A
vida de imigrante é completamente diferente da vida de uma pessoa que nasceu
naquele local. Quando uma pessoa diz : “Venceu na vida mesmo vindo de fora”,
ele está dizendo justamente o contrário. Venceu na vida porque veio de fora, é
o que deveria ser a frase certa. Eu nunca havia saído da minha casa pra longas
durações. Resolvi ir fazer o curso de francês intensivo na Universidade de
Montreal. Eu não conhecia ninguém além de Zumel, não tinha dinheiro, não tinha
vida social, não tinha programação, não tinha convites, não tinha festas pra
ir, aniversários, casamentos ou até mesmo funerais.
A
minha vida se resumia a ir pro curso de manhã cedo, almoçar numa pizzaria perto
da universidade, pois não tinha muito tempo de almoço, voltar pra aula à tarde
e depois ir pra casa. Uma vez em casa, eu me trancava no quarto e ia estudar.
Estudar. Estudar. Estudar. Dormir. Repetir tudo de novo. No final de semana era
pior. Quando o padre não chamava pra mostrar a a cidade, era o sábado e o domingo
inteiro no quarto. Estudando. Estudando. Estudando.
Por
falar no almoço, todos os dias eu comia a mesma coisa. Duas fatias de pizza de
pepperoni e uma Coca cola em lata. Dava cinco dólares, eu dava seis pra
completar a gorjeta. A lanchonete era meio piso de profundidade do chão da rua
e eu descia uns quatro degraus. Era um oásis pra o frio infernal do inverno. O
dono, um careca alto, forte e de bigode da Romênia, ficava rindo porque eu
pedia Ketchup e maionese na pizza. E ficamos amigos. Amigos é maneira de falar.
Ele falava e eu respondia com risos e caras, fingindo entender o que ele
falava.
Assim,
com exceção dos colegas de sala do francês, minha única referência do lugar era
o romeno. Acabava a aula, ia pra casa. E estudava. E fazia exercícios. Apagava
e fazia de novo. Numa dessas, percebi que tinha um rádio relógio no quarto.
Procurei uma rádio e caí numa de rock antigo. Nem FM era. Era AM. Mas rock
antigo mesmo. Só tocava anos 50 e 60. Pronto, eu não desligava mais esse rádio.
Era 24 horas ligado. O engraçado é que todas aquelas músicas me eram
familiares.
Mas
enquanto eu estava trancado dentro de casa com meu rádio relógio e meus livros
de francês, gramática e passé composé, todos os outros da minha sala saiam,
tinham família, amigos, vida social. Todos o meus deveres estavam feitos. Os
deles nunca estavam. Eu sabia conjugar os verbos. Eles quase nunca.
Quando
eu comecei a trabalhar, eu aceitava todo horário. Final de semana, noite,
feriado. Eles não. Eu não tinha o que fazer, então o melhor era trabalhar. Eles
tinham o que fazer e trabalhar tanto não era nem uma opção e nem uma vontade. A
falta de vida social do imigrante é sua maior força. Evidentemente que ao
começar a ter uma vida social, se ele já não estiver bem de vida, ele se perde
no sua principal vantagem competitiva, uma vez que não se tem contatos e nem o idioma,
no caso de ser no estrangeiro. Só mesmo a falta de vida social como aliada.
Teve
uma época da minha vida que eu trabalhava sete dias por semana, doze horas por
dia. Você simplesmente não tem tempo e nem disposição pra gastar dinheiro. Paga
o aluguel, vai no mercado rapidamente e o resto do tempo é pra descansar.
Passei dois anos nesse sistema. A conta bancária vai crescendo e você nem
percebe. Quando vê já tem dinheiro pra colocar um negócio. E aí é o pulo do
gato. Só pode parar de trabalhar tanto quando coloca esse negócio.
Porquê
se começar trabalhar menos e começar a gastar, tudo que foi feito até então foi
em vão. Você se acomoda, o bucho cresce e você perdeu aquela vantagem que
tinha. Virou um local. Já conhece restaurantes, locais badalados, já quer
roupas e pronto, entrou no rat race novamente. A vida social é um veneno, como comida.
Necessário mas dentro dos limites, senão pode ser a sua derrocada na sua jornada
for a do país. Hoje, quase oito anos depois de ter colocado os pés aqui, eu já posso
me dar ao luxo de ter uma vida social e já não quero trabalhar tanto. Quero curtir
minhas filhas. Pra um crescimento mais agressivo, não conte comigo. Procure um imigrante
que acabou de chegar, que está com fome e que não conhece ninguém.

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