Na
minha escola, o sistema de séries começava com o maternal e vinha Jardim 1,
jardim 2, alfabetização e ia pra primeira série. O jardim 2 eu cursei no ano de
1980, com cinco anos de idade. Eu carrego comigo lembranças desde que tinha
três anos. Os fatos mais marcantes, lógico. Um fato marcante foi no final de
1978 quando a gente se mudou de Mirassol, da famosa rua dos Antúrios pra nossa
casa de Morro Branco, recém construída pelo meu pai. O cheiro de nova, o cheiro
da tinta, nunca me saiu da cabeça. Aquela impressão ficou grudada em mim até
hoje.
No
ano seguinte, 1979, dois fatos são vivos na minha lembrança. O primeiro foi no
dia que meu irmão estava chorando no berço e eu querendo ajudá-lo, fui tentar
tirá-lo de lá. Caímos nós dois no chão, sendo que eu cai por baixo e amorteci a
queda dele. Quando Minha mãe escutou o barulho, foi aquela gritaria, ficamos eu
e meu irmão chorando, acho que mais pela comoção do que por algum machucado. O
segundo fato se deu na casa da minha avó Vanda. Eu pulei do sofá pra mesa de
centro. Do centro pulava de volta pro sofá. Começaram a avisar “você vai cair e
quebrar a perna “. Mas eu não parei e de fato cai e quebrei a perna. Fomos pro
hospital e o irmão do meu tio Aurino Abreu, Arnobio Abreu, que era ortopedista,
colocou o gesso na minha perna.
No
ano de 1980, o fato que não me sai da cabeça foi umas palmadas que levei da
minha mãe. Aliás, em duas oportunidades. A primeira nós estávamos num salão de
cabeleireira perto da esquina da Xavier da Silveira com a Bernardo Vieira. Ela
perguntou a senhora quanto custava um corte de criança. A moça disse e
perguntou onde ela cortava meu cabelo. Mamãe respondeu : “eu sempre corto no
Pequeno Príncipe, mas hoje não tenho tempo de ir na Cidade Alta”. Eu respondi
rapidamente, não sei se brincando ou falando sério, mas eu disse : “É conversa
dela, ela me coloca no carro e sai rodando perguntando o preço, onde for mais
barato ela corta”. Eu não pronunciei a palavra “mentira”. Mamãe ficou toda
desconcertada, sem ter como desmentir uma criança, que todos dizem sempre falar
a verdade. A conversa continuou e a moça disse pra mamãe, você já tem um filho
tão grande e tão nova, tá com quantos anos? Mamãe respondeu: “tô com 23 anos”. Dessa
vez eu pronunciei a palavra mentira. Eu disse “É mentira, ela vai fazer 26 em
agosto”. Dessa vez eu levei um beliscão no ato. Chegando e casa levei umas
chineladas não para aprender a dizer a verdade, mas para aprender a não
desmentir as mentiras.
O
outro fato desse ano que lembro com maior expressão foi o embrolio com um
menino que estudava comigo chamado Dimitri. O pequeno cão percebeu que eu era
banana e passou a me ameaçar. Tudo que ele queria que eu fizesse e eu não
fazia, ele me ameaçava com uma mordida. Até que um dia não ameaçou e já partiu
direto pra me morder. Segurou no meu antebraço com as duas mãos e mordeu com
toda força que tinha. Sangrou e ficou inchado. Quando cheguei em casa e minha
mãe viu a mordida, perguntou o que eu tinha feito pra revidar aquela agressão.
Quando disse que nada tinha feito com medo dele morder mais, ela me deu umas
palmadas e disse : “se chegar em casa apanhado, vai apanhar de novo até
aprender a se defender“. Mas não aprendi. Para não apanhar em casa, passei a
fazer o que o desgraçado só Dimitri queria, para não apanhar dele também.
No
ano seguinte, 1981, senti pela primeira vez o gosto da liberdade. Enquanto no
jardim 2 tínhamos que esperar nossos pais dentro de uma ala fechada, na
alfabetização a gente já podia ir brincar no sitio, que era uma grande área na
parte dos fundos do colégio, com portão pra rua Olinto Meira. O combinado era
eu brincar um pouco e ir pro portão esperar mamãe. Mas nesse dia eu não fui.
Fiquei sentado numa pista de atletismo, que os atletas usavam pra realizar
saltos em distância, do outro lado do sítio. Mamãe então entrou no colégio, me
viu e acenou para que eu fosse ao seu encontro. Não me mexi. Ela então começou
a andar em minha direção, revoltada, balançando a cabeça negativamente. Quando
chegou perto, ainda assim não me levantei. Ela me levantou perguntando se eu
tava machucado. Foi quando percebeu que eu tinha feito cocô nas calças. O
uniforme era vermelho, um short e camisa, estavam pretos.
Ela
disse: *o que foi isso? Porque não foi no banheiro?”, eu disse que não tinha
dado tempo. Ela mandou eu colocar minha bolsa atrás e ir andando pro carro com
ela. Tudo tava dando certo até que um menino grande viu e começou a malhação,
gritaria, risos. Um pesadelo. E mamãe brigava com eles, o que aumentava mais
ainda minha desgraça. Entrei no carro aos prantos, ela colocou o tapete pra não
sujar muito o banco, e fomos pra casa. Acho que esse foi o meu pior dia naquele
colégio. Nenhum dos meus amiguinhos ficou sabendo e os grandes não lembravam de
mim. No outro dia não tive problemas, mas aprendi a lição.
De 1981
até 1984 não guardo nada na memória de maneira significativa. Nenhum fato
marcante. No ano de 1985, no entanto, quando eu fazia a quarta série, chegou um
menino pra estudar comigo chamado Hugo Flávio. Era loiro, magro e muito bom em
qualquer esporte que fazia. E principalmente, muito bom de briga. Quando a
gente tava jogando futebol e os meninos da quinta série chegavam nos
expulsando, ele não saia e ia pra cima pra trocar porrada com quem fosse. Uma
vez três meninos o cercaram e ele não teve medo. Pegou a bola deles e chutou
pro lado de for a da escola e pegou uma manga e disse que ia matar um deles.
Recuaram. Hugo era uma fera. Eu via aquilo e não tinha coragem de ser como ele.
Ele não tinha medo de nada. Uma vez pulou do segundo andar do colégio pro chão.
Nos jogos Inter classes, ganhamos todos os esportes que Hugo jogou.
Nos
tornamos grandes amigos e em todos os esportes que ele ia, ele colocava como
condição eu ir também, senão ele não iria. Os pais dos alunos ficavam gritando
o nome dele. Hugo era um desses espíritos livres. Muito mais maduro pra sua
pouca idade física. Ele parecia saber de tudo. Nos finais de semana ele ia
dormir lá em casa e íamos pro Jiqui Country Club com meu tio Valmir. Lá Hugo
mandava no jogo também, até com adolescentes. E se mexessem comigo, Hugo pulava
na frente. Era meu grande amigo dos dez anos.
Quando
começou as aulas da quinta série, em 1986, fiquei sabendo que Hugo não moraria
mais em Natal. Os pais haviam sido transferidos pra outra cidade. Além do amigo,
eu perdia minha espécie de guarda costas. Isso iria mudar algo dentro de mim. Foi
o primeiro impulso que eu tive de deixar de ser um bosta. Tinha um outro amigo
que estudou comigo desde a primeira série, o nego Alysson. Esse gostava de brigar
com todo mundo, todos os meses ele arrumava uma briga com alguém. Mas nunca comigo,
até esse dia.
Estávamos
jogando Adedonha. Entre uma aula e outra. Chegou a letra V, e era pra escolher um
carro com essa letra. Eu disse “Variant”. Ele disse “Volks”. Eu disse Volks não
é carro, é uma marca de carro. Ele disse que em Currais Novos chamavam de Volks.
Eu fui me irritando e disse: “Volks é o seu cu!”.
Me arrependi
na mesma hora que disse. Ele perguntou : “é o que, rapaz?”. Eu repeti. Ele ficou
olhando pra mim, sem acreditar no que tava vendo. Então ele disse : “vou marcar
aqui os pontos de Volks no papel e quero ver quem vai empatar”. Eu já tinha ido
longe demais pra recuar. Eu avisei a ele : “se marcar, vou enfiar a mão na sua cara”.
Agora não só ele se espantou, mas a classe toda. Ele tava sentado no braço da carteira
na sala de aula. Minha visão ficou de túnel. Eu não ouvia mais nada, não via mais
nada, só a mão dele, a caneta, o papel e onde eu iria bater caso ele escrevesse
no papel os dez pontos relacionados à Volks.
E o desgraçado
escreveu. Antes dele acabar, juntei toda minha força, fechei a mão e meti um murro
na cara dele. Murro esse que eu nem sabia que sabia dar. Só havia treinado na cara
só meu irmão, mas sempre sem ser pra machucar, sabe como é briga de irmão. Ele se
desequilibrou um pouco e veio querer revidar. Era valente. Aliás, até hoje ainda
é. Soltou um murro na minha direção, que bateu mas eu já não sentia. Fui soltando
o braço na cara dele sem parar. Um atrás do outro. Até que o professor chegou e
separou a briga e nos mandou pra sala da diretora do colégio, irmã Olivette.
Ficamos
lá sentados e foram ligar pra nossas mães. Ele disse : “você sabe que eu ganhei
né?”. Eu respondi: “ganhou um Caralho. Te dei uma surra, Otario. Todo mundo viu”.
Ele disse : “você bateu primeiro, saiu na vantagem, mas acertei uns em você também”.
Eu disse : “pode até ser, mas claramente eu te quebrei, todo mundo viu e você se
fudeu, o valentão entrou no cacete”. Ele pensou um pouco e disse : “então vamos
declarar empate. Pronto, foi empate”. Eu respondi: “empate um Caralho. Te quebrei
todo, bobão”.
Quando
não tinha uma testemunha daquele dia, ficava uma palavra contra a outra. Mas quando
tinha, ele se calava. Nossas mães fizeram que a gente fizesse as pazes e nunca mais
depois daquele dia, o nego Alysson veio procurar confusão comigo. Somos amigos até
hoje. E até hoje ele insiste em dizer que venceu. Fela da puta.
Mas quero
falar é sobre a sensação de deixar de ser um bosta pra ser alguém respeitado. Daquele
dia em diante minha vida mudou. A sensação de poder, de saber que só você pode vencer
seu medo e ainda impor medo nos outros é muito gostosa pra um menino daquela idade.
Claro que tudo tinha um limite. Minha valentia era pra os meninos da minha idade.
Eu não era Hugo. Hugo era valente até pra adulto. Mas eu já estava contente. Fiquei
pensando: “pena Hugo não tá ali pra ver aquela briga”.
Dali
em diante eu andava com o peito estufado. E não acreditava como tinha sido tão fácil.
Porque tinha aguentado tanta piada, mordida, zombaria por causa que eu usava óculos,
me chamando de quatro olhos. Eu estava liberto. Agora sim, a vida podia vir com
os dois braços levantados pois eu iria bater!!
Fabiano Holanda,
Fevereiro de 2008, Mississauga, ON.