O Brasil por muito tempo foi motivo de piada no mundo. Havia uma anedota que dizia que existiam dois tipos de empresas no mundo. As competitivas e as brasileiras. O primeiro grupo contava com uma infra-estrutura invejável, tanto logística quanto financeira, pra captar investimentos, aumentar a produção, exportar, buscar novos mercados e se desenvolver. O segundo grupo, apesar de tristemente perseguirem os mesmos objetivos, trabalhavam sempre com a meta inicial de reduzir custos e possuíam a eterna expectativa, ainda que pequena, de entrar pro time das competitivas.
Esses
custos eram incluídos dentro do que se chamava de “Custo Brasil”.
Quando foi feita a abertura económica, não se pensou nesse aspecto,
ou pensaram e não se preocuparam. Se vira, negão, foi o grito do governo. Mas chegou um
ponto que esse custo Brasil chegou a níveis insuportáveis para as
empresas brasileiras, diante da concorrência externa.
Esses
custos começavam com as taxas de juros que teimavam em se manter na
casa dos 30% ao ano, mesmo no começo do governo FHC, onde a situação
economica apontava pro caminho contrário. Com a inflação em
queda, exportação abaixo dos padrões internacionais e fluxo de
captação de empréstimos decrescente, não existia nenhum motivo
pro governo insistir na prática de juros altos, mas o Banco Central
alegava sempre que esse era o preço a se pagar pela estabilidade
economica.
Alem disso, tínhamos ainda as altas cargas
tributárias em toda a cadeia produtiva, elevados impostos
portuários, encargos sociais records, falta de infra-estrutura em
transporte e telecomunicações e ensino precário. Em outras
palavras, a maioria dos problemas era de ordem governamental e isso
fazia com que as empresas brasileiras ficassem na rabeira da economia
globalizada. Dentre todas essas doenças, o câncer mesmo era a alta
taxa de juros, que fez com que mais de 10 mil empresas fechassem as
portas em 1995.
Para escapar dos juros altos, vários setores
da indústria nacional foram pedir dinheiro emprestado fora do país,
como foi o caso da indústria automobilística. Todas as montadoras
sem exceção, pegaram dinheiro fora do país pra financiar os carros
no Brasil.
Os juros praticados eram praticamente uma agiotagem
governamental. Uma empresa brasileira vendeu 43 milhões de dólares
de maquinário, só que o comprador queria comprar financiado e então
o negócio não foi fechado. Tudo isso porque alem de tudo, o prazo
máximo de financiamento no Brasil era de 5 anos. O comprador foi
então na Alemanha e comprou o mesmo maquinário com 10 anos de
prazo, com taxa de juros com a metade do tamanho da oferecida pela
empresa brasileira. No final de tudo, ainda conseguiu um preço 26%
mais barato do que se comprasse no Brasil.
Então, o que faz o
pobre coitado brasileiro, que mesmo que se tenha uma tecnologia mais
avançada em determinado setor, fica de mãos presas por causa do
governo? O problema era a distância enorme entre a taxa básica
de juros Selic e a taxa de juros pra quem pegava o dinheiro no balcão
do banco. Essa diferença é chamada de “Spread”. De acordo com o
Banco Central, eram dois os motivos pro exagero do Spread. O primeiro
motivo era os recolhimentos compulsórios, que são os pagamentos
obrigatórios que os bancos fazem ao Banco Central, que alcançaram
proporções enormes, por regra do próprio governo.
Naquela
época, em cada depósito que entrava nos bancos, 60% se transformava
em compulsório. Isso significa dizer que a cada vez que alguém
depositava 100 reais num banco, o banco entregava 60 reais ao Banco
Central e ficava apenas com 40 reais.
O segundo motivo era o alto
nível de inadimplencia, que fazia com que os bancos ficassem mais
seletivos. Então faça as contas na sua cabeça. Baseado nisso, com
a margem de lucro reduzida nas operações financeiras e com os
tomadores sendo velhacos, os banqueiros não pensaram duas vezes
antes de cobrar taxas exorbitantes de juros, como forma de protegerem
seus lucros. Somente de 1994 pra 1995, os bancos deixaram de
emprestar 5 bilhões de reais.
Pra completar a “ajuda” aos
brasileiros, os custos portuários tornavam a exportação de uma
tonelada de aço até 38 dólares mais cara que os padrões
internacionais. No caso da soja, o preço do FOB (frete, seguro e
custo de venda da mercadoria, que são de responsabilidade do
vendedor) do porto de Santos era de 230 reais a tonelada, mais ou
menos 10% do valor da tonelada e 45 dólares por tonelada pro
transporte. Alem disso, os impostos consumiam outros 40 dólares por
tonelada.
Se pegarmos os Estados Unidos na mesma época, as
despesas portuárias chegavam a 2 dólares por tonelada e 8% do preço
da tonelada pro transporte e não possuíam esse imposto. Da pra
sentir a diferença brutal?
Alem disso, a falta de
infra-estrutura em transporte acabava de vez com a competitividade.
Por exemplo, num trecho de 120 quilometros de estrada mal conservada
que um caminhão leva 8 horas pra fazer o percurso e que levaria 2
horas numa estrada conservada, você precisa de quatro caminhões pra
fazer o serviço de um.
Em resumo, a infra-estrutura era uma pedra
no caminho dos empresários e a questão tributária era um muro. O
custo com impostos pra produção de uma lata de óleo vegetal no
Brasil girava em torno dos 32% do preço final do produto. Na
Espanha, não passava de 5%. O carro popular recolhia 27% de impostos
enquanto que nos Estados Unidos esse mesmo imposto não passava de
6%.
Os impostos cumulativos eram a cereja do bolo. A exemplo o
PIS-PASEP e as contribuições sobre o trabalho. Eram a famosa
tributação em cascata, e nada mais eram impostos que vão se
colocando em cada elo da cadeia produtiva e aumentam bastante o custo
final.
De cada 10 calças jeans fabricadas no Brasil, três
iam pra pagar os impostos e uma pra pagar os encargos sociais. Os
encargos sobre a folha de pagamento no Brasil totalizavam a marca de
102%. Ou seja, um funcionário que recebia um salário de 100 reais,
custava pra empresa 202 reais.
Fabiano Holanda, Agosto de 2008, Mississauga, ON.

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