Thursday, 24 June 2021

Barrados no baile

 

Desde que eu me entendo por gente, sou apaixonado pelos Estados Unidos da América. Lembro com muita clareza do melhor presente de Natal que ganhei do meu pai enquanto era criança. Um forte apache. Tratava-se de um grande brinquedo, dentro de uma grande caixa. Vinha um forte pra ser montado com suas quatro paredes. Uma vez montado, você ia começar a organizar os bonecos. Tinha cavalos, a cavalaria e os índios. A criança daquela época não entendia nada, mas achava o máximo o exército e também os índios. O negócio era armar o exército americano dentro do forte e os índios vinham de fora tentando atacar e conquistar o forte. Brinquei com meu irmão por meses à fio, todos os dias. Claro, eu como mais velho escolhia : era sempre os azuis, os americanos e meu irmão sempre os vermelhos, os índios.

Quando cresci um pouco, sempre com meu irmão, ficamos fãs de um seriado de TV chamado Chips. Tinha um galego chamado John Baker e seu parceiro chamado Frank Poncherello. Eram patrulheiros rodoviários que patrulhavam as estradas da Califórnia. Tudo aquilo me fascinava. A farda, as motocicletas (Kawasakis), as estradas, as paisagens, a forma como a vida lá era vivida.

Já estava combinado com a menina que trabalhava lá em casa. Na hora do seriado, era a hora do lanche no final da tarde. Todos os dias tinha um hambúrguer pra cada, com Ketchup e um copo de mill shake de chocolate. Nada mais americano do que isso.

Eu via nos filmes aquelas meninas e meninos entrando numa sorveteira e pedindo um Milk shake. Era como se eu tivesse ali. Nos filmes aqueles caras suados com uma toalha no ombro fazendo hambúrgueres na chapa e jogando nos pães.

Os carros, as roupas, a música, os filmes, as comidas, as casas sem muros, as gramas sempre verdes, o poderoso exército, o dólar, hot dog, pipoca, Coca cola, era tudo um sonho pra mim.

Mas tudo isso era contido. Só ficou euforia mesmo de ir embora do Brasil pra morar mesmo nos Estados Unidos foi quando eu comecei assistir a saga dos irmãos Brandon e Brenda Wash. Seu pai havia sido transferido pra morar em Beverly Hills na Califórnia. Aquilo sim é que era vida. Como podia existir uma escola daquelas? E as festas? As meninas? Os carros?

Tudo que caía nas minhas mãos sobre os Estados Unidos eu lia e guardava. Chuck Berry e Little Richard eram dois negros americanos que eu idolatrava. Hoje acredito que o amor e o conhecimento que eu tinha acerca da cultura americana me blindaram contra toda influência nefasta esquerdista. Eu sempre quis estar no time vencedor e os Estados Unidos eram os vencedores. Porque sempre gostavam de admirar o que deu errado?

Acho que uma das maiores emoções que senti foi quando já adulto coloquei os pés no aeroporto John Fitzgerald Kennedy em New York City pela prometia. NYC foi o primeiro solo americano onde pisei. Morar em Boston por três meses em 2003 foi uma coisa tão boa que eu nem ligava de estar trabalhando muito. Eu respirava os ares daquele lugar pra mim já era o máximo.

Pra mim, depois de conhecer, eu afirmo que uma das melhores invenções do americano é o Philly Cheesesteak. Um sanduíche que fazem com lagarto e queijo, dentro de um pão com maionese. E já comi o da Philadelphia mesmo, quando fui lá certa feita visitar meu amigo Vivaldo. O Philly’s feito na Philadelphia!

Cada cidade que fui na América tem seu charme, sua limpeza, sua organização, suas bandeiras patriotas balançando na frente das casas. Se um dia o Brasil chegar à dez por cento do que é a América, eu não queria mais nada. Ô lugar porreta!!

Fabiano Holanda, Março de 2008, Mississauga, ON.

 

 

 

Wednesday, 23 June 2021

Bad boy


Na minha escola, o sistema de séries começava com o maternal e vinha Jardim 1, jardim 2, alfabetização e ia pra primeira série. O jardim 2 eu cursei no ano de 1980, com cinco anos de idade. Eu carrego comigo lembranças desde que tinha três anos. Os fatos mais marcantes, lógico. Um fato marcante foi no final de 1978 quando a gente se mudou de Mirassol, da famosa rua dos Antúrios pra nossa casa de Morro Branco, recém construída pelo meu pai. O cheiro de nova, o cheiro da tinta, nunca me saiu da cabeça. Aquela impressão ficou grudada em mim até hoje.

No ano seguinte, 1979, dois fatos são vivos na minha lembrança. O primeiro foi no dia que meu irmão estava chorando no berço e eu querendo ajudá-lo, fui tentar tirá-lo de lá. Caímos nós dois no chão, sendo que eu cai por baixo e amorteci a queda dele. Quando Minha mãe escutou o barulho, foi aquela gritaria, ficamos eu e meu irmão chorando, acho que mais pela comoção do que por algum machucado. O segundo fato se deu na casa da minha avó Vanda. Eu pulei do sofá pra mesa de centro. Do centro pulava de volta pro sofá. Começaram a avisar “você vai cair e quebrar a perna “. Mas eu não parei e de fato cai e quebrei a perna. Fomos pro hospital e o irmão do meu tio Aurino Abreu, Arnobio Abreu, que era ortopedista, colocou o gesso na minha perna.

No ano de 1980, o fato que não me sai da cabeça foi umas palmadas que levei da minha mãe. Aliás, em duas oportunidades. A primeira nós estávamos num salão de cabeleireira perto da esquina da Xavier da Silveira com a Bernardo Vieira. Ela perguntou a senhora quanto custava um corte de criança. A moça disse e perguntou onde ela cortava meu cabelo. Mamãe respondeu : “eu sempre corto no Pequeno Príncipe, mas hoje não tenho tempo de ir na Cidade Alta”. Eu respondi rapidamente, não sei se brincando ou falando sério, mas eu disse : “É conversa dela, ela me coloca no carro e sai rodando perguntando o preço, onde for mais barato ela corta”. Eu não pronunciei a palavra “mentira”. Mamãe ficou toda desconcertada, sem ter como desmentir uma criança, que todos dizem sempre falar a verdade. A conversa continuou e a moça disse pra mamãe, você já tem um filho tão grande e tão nova, tá com quantos anos? Mamãe respondeu: “tô com 23 anos”. Dessa vez eu pronunciei a palavra mentira. Eu disse “É mentira, ela vai fazer 26 em agosto”. Dessa vez eu levei um beliscão no ato. Chegando e casa levei umas chineladas não para aprender a dizer a verdade, mas para aprender a não desmentir as mentiras.

O outro fato desse ano que lembro com maior expressão foi o embrolio com um menino que estudava comigo chamado Dimitri. O pequeno cão percebeu que eu era banana e passou a me ameaçar. Tudo que ele queria que eu fizesse e eu não fazia, ele me ameaçava com uma mordida. Até que um dia não ameaçou e já partiu direto pra me morder. Segurou no meu antebraço com as duas mãos e mordeu com toda força que tinha. Sangrou e ficou inchado. Quando cheguei em casa e minha mãe viu a mordida, perguntou o que eu tinha feito pra revidar aquela agressão. Quando disse que nada tinha feito com medo dele morder mais, ela me deu umas palmadas e disse : “se chegar em casa apanhado, vai apanhar de novo até aprender a se defender“. Mas não aprendi. Para não apanhar em casa, passei a fazer o que o desgraçado só Dimitri queria, para não apanhar dele também.

No ano seguinte, 1981, senti pela primeira vez o gosto da liberdade. Enquanto no jardim 2 tínhamos que esperar nossos pais dentro de uma ala fechada, na alfabetização a gente já podia ir brincar no sitio, que era uma grande área na parte dos fundos do colégio, com portão pra rua Olinto Meira. O combinado era eu brincar um pouco e ir pro portão esperar mamãe. Mas nesse dia eu não fui. Fiquei sentado numa pista de atletismo, que os atletas usavam pra realizar saltos em distância, do outro lado do sítio. Mamãe então entrou no colégio, me viu e acenou para que eu fosse ao seu encontro. Não me mexi. Ela então começou a andar em minha direção, revoltada, balançando a cabeça negativamente. Quando chegou perto, ainda assim não me levantei. Ela me levantou perguntando se eu tava machucado. Foi quando percebeu que eu tinha feito cocô nas calças. O uniforme era vermelho, um short e camisa, estavam pretos.

Ela disse: *o que foi isso? Porque não foi no banheiro?”, eu disse que não tinha dado tempo. Ela mandou eu colocar minha bolsa atrás e ir andando pro carro com ela. Tudo tava dando certo até que um menino grande viu e começou a malhação, gritaria, risos. Um pesadelo. E mamãe brigava com eles, o que aumentava mais ainda minha desgraça. Entrei no carro aos prantos, ela colocou o tapete pra não sujar muito o banco, e fomos pra casa. Acho que esse foi o meu pior dia naquele colégio. Nenhum dos meus amiguinhos ficou sabendo e os grandes não lembravam de mim. No outro dia não tive problemas, mas aprendi a lição.

De 1981 até 1984 não guardo nada na memória de maneira significativa. Nenhum fato marcante. No ano de 1985, no entanto, quando eu fazia a quarta série, chegou um menino pra estudar comigo chamado Hugo Flávio. Era loiro, magro e muito bom em qualquer esporte que fazia. E principalmente, muito bom de briga. Quando a gente tava jogando futebol e os meninos da quinta série chegavam nos expulsando, ele não saia e ia pra cima pra trocar porrada com quem fosse. Uma vez três meninos o cercaram e ele não teve medo. Pegou a bola deles e chutou pro lado de for a da escola e pegou uma manga e disse que ia matar um deles. Recuaram. Hugo era uma fera. Eu via aquilo e não tinha coragem de ser como ele. Ele não tinha medo de nada. Uma vez pulou do segundo andar do colégio pro chão. Nos jogos Inter classes, ganhamos todos os esportes que Hugo jogou.

Nos tornamos grandes amigos e em todos os esportes que ele ia, ele colocava como condição eu ir também, senão ele não iria. Os pais dos alunos ficavam gritando o nome dele. Hugo era um desses espíritos livres. Muito mais maduro pra sua pouca idade física. Ele parecia saber de tudo. Nos finais de semana ele ia dormir lá em casa e íamos pro Jiqui Country Club com meu tio Valmir. Lá Hugo mandava no jogo também, até com adolescentes. E se mexessem comigo, Hugo pulava na frente. Era meu grande amigo dos dez anos.

Quando começou as aulas da quinta série, em 1986, fiquei sabendo que Hugo não moraria mais em Natal. Os pais haviam sido transferidos pra outra cidade. Além do amigo, eu perdia minha espécie de guarda costas. Isso iria mudar algo dentro de mim. Foi o primeiro impulso que eu tive de deixar de ser um bosta. Tinha um outro amigo que estudou comigo desde a primeira série, o nego Alysson. Esse gostava de brigar com todo mundo, todos os meses ele arrumava uma briga com alguém. Mas nunca comigo, até esse dia.

Estávamos jogando Adedonha. Entre uma aula e outra. Chegou a letra V, e era pra escolher um carro com essa letra. Eu disse “Variant”. Ele disse “Volks”. Eu disse Volks não é carro, é uma marca de carro. Ele disse que em Currais Novos chamavam de Volks. Eu fui me irritando e disse: “Volks é o seu cu!”.

Me arrependi na mesma hora que disse. Ele perguntou : “é o que, rapaz?”. Eu repeti. Ele ficou olhando pra mim, sem acreditar no que tava vendo. Então ele disse : “vou marcar aqui os pontos de Volks no papel e quero ver quem vai empatar”. Eu já tinha ido longe demais pra recuar. Eu avisei a ele : “se marcar, vou enfiar a mão na sua cara”. Agora não só ele se espantou, mas a classe toda. Ele tava sentado no braço da carteira na sala de aula. Minha visão ficou de túnel. Eu não ouvia mais nada, não via mais nada, só a mão dele, a caneta, o papel e onde eu iria bater caso ele escrevesse no papel os dez pontos relacionados à Volks.

E o desgraçado escreveu. Antes dele acabar, juntei toda minha força, fechei a mão e meti um murro na cara dele. Murro esse que eu nem sabia que sabia dar. Só havia treinado na cara só meu irmão, mas sempre sem ser pra machucar, sabe como é briga de irmão. Ele se desequilibrou um pouco e veio querer revidar. Era valente. Aliás, até hoje ainda é. Soltou um murro na minha direção, que bateu mas eu já não sentia. Fui soltando o braço na cara dele sem parar. Um atrás do outro. Até que o professor chegou e separou a briga e nos mandou pra sala da diretora do colégio, irmã Olivette.

Ficamos lá sentados e foram ligar pra nossas mães. Ele disse : “você sabe que eu ganhei né?”. Eu respondi: “ganhou um Caralho. Te dei uma surra, Otario. Todo mundo viu”. Ele disse : “você bateu primeiro, saiu na vantagem, mas acertei uns em você também”. Eu disse : “pode até ser, mas claramente eu te quebrei, todo mundo viu e você se fudeu, o valentão entrou no cacete”. Ele pensou um pouco e disse : “então vamos declarar empate. Pronto, foi empate”. Eu respondi: “empate um Caralho. Te quebrei todo, bobão”.

Quando não tinha uma testemunha daquele dia, ficava uma palavra contra a outra. Mas quando tinha, ele se calava. Nossas mães fizeram que a gente fizesse as pazes e nunca mais depois daquele dia, o nego Alysson veio procurar confusão comigo. Somos amigos até hoje. E até hoje ele insiste em dizer que venceu. Fela da puta. 

Mas quero falar é sobre a sensação de deixar de ser um bosta pra ser alguém respeitado. Daquele dia em diante minha vida mudou. A sensação de poder, de saber que só você pode vencer seu medo e ainda impor medo nos outros é muito gostosa pra um menino daquela idade. Claro que tudo tinha um limite. Minha valentia era pra os meninos da minha idade. Eu não era Hugo. Hugo era valente até pra adulto. Mas eu já estava contente. Fiquei pensando: “pena Hugo não tá ali pra ver aquela briga”.

Dali em diante eu andava com o peito estufado. E não acreditava como tinha sido tão fácil. Porque tinha aguentado tanta piada, mordida, zombaria por causa que eu usava óculos, me chamando de quatro olhos. Eu estava liberto. Agora sim, a vida podia vir com os dois braços levantados pois eu iria bater!!

Fabiano Holanda, Fevereiro de 2008, Mississauga, ON.

Tuesday, 8 June 2021

Pastos verdes do MIT

 

Em 2003, durante meu período de férias de verão, resolvi passar três meses em Massachusetts, na casa do meu amigo Daniel Gazoni, o Mirel. Era a primeira vez que eu entrava em um famoso ônibus da Greyhound, que eu tanto via nos filmes. Saí da estação em Montreal e rumei em direção à Boston. Cheguei lá à noite e ele foi me pegar na estação de ônibus da cidade. É incrível como o ar da América é diferente de tudo. Eu não tenho dúvidas de que aquele país é abençoado por Deus e pelo trabalho e esforço dos que criaram aquele lugar maravilhoso, que não só abriga os cidadãos de lá, como tem emprego até para os forasteiros, de toda parte do mundo.

Nós percebemos que há um erro gigante na percepção das coisas à nível global. Distorções que viram verdade de tanto que são repetidas. A maior delas é : o canadense é o melhor povo do mundo e o americano é lixo, arrogante, pedante, canalha. Nada mais falso do que isso. Nesse tempo todo que estou aqui eu pude comprovar, desde os guardas da fronteira até a população em geral, é muito mais fácil e agradável e easygoing lidar com o americano médio do que com o canadense. Claro que existem exceções, mas não estou falando delas. Estou falando de uma característica da população em geral. Merdas tem em todo o lado. Filho da puta e formiga você encontra no planeta todo. E também os extremamente gente boa você encontra nos dois lados. Falo de 90% do povo.

Todas as vezes que fui nos Estados Unidos à passeio, fui bem tratado pelos guardas das fronteiras. São amistosos, brincam, não criam problemas. Todas as vezes que estava voltando pra casa no Canadá, tem um guarda de bosta pra encher a porra do meu saco. Uma vez fizeram em desmanchar uma mala inteira no aeroporto. Mala essa que eu tinha gasto três horas sentando em cima pra poder fechar. Sem razão. Só gala mesmo. Outra vez de carro, colocaram até cachorro.

Fui trabalhar numa empresa de mudança residencial que um cara da academia de Mirel chamado Allan trabalhava. Já fui logo no dia seguinte. Não tinha celular e saí cedo pro local indicado. Mirel me deixou lá e foi pro trabalho dele. Entramos no caminhão às sete da manhã. A mudança se extendeu e terminamos à uma da manhã. O Allan me deixou na casa de Mirel já perto das duas. Todo mundo doido achando que eu tinha morrido. Confusão, me esculhambram, mas no outro dia eu tava pronto pra trabalhar.

Foram quase três meses de trabalho duro. O dono da empresa era um judeu, e tinha alguns judeus por lá, mas a maioria era de brasileiros. O salário não era lá muita coisa, pagavam dez dólares por hora. O melhor eram as gorjetas. Eles davam 10% do valor da mudança de gorjeta pra dividir entre os trabalhadores. Certa feita fizemos uma mudança pra um sargento do exército americano. Saiu de Massachusetts pra Delaware. Deu 18 mil o valor. Ele deu 1800 dólares pra dividir pra três. 600 dólares pra cada um. Naquele tempo era uma verdadeira fortuna.

Mas voltemos aos judeus. O dono era um ex-motorista de caminhão chamado Ron. Muito gente boa. Mas lá tinha um judeu que não tinha o respeito de ninguém porque arrumou desculpa pra não ir pro exército de lá. Então quem não ia pro exército não era considerado macho. O nome da fera era Shmulik. Ele era o bosta da turma judaica mas queria ser o Big boss dos brasileiros. Claro, a turma não perdoava.

Um dia fomos fazer uma mudança pra uns estudantes de Harvard. E o Shmulik com prancheta na mão começou a dar as ordens. Num determinado momento disse pra mim : vá lá pra baixo e arrume todo o caminhão que daqui a uma hora a gente tá acabando. Eu disse, yes sir. Fui lá embaixo, coloquei as mantas uma em cima da outra, as dollies todas arrumadas e fui me deitar na boléia. Peguei no sono. Com um tempo chega a turma. Ele perguntou : arrumou tudo? Eu disse : sim, tudo arrumado. Na primeira curva que o caminhão fez, foi aquele barulho. Tudo caiu. Ele perguntou gritando : você não amarrou as coisas? Eu disse : não, você me disse pra arrumar, não foi disse pra amarrar nada!!

O bicho ficou muito puto. Mas muito puto mesmo. Começou a gritar. No segundo grito eu mandei ele se calar senão quando chegasse na empresa eu iria enfiar a porrada no focinho dele. Os outros brasileiros disseram o mesmo. Ele não acreditou. Pensou que quando chegasse lá teria outros judeus pra ajudá-lo. Mesmo que tivesse ninguém iria ajudá-lo. Mas quando entramos com o caminhão, vi que não tinha mais ninguém lá. Ele começou a ficar desesperado querendo descer e fugir. Mas eu segurei a porta.

A gente disse a ele. Tu vai apanhar, seu filho de uma puta. Só vamos deixar passar se você subir no caminhão e ir arrumar tudo calado. Item por item. Ele concordou. Quando ele subiu no caminhão, subimos atrás. Um dos caras, do Paraná, pegou aquelas cordas americanas com ratchet e começou a amarrar o bicho. A segurou e a anta ficou bem amarrada. Aí pegamos outra corda e amarramos ele no caminhão. Passamos um tape na boca dele e o maluco pegou um papel e escreveu : ILLEGAL ALIEN!! E colamos no meio dos peito dele.

Um dos caras pegou o telefone e fingiu estar ligando pra imigração. Ah, o Shmulik era ilegal. O cara disse : é da imigração? Tem um judeu aqui ilegal e criminoso! Está amarrado! O endereço é tal e tal, na cidade de Allstom.

O judeu se debatia, os olhos arregalados, querendo chorar… aí descemos do caminhão, ligamos o carro e fingimos estar indo embora. A gente ficou escondido do lado do caminhão. O nojento conseguiu se soltar. Quando vimos foi o jumento pulando no chão e correndo, desesperado, pensando que a imigração estava vindo. Ai caímos na risada e começamos a gritar. Ele parou e começou a bufar. Pensei que fosse morrer. Mas a gente foi dizendo que dessa vez era só o aviso. Pra ele andar na linha dali pra frente. Ele nada disse.

No outro dia quando cheguei, não tinha nenhum brasileiro. Os caras já tinham saído pra um trabalho mais longe e tinham ido mais cedo. Só estava o dono, Ron e mais quatro judeus, incluindo Shmulik. Ron começou sério a me perguntar o que tinha ocorrido. Ele já tinha ouvido a versão de shmulik. Eu contei a minha. Quando cheguei na parte em que amarramos o puto e colocamos o sinal de ilegal nos peitos dele, os judeus começaram a gargalhar sem parar. Mas riam e riam. Ron quase virava a cadeira pra trás. Amarraram mesmo? E ria… daquele dia em diante, o shmulik se fudeu mais do que já era. Virou o lixo do lixo.

Mas tinha a outra parte de Boston. Meu primo Emílio fazia seu doutoramento no Massachusetts Institute of Technology. Eu tive o prazer de passear pelos bancos de tão renomada universidade. Localizada da cidade de Cambridge, onde eu morava. Gostava muito de observar o Charles River da Longfellow Bridge. Tinha uma pizzaria perto da casa de Mirel que tinha uma pizza de presunto e molho pesto que nunca vi igual. Além de um delicioso cheese steak, de gosto incomparável. Meu amigo Mirel além de dar aulas de jiu jitsu ainda era cozinheiro de um restaurante na Harvard Square. Ele ficava no centro de uma mesa redonda com uma chapa quente, fazendo vários pratos de uma vez, circulando na mesa chapa.

Penso em voltar em Boston, visitar os amigos e tomar uma cerveja, dessa vez mais sossegado!!

Fabiano Holanda, Janeiro de 2008, Mississauga, ON.

Reputação

Meu amigo Hindenberg Dutra me disse certa vez, em mesa de bar na saudosa Picanha do Dudé, na avenida Xavier da Silveira, em Morro Branco : ...