos no saguão do aeroporto, perto da saída. A porta se abriu e entrou aquele vento frio do rigoroso inverno canadense. Foi quando demos conta da merda em que estávamos metidos. Não tínhamos pra onde ir. Nem a menor ideia. Foi quando me lembrei que tinha anotado o telefone do professor Allan Jolly, amigo de Miguel Anez, aquele que havia feito seu curso de doutorado na Fundação Getulio Vargas e que falava um pouco de português.

Dei a tarefa pra Zumel ligar pra ele, na ilusão de que Jolly iria nos pegar no aeroporto e nos levar pra sua casa. No chance. Ele disse estar longe pois era noite de reveillon e que não iria poder nos ajudar naquele momento e recomendou um hotel barato, situado na rua Côte-des-neiges, chamado Hotel Terrace Royale. Saímos do aeroporto e deleguei a Zumel também a tarefa de falar com o taxista e dar o endereço do tal hotel. O mesmo nos levou pra lá, debaixo de uma nevasca impressionante.

A primeira imagem que tive de Montréal e que fica na minha memória até hoje foi a imponência do oratório St-Joseph. Ele estava todo iluminado naquela hora. Que coisa linda. Chegamos no hotel e também com uma fome monstruosa, repetimos a experiencia da pizza delivery. Montreal funcionava do mesmo jeito de São Paulo e somente as pizzarias próximas faziam as entregas. O problema era que não sabíamos onde estávamos, quem dirá saber se a pizzaria estava perto ou não. Pelo menos foi o que o fresco do Zumel me disse, pois como eu não falava porra nenhuma, confiava no “porra nenhuma dele mais 0,5”. Dormimos com fome novamente.

Ah, esqueci de dizer. A diária do hotel “barato” de Allan Jolly custava 120 dólares canadenses. Ao descobrir isso, o plano era ficar um, no máximo dois dias por ali. Vimos a entrada do ano 2000 pela televisão e algumas pessoas festejando na rua pela janela do hotel. Zumel dormiu primeiro e eu fiquei sentado, olhando a janela em silencio. Era a passagem de ano mais solitaria da minha vida. Mas ao mesmo tempo estava maravilhado e aliviado pois tínhamos chegado em algum lugar, porém com o cu na mão pois sabia que tínhamos que nos mudar dali. E rápido.

Acordei logo cedo, com o estômago colado na coluna vertebral e saímos em busca de comida. Paramos logo num Nickel’s, que tinha na esquina e morremos de cara em 30 dólares. Pensei: estamos fudidos! Desse jeito, o numerário que tenho vai acabar em poucos dias e a ultima coisa que quero, é ter que pedir dinheiro emprestado a esse galado desse Zumel. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Maio de 2006. 

Bio Parte 9 - O bug do milênio

Era só o que me faltava, eu virar patrocinador de sexo por telefone. Liso e pagão de munheca via Embratel. Logo eu, que vendia o almoço pra poder jantar. Ele que pagasse com o dinheiro do Engesa dele, foi o que pensei.

Quando chegamos no aeroporto de Guarulhos, fomos direto fazer o check-in. Tudo era novo. Éramos totalmente ingênuos quanto a tudo o que surgia à nossa frente e com aquele sentimento de que qualquer coisa poderia atrapalhar nossos audaciosos planos.

Foi aí que surgiu uma funcionária da Continental Airlines. Ela fez mais perguntas do que o oficial canadense que nos recebeu na fronteira, horas mais tarde. Ela queria saber de tudo. Depois de fazer todas as perguntas de praxe, ela então perguntou o que eu iria fazer no Canadá. Ao dizer que iria estudar, ela se queimou e disse: “É, enquanto vocês nordestinos estudam, o povo aqui de São Paulo trabalha pra sustentar vocês”.

Já pensou? Como eu pensava que ela poderia me criar problemas, numa inocência cavalar, engoli no seco e apenas respondi: “Pois é, somos sortudos demais, não é?”. Hoje em dia eu não encontro uma piadista dessas nem por cem e uma cocada. No mínimo iria pedir pra ela adiantar minha parte, que eu não havia recebido nenhum cheque de São Paulo.

Era dia 31 de Dezembro de 1999, e iríamos sair de São Paulo às 11 da manhã, fazer uma escala em Newark, estado de New Jersey, onde ficava uma das sedes da Continental Airlines (que nem existe mais) e pegar um outro avião pra Montréal, chegando lá por volta das 10 horas da noite. Duas horas antes da virada pro ano de 2000, que eu ouvia desde menino dizer que era quando o mundo iria se acabar. Eu dizia que o mundo ia se acabar, mas meu pai dizia que na época dele, diziam que quando chegasse no ano de 2000, todos os negros iriam virar macacos. Imagine só o tamanho do processo que isso daria hoje em dia?

Pois bem, pegamos um DC-10 da Continental Airlines com 13 pessoas dentro, incluindo a tripulação. Era assustador e confortável ao mesmo tempo. Viajar quase oito horas do trajeto São Paulo-Newark com o avião quase fantasma. Passamos por cima da floresta Amazônica de dia e pude atestar a sua grandiosidade. Muita árvore e muita água. Pra descansar, me deitava em três cadeiras. Quase um avião particular. Se não fossem os outros 4 passageiros, o avião era só nosso. Também pensava que se Deus quisesse derrubar um avião, com certeza ele derrubaria aquele, pois só mataria 13 cabeças. Triste constatação.

Foi quando um membro da tripulação perguntou se queríamos vinho. Respondi que sim e ele trouxe pra cada um, uma garrafa de 250ml de um vinho tinto californiano que até hoje não sei o nome. Bebemos em menos de 5 minutos e pedi ao mesmo sujeito mais uma garrafa. Ele trouxe duas pra mim e duas pra Zumel. Acabamos e pedimos mais. Ele trouxe dessa vez quatro em cada mão e disse: “quando acabarem, vão ali naquela portinha e se sirvam a vontade que eu vou dormir”. Que maravilha. A excitação era enorme. Nunca haviamos ido por aquelas paragens.

Os “sortudos” estudantes nordestinos estavam luxando naquele avião que a funcionária paulistana fez piada. Ninguém sabia ainda da epopeia que iriamos enfrentar dentro de algumas horas. O choque cultural foi mesmo que um direto no queixo de cada um. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Maio de 2006. 



Reputação

Meu amigo Hindenberg Dutra me disse certa vez, em mesa de bar na saudosa Picanha do Dudé, na avenida Xavier da Silveira, em Morro Branco : ...