Em
2003, durante meu período de férias de verão, resolvi passar três meses em
Massachusetts, na casa do meu amigo Daniel Gazoni, o Mirel. Era a primeira vez
que eu entrava em um famoso ônibus da Greyhound, que eu tanto via nos filmes.
Saí da estação em Montreal e rumei em direção à Boston. Cheguei lá à noite e
ele foi me pegar na estação de ônibus da cidade. É incrível como o ar da
América é diferente de tudo. Eu não tenho dúvidas de que aquele país é
abençoado por Deus e pelo trabalho e esforço dos que criaram aquele lugar
maravilhoso, que não só abriga os cidadãos de lá, como tem emprego até para os
forasteiros, de toda parte do mundo.
Nós
percebemos que há um erro gigante na percepção das coisas à nível global.
Distorções que viram verdade de tanto que são repetidas. A maior delas é : o
canadense é o melhor povo do mundo e o americano é lixo, arrogante, pedante,
canalha. Nada mais falso do que isso. Nesse tempo todo que estou aqui eu pude
comprovar, desde os guardas da fronteira até a população em geral, é muito mais
fácil e agradável e easygoing lidar com o americano médio do que com o
canadense. Claro que existem exceções, mas não estou falando delas. Estou
falando de uma característica da população em geral. Merdas tem em todo o lado.
Filho da puta e formiga você encontra no planeta todo. E também os extremamente
gente boa você encontra nos dois lados. Falo de 90% do povo.
Todas
as vezes que fui nos Estados Unidos à passeio, fui bem tratado pelos guardas
das fronteiras. São amistosos, brincam, não criam problemas. Todas as vezes que
estava voltando pra casa no Canadá, tem um guarda de bosta pra encher a porra
do meu saco. Uma vez fizeram em desmanchar uma mala inteira no aeroporto. Mala
essa que eu tinha gasto três horas sentando em cima pra poder fechar. Sem
razão. Só gala mesmo. Outra vez de carro, colocaram até cachorro.
Fui
trabalhar numa empresa de mudança residencial que um cara da academia de Mirel
chamado Allan trabalhava. Já fui logo no dia seguinte. Não tinha celular e saí
cedo pro local indicado. Mirel me deixou lá e foi pro trabalho dele. Entramos
no caminhão às sete da manhã. A mudança se extendeu e terminamos à uma da
manhã. O Allan me deixou na casa de Mirel já perto das duas. Todo mundo doido
achando que eu tinha morrido. Confusão, me esculhambram, mas no outro dia eu
tava pronto pra trabalhar.
Foram
quase três meses de trabalho duro. O dono da empresa era um judeu, e tinha
alguns judeus por lá, mas a maioria era de brasileiros. O salário não era lá
muita coisa, pagavam dez dólares por hora. O melhor eram as gorjetas. Eles
davam 10% do valor da mudança de gorjeta pra dividir entre os trabalhadores.
Certa feita fizemos uma mudança pra um sargento do exército americano. Saiu de
Massachusetts pra Delaware. Deu 18 mil o valor. Ele deu 1800 dólares pra
dividir pra três. 600 dólares pra cada um. Naquele tempo era uma verdadeira
fortuna.
Mas
voltemos aos judeus. O dono era um ex-motorista de caminhão chamado Ron. Muito
gente boa. Mas lá tinha um judeu que não tinha o respeito de ninguém porque
arrumou desculpa pra não ir pro exército de lá. Então quem não ia pro exército
não era considerado macho. O nome da fera era Shmulik. Ele era o bosta da turma
judaica mas queria ser o Big boss dos brasileiros. Claro, a turma não perdoava.
Um
dia fomos fazer uma mudança pra uns estudantes de Harvard. E o Shmulik com
prancheta na mão começou a dar as ordens. Num determinado momento disse pra mim
: vá lá pra baixo e arrume todo o caminhão que daqui a uma hora a gente tá
acabando. Eu disse, yes sir. Fui lá embaixo, coloquei as mantas uma em cima da
outra, as dollies todas arrumadas e fui me deitar na boléia. Peguei no sono.
Com um tempo chega a turma. Ele perguntou : arrumou tudo? Eu disse : sim, tudo
arrumado. Na primeira curva que o caminhão fez, foi aquele barulho. Tudo caiu.
Ele perguntou gritando : você não amarrou as coisas? Eu disse : não, você me
disse pra arrumar, não foi disse pra amarrar nada!!
O
bicho ficou muito puto. Mas muito puto mesmo. Começou a gritar. No segundo
grito eu mandei ele se calar senão quando chegasse na empresa eu iria enfiar a
porrada no focinho dele. Os outros brasileiros disseram o mesmo. Ele não
acreditou. Pensou que quando chegasse lá teria outros judeus pra ajudá-lo.
Mesmo que tivesse ninguém iria ajudá-lo. Mas quando entramos com o caminhão, vi
que não tinha mais ninguém lá. Ele começou a ficar desesperado querendo descer
e fugir. Mas eu segurei a porta.
A
gente disse a ele. Tu vai apanhar, seu filho de uma puta. Só vamos deixar
passar se você subir no caminhão e ir arrumar tudo calado. Item por item. Ele
concordou. Quando ele subiu no caminhão, subimos atrás. Um dos caras, do
Paraná, pegou aquelas cordas americanas com ratchet e começou a amarrar o
bicho. A segurou e a anta ficou bem amarrada. Aí pegamos outra corda e
amarramos ele no caminhão. Passamos um tape na boca dele e o maluco pegou um
papel e escreveu : ILLEGAL ALIEN!! E colamos no meio dos peito dele.
Um
dos caras pegou o telefone e fingiu estar ligando pra imigração. Ah, o Shmulik
era ilegal. O cara disse : é da imigração? Tem um judeu aqui ilegal e
criminoso! Está amarrado! O endereço é tal e tal, na cidade de Allstom.
O
judeu se debatia, os olhos arregalados, querendo chorar… aí descemos do
caminhão, ligamos o carro e fingimos estar indo embora. A gente ficou escondido
do lado do caminhão. O nojento conseguiu se soltar. Quando vimos foi o jumento
pulando no chão e correndo, desesperado, pensando que a imigração estava vindo.
Ai caímos na risada e começamos a gritar. Ele parou e começou a bufar. Pensei
que fosse morrer. Mas a gente foi dizendo que dessa vez era só o aviso. Pra ele
andar na linha dali pra frente. Ele nada disse.
No
outro dia quando cheguei, não tinha nenhum brasileiro. Os caras já tinham saído
pra um trabalho mais longe e tinham ido mais cedo. Só estava o dono, Ron e mais
quatro judeus, incluindo Shmulik. Ron começou sério a me perguntar o que tinha
ocorrido. Ele já tinha ouvido a versão de shmulik. Eu contei a minha. Quando
cheguei na parte em que amarramos o puto e colocamos o sinal de ilegal nos
peitos dele, os judeus começaram a gargalhar sem parar. Mas riam e riam. Ron
quase virava a cadeira pra trás. Amarraram mesmo? E ria… daquele dia em diante,
o shmulik se fudeu mais do que já era. Virou o lixo do lixo.
Mas
tinha a outra parte de Boston. Meu primo Emílio fazia seu doutoramento no
Massachusetts Institute of Technology. Eu tive o prazer de passear pelos bancos
de tão renomada universidade. Localizada da cidade de Cambridge, onde eu
morava. Gostava muito de observar o Charles River da Longfellow Bridge. Tinha
uma pizzaria perto da casa de Mirel que tinha uma pizza de presunto e molho pesto
que nunca vi igual. Além de um delicioso cheese steak, de gosto incomparável. Meu
amigo Mirel além de dar aulas de jiu jitsu ainda era cozinheiro de um restaurante
na Harvard Square. Ele ficava no centro de uma mesa redonda com uma chapa quente,
fazendo vários pratos de uma vez, circulando na mesa chapa.
Penso
em voltar em Boston, visitar os amigos e tomar uma cerveja, dessa vez mais sossegado!!
Fabiano Holanda,
Janeiro de 2008, Mississauga, ON.

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