Tuesday, 8 June 2021

Pastos verdes do MIT

 

Em 2003, durante meu período de férias de verão, resolvi passar três meses em Massachusetts, na casa do meu amigo Daniel Gazoni, o Mirel. Era a primeira vez que eu entrava em um famoso ônibus da Greyhound, que eu tanto via nos filmes. Saí da estação em Montreal e rumei em direção à Boston. Cheguei lá à noite e ele foi me pegar na estação de ônibus da cidade. É incrível como o ar da América é diferente de tudo. Eu não tenho dúvidas de que aquele país é abençoado por Deus e pelo trabalho e esforço dos que criaram aquele lugar maravilhoso, que não só abriga os cidadãos de lá, como tem emprego até para os forasteiros, de toda parte do mundo.

Nós percebemos que há um erro gigante na percepção das coisas à nível global. Distorções que viram verdade de tanto que são repetidas. A maior delas é : o canadense é o melhor povo do mundo e o americano é lixo, arrogante, pedante, canalha. Nada mais falso do que isso. Nesse tempo todo que estou aqui eu pude comprovar, desde os guardas da fronteira até a população em geral, é muito mais fácil e agradável e easygoing lidar com o americano médio do que com o canadense. Claro que existem exceções, mas não estou falando delas. Estou falando de uma característica da população em geral. Merdas tem em todo o lado. Filho da puta e formiga você encontra no planeta todo. E também os extremamente gente boa você encontra nos dois lados. Falo de 90% do povo.

Todas as vezes que fui nos Estados Unidos à passeio, fui bem tratado pelos guardas das fronteiras. São amistosos, brincam, não criam problemas. Todas as vezes que estava voltando pra casa no Canadá, tem um guarda de bosta pra encher a porra do meu saco. Uma vez fizeram em desmanchar uma mala inteira no aeroporto. Mala essa que eu tinha gasto três horas sentando em cima pra poder fechar. Sem razão. Só gala mesmo. Outra vez de carro, colocaram até cachorro.

Fui trabalhar numa empresa de mudança residencial que um cara da academia de Mirel chamado Allan trabalhava. Já fui logo no dia seguinte. Não tinha celular e saí cedo pro local indicado. Mirel me deixou lá e foi pro trabalho dele. Entramos no caminhão às sete da manhã. A mudança se extendeu e terminamos à uma da manhã. O Allan me deixou na casa de Mirel já perto das duas. Todo mundo doido achando que eu tinha morrido. Confusão, me esculhambram, mas no outro dia eu tava pronto pra trabalhar.

Foram quase três meses de trabalho duro. O dono da empresa era um judeu, e tinha alguns judeus por lá, mas a maioria era de brasileiros. O salário não era lá muita coisa, pagavam dez dólares por hora. O melhor eram as gorjetas. Eles davam 10% do valor da mudança de gorjeta pra dividir entre os trabalhadores. Certa feita fizemos uma mudança pra um sargento do exército americano. Saiu de Massachusetts pra Delaware. Deu 18 mil o valor. Ele deu 1800 dólares pra dividir pra três. 600 dólares pra cada um. Naquele tempo era uma verdadeira fortuna.

Mas voltemos aos judeus. O dono era um ex-motorista de caminhão chamado Ron. Muito gente boa. Mas lá tinha um judeu que não tinha o respeito de ninguém porque arrumou desculpa pra não ir pro exército de lá. Então quem não ia pro exército não era considerado macho. O nome da fera era Shmulik. Ele era o bosta da turma judaica mas queria ser o Big boss dos brasileiros. Claro, a turma não perdoava.

Um dia fomos fazer uma mudança pra uns estudantes de Harvard. E o Shmulik com prancheta na mão começou a dar as ordens. Num determinado momento disse pra mim : vá lá pra baixo e arrume todo o caminhão que daqui a uma hora a gente tá acabando. Eu disse, yes sir. Fui lá embaixo, coloquei as mantas uma em cima da outra, as dollies todas arrumadas e fui me deitar na boléia. Peguei no sono. Com um tempo chega a turma. Ele perguntou : arrumou tudo? Eu disse : sim, tudo arrumado. Na primeira curva que o caminhão fez, foi aquele barulho. Tudo caiu. Ele perguntou gritando : você não amarrou as coisas? Eu disse : não, você me disse pra arrumar, não foi disse pra amarrar nada!!

O bicho ficou muito puto. Mas muito puto mesmo. Começou a gritar. No segundo grito eu mandei ele se calar senão quando chegasse na empresa eu iria enfiar a porrada no focinho dele. Os outros brasileiros disseram o mesmo. Ele não acreditou. Pensou que quando chegasse lá teria outros judeus pra ajudá-lo. Mesmo que tivesse ninguém iria ajudá-lo. Mas quando entramos com o caminhão, vi que não tinha mais ninguém lá. Ele começou a ficar desesperado querendo descer e fugir. Mas eu segurei a porta.

A gente disse a ele. Tu vai apanhar, seu filho de uma puta. Só vamos deixar passar se você subir no caminhão e ir arrumar tudo calado. Item por item. Ele concordou. Quando ele subiu no caminhão, subimos atrás. Um dos caras, do Paraná, pegou aquelas cordas americanas com ratchet e começou a amarrar o bicho. A segurou e a anta ficou bem amarrada. Aí pegamos outra corda e amarramos ele no caminhão. Passamos um tape na boca dele e o maluco pegou um papel e escreveu : ILLEGAL ALIEN!! E colamos no meio dos peito dele.

Um dos caras pegou o telefone e fingiu estar ligando pra imigração. Ah, o Shmulik era ilegal. O cara disse : é da imigração? Tem um judeu aqui ilegal e criminoso! Está amarrado! O endereço é tal e tal, na cidade de Allstom.

O judeu se debatia, os olhos arregalados, querendo chorar… aí descemos do caminhão, ligamos o carro e fingimos estar indo embora. A gente ficou escondido do lado do caminhão. O nojento conseguiu se soltar. Quando vimos foi o jumento pulando no chão e correndo, desesperado, pensando que a imigração estava vindo. Ai caímos na risada e começamos a gritar. Ele parou e começou a bufar. Pensei que fosse morrer. Mas a gente foi dizendo que dessa vez era só o aviso. Pra ele andar na linha dali pra frente. Ele nada disse.

No outro dia quando cheguei, não tinha nenhum brasileiro. Os caras já tinham saído pra um trabalho mais longe e tinham ido mais cedo. Só estava o dono, Ron e mais quatro judeus, incluindo Shmulik. Ron começou sério a me perguntar o que tinha ocorrido. Ele já tinha ouvido a versão de shmulik. Eu contei a minha. Quando cheguei na parte em que amarramos o puto e colocamos o sinal de ilegal nos peitos dele, os judeus começaram a gargalhar sem parar. Mas riam e riam. Ron quase virava a cadeira pra trás. Amarraram mesmo? E ria… daquele dia em diante, o shmulik se fudeu mais do que já era. Virou o lixo do lixo.

Mas tinha a outra parte de Boston. Meu primo Emílio fazia seu doutoramento no Massachusetts Institute of Technology. Eu tive o prazer de passear pelos bancos de tão renomada universidade. Localizada da cidade de Cambridge, onde eu morava. Gostava muito de observar o Charles River da Longfellow Bridge. Tinha uma pizzaria perto da casa de Mirel que tinha uma pizza de presunto e molho pesto que nunca vi igual. Além de um delicioso cheese steak, de gosto incomparável. Meu amigo Mirel além de dar aulas de jiu jitsu ainda era cozinheiro de um restaurante na Harvard Square. Ele ficava no centro de uma mesa redonda com uma chapa quente, fazendo vários pratos de uma vez, circulando na mesa chapa.

Penso em voltar em Boston, visitar os amigos e tomar uma cerveja, dessa vez mais sossegado!!

Fabiano Holanda, Janeiro de 2008, Mississauga, ON.

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