Wednesday, 23 June 2021

Bad boy


Na minha escola, o sistema de séries começava com o maternal e vinha Jardim 1, jardim 2, alfabetização e ia pra primeira série. O jardim 2 eu cursei no ano de 1980, com cinco anos de idade. Eu carrego comigo lembranças desde que tinha três anos. Os fatos mais marcantes, lógico. Um fato marcante foi no final de 1978 quando a gente se mudou de Mirassol, da famosa rua dos Antúrios pra nossa casa de Morro Branco, recém construída pelo meu pai. O cheiro de nova, o cheiro da tinta, nunca me saiu da cabeça. Aquela impressão ficou grudada em mim até hoje.

No ano seguinte, 1979, dois fatos são vivos na minha lembrança. O primeiro foi no dia que meu irmão estava chorando no berço e eu querendo ajudá-lo, fui tentar tirá-lo de lá. Caímos nós dois no chão, sendo que eu cai por baixo e amorteci a queda dele. Quando Minha mãe escutou o barulho, foi aquela gritaria, ficamos eu e meu irmão chorando, acho que mais pela comoção do que por algum machucado. O segundo fato se deu na casa da minha avó Vanda. Eu pulei do sofá pra mesa de centro. Do centro pulava de volta pro sofá. Começaram a avisar “você vai cair e quebrar a perna “. Mas eu não parei e de fato cai e quebrei a perna. Fomos pro hospital e o irmão do meu tio Aurino Abreu, Arnobio Abreu, que era ortopedista, colocou o gesso na minha perna.

No ano de 1980, o fato que não me sai da cabeça foi umas palmadas que levei da minha mãe. Aliás, em duas oportunidades. A primeira nós estávamos num salão de cabeleireira perto da esquina da Xavier da Silveira com a Bernardo Vieira. Ela perguntou a senhora quanto custava um corte de criança. A moça disse e perguntou onde ela cortava meu cabelo. Mamãe respondeu : “eu sempre corto no Pequeno Príncipe, mas hoje não tenho tempo de ir na Cidade Alta”. Eu respondi rapidamente, não sei se brincando ou falando sério, mas eu disse : “É conversa dela, ela me coloca no carro e sai rodando perguntando o preço, onde for mais barato ela corta”. Eu não pronunciei a palavra “mentira”. Mamãe ficou toda desconcertada, sem ter como desmentir uma criança, que todos dizem sempre falar a verdade. A conversa continuou e a moça disse pra mamãe, você já tem um filho tão grande e tão nova, tá com quantos anos? Mamãe respondeu: “tô com 23 anos”. Dessa vez eu pronunciei a palavra mentira. Eu disse “É mentira, ela vai fazer 26 em agosto”. Dessa vez eu levei um beliscão no ato. Chegando e casa levei umas chineladas não para aprender a dizer a verdade, mas para aprender a não desmentir as mentiras.

O outro fato desse ano que lembro com maior expressão foi o embrolio com um menino que estudava comigo chamado Dimitri. O pequeno cão percebeu que eu era banana e passou a me ameaçar. Tudo que ele queria que eu fizesse e eu não fazia, ele me ameaçava com uma mordida. Até que um dia não ameaçou e já partiu direto pra me morder. Segurou no meu antebraço com as duas mãos e mordeu com toda força que tinha. Sangrou e ficou inchado. Quando cheguei em casa e minha mãe viu a mordida, perguntou o que eu tinha feito pra revidar aquela agressão. Quando disse que nada tinha feito com medo dele morder mais, ela me deu umas palmadas e disse : “se chegar em casa apanhado, vai apanhar de novo até aprender a se defender“. Mas não aprendi. Para não apanhar em casa, passei a fazer o que o desgraçado só Dimitri queria, para não apanhar dele também.

No ano seguinte, 1981, senti pela primeira vez o gosto da liberdade. Enquanto no jardim 2 tínhamos que esperar nossos pais dentro de uma ala fechada, na alfabetização a gente já podia ir brincar no sitio, que era uma grande área na parte dos fundos do colégio, com portão pra rua Olinto Meira. O combinado era eu brincar um pouco e ir pro portão esperar mamãe. Mas nesse dia eu não fui. Fiquei sentado numa pista de atletismo, que os atletas usavam pra realizar saltos em distância, do outro lado do sítio. Mamãe então entrou no colégio, me viu e acenou para que eu fosse ao seu encontro. Não me mexi. Ela então começou a andar em minha direção, revoltada, balançando a cabeça negativamente. Quando chegou perto, ainda assim não me levantei. Ela me levantou perguntando se eu tava machucado. Foi quando percebeu que eu tinha feito cocô nas calças. O uniforme era vermelho, um short e camisa, estavam pretos.

Ela disse: *o que foi isso? Porque não foi no banheiro?”, eu disse que não tinha dado tempo. Ela mandou eu colocar minha bolsa atrás e ir andando pro carro com ela. Tudo tava dando certo até que um menino grande viu e começou a malhação, gritaria, risos. Um pesadelo. E mamãe brigava com eles, o que aumentava mais ainda minha desgraça. Entrei no carro aos prantos, ela colocou o tapete pra não sujar muito o banco, e fomos pra casa. Acho que esse foi o meu pior dia naquele colégio. Nenhum dos meus amiguinhos ficou sabendo e os grandes não lembravam de mim. No outro dia não tive problemas, mas aprendi a lição.

De 1981 até 1984 não guardo nada na memória de maneira significativa. Nenhum fato marcante. No ano de 1985, no entanto, quando eu fazia a quarta série, chegou um menino pra estudar comigo chamado Hugo Flávio. Era loiro, magro e muito bom em qualquer esporte que fazia. E principalmente, muito bom de briga. Quando a gente tava jogando futebol e os meninos da quinta série chegavam nos expulsando, ele não saia e ia pra cima pra trocar porrada com quem fosse. Uma vez três meninos o cercaram e ele não teve medo. Pegou a bola deles e chutou pro lado de for a da escola e pegou uma manga e disse que ia matar um deles. Recuaram. Hugo era uma fera. Eu via aquilo e não tinha coragem de ser como ele. Ele não tinha medo de nada. Uma vez pulou do segundo andar do colégio pro chão. Nos jogos Inter classes, ganhamos todos os esportes que Hugo jogou.

Nos tornamos grandes amigos e em todos os esportes que ele ia, ele colocava como condição eu ir também, senão ele não iria. Os pais dos alunos ficavam gritando o nome dele. Hugo era um desses espíritos livres. Muito mais maduro pra sua pouca idade física. Ele parecia saber de tudo. Nos finais de semana ele ia dormir lá em casa e íamos pro Jiqui Country Club com meu tio Valmir. Lá Hugo mandava no jogo também, até com adolescentes. E se mexessem comigo, Hugo pulava na frente. Era meu grande amigo dos dez anos.

Quando começou as aulas da quinta série, em 1986, fiquei sabendo que Hugo não moraria mais em Natal. Os pais haviam sido transferidos pra outra cidade. Além do amigo, eu perdia minha espécie de guarda costas. Isso iria mudar algo dentro de mim. Foi o primeiro impulso que eu tive de deixar de ser um bosta. Tinha um outro amigo que estudou comigo desde a primeira série, o nego Alysson. Esse gostava de brigar com todo mundo, todos os meses ele arrumava uma briga com alguém. Mas nunca comigo, até esse dia.

Estávamos jogando Adedonha. Entre uma aula e outra. Chegou a letra V, e era pra escolher um carro com essa letra. Eu disse “Variant”. Ele disse “Volks”. Eu disse Volks não é carro, é uma marca de carro. Ele disse que em Currais Novos chamavam de Volks. Eu fui me irritando e disse: “Volks é o seu cu!”.

Me arrependi na mesma hora que disse. Ele perguntou : “é o que, rapaz?”. Eu repeti. Ele ficou olhando pra mim, sem acreditar no que tava vendo. Então ele disse : “vou marcar aqui os pontos de Volks no papel e quero ver quem vai empatar”. Eu já tinha ido longe demais pra recuar. Eu avisei a ele : “se marcar, vou enfiar a mão na sua cara”. Agora não só ele se espantou, mas a classe toda. Ele tava sentado no braço da carteira na sala de aula. Minha visão ficou de túnel. Eu não ouvia mais nada, não via mais nada, só a mão dele, a caneta, o papel e onde eu iria bater caso ele escrevesse no papel os dez pontos relacionados à Volks.

E o desgraçado escreveu. Antes dele acabar, juntei toda minha força, fechei a mão e meti um murro na cara dele. Murro esse que eu nem sabia que sabia dar. Só havia treinado na cara só meu irmão, mas sempre sem ser pra machucar, sabe como é briga de irmão. Ele se desequilibrou um pouco e veio querer revidar. Era valente. Aliás, até hoje ainda é. Soltou um murro na minha direção, que bateu mas eu já não sentia. Fui soltando o braço na cara dele sem parar. Um atrás do outro. Até que o professor chegou e separou a briga e nos mandou pra sala da diretora do colégio, irmã Olivette.

Ficamos lá sentados e foram ligar pra nossas mães. Ele disse : “você sabe que eu ganhei né?”. Eu respondi: “ganhou um Caralho. Te dei uma surra, Otario. Todo mundo viu”. Ele disse : “você bateu primeiro, saiu na vantagem, mas acertei uns em você também”. Eu disse : “pode até ser, mas claramente eu te quebrei, todo mundo viu e você se fudeu, o valentão entrou no cacete”. Ele pensou um pouco e disse : “então vamos declarar empate. Pronto, foi empate”. Eu respondi: “empate um Caralho. Te quebrei todo, bobão”.

Quando não tinha uma testemunha daquele dia, ficava uma palavra contra a outra. Mas quando tinha, ele se calava. Nossas mães fizeram que a gente fizesse as pazes e nunca mais depois daquele dia, o nego Alysson veio procurar confusão comigo. Somos amigos até hoje. E até hoje ele insiste em dizer que venceu. Fela da puta. 

Mas quero falar é sobre a sensação de deixar de ser um bosta pra ser alguém respeitado. Daquele dia em diante minha vida mudou. A sensação de poder, de saber que só você pode vencer seu medo e ainda impor medo nos outros é muito gostosa pra um menino daquela idade. Claro que tudo tinha um limite. Minha valentia era pra os meninos da minha idade. Eu não era Hugo. Hugo era valente até pra adulto. Mas eu já estava contente. Fiquei pensando: “pena Hugo não tá ali pra ver aquela briga”.

Dali em diante eu andava com o peito estufado. E não acreditava como tinha sido tão fácil. Porque tinha aguentado tanta piada, mordida, zombaria por causa que eu usava óculos, me chamando de quatro olhos. Eu estava liberto. Agora sim, a vida podia vir com os dois braços levantados pois eu iria bater!!

Fabiano Holanda, Fevereiro de 2008, Mississauga, ON.

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