Meu amigo Hindenberg Dutra me disse certa vez, em mesa de bar na saudosa Picanha do Dudé, na avenida Xavier da Silveira, em Morro Branco : "Holanda, pra se criar uma reputação, leva uma vida toda. Pra se destruir, basta dez segundos". Na hora não dei importância, ou não demonstrei, mas guardei aquilo comigo. Já faz uns dez anos isso. Ou mais.
Hoje eu me pergunto o que é reputação. O que você precisa fazer pra manter a sua intacta? Ou qual preço precisa pagar? Reputação me parece estar intimamente ligada com um comportamento geral aceito pela massa conformista e seguidora de padrões.
Qual a sua reputação? Só de pensar nisso eu sinto uma claustrofobia, como se minha camisa começasse a me enforcar. Nos tempos da saudosa ETFRN, minha reputação perante os revolucionários de lá era de um sujeito considerado burguês. Tudo que saia da minha boca era merda. Não havia ninguém com pensamento contrário. Haviam is neutros e os esquerdistas. Os neutros são mornos, não valem de nada. E eu não possuía arsenal teórico e nem prático pra construir minha reputação de um burguês inteligente. Era apenas um burguês burro. Fútil. Um famoso Zé buceta.
Parei de andar com essa turma quando Zé Soares Junior saiu de lá. O pessoal da minha sala não falava em política. Ótimo. Terminei o segundo grau com outra reputação, como bem disse meu amigo Abelhão certa feita: "Esse cara é o cara mais imprevisível que conheço, ninguém sabe qual será sua reação sobre nada".
Pois bem, ser imprevisível é ter uma reputação? Reputação imprevisível? Em paralelo à minha vida estudantil, eu tinha minha vida pessoal. Minha turma era chamada Queima Raparigal. Nós andávamos pelos cantos com o objetivo de curtir mas muitas vezes tinha muita bebedeira e muita briga no caminho. Criei essa reputação também. Era algo que eu queria? Que eu gostava? Na época, eu achava legal. Era um quê de "enfant terrible", embora eu não fosse mais tão enfant assim.
Quando adentrei os bancos da UFRN, mais política. Mas lá tinha aliados. Me senti mais à vontade de colocar pra fora meus conhecimentos políticos e econômicos, do meu mestre Roberto Campos. Lá eu contava com Gustavo Zumel e Gustavo Sousa ao meu lado. João Costa na época era marxista, o que até hoje duvido ter deixado de ser. Criei lá minha reputação de direitista. E feliz.
Na minha vida particular, eu treinava jiu jitsu, em uma época em que Natal vivia uma batalha campal. Mais uma vez essa era minha reputação. Pouca gente sabia que eu era estudante de administração de empresas na UFRN e muito menos a quantidade abissal de leituras liberais que eu praticava.
Quando eu comecei a me importar em distanciar minha imagem de um homem selvagem e me aproximar de um homem lido, desisti. Eu decidi que minha reputação teria que caber dentro dessa demarcação. Um homem selvagem e lido. Um homem que está pronto pra debater com você mas que também está pronto pra meter a mão na sua cara, caso preciso for. Voltaria então à imprevisibilidade prevista pelo Abelhão?
O fato é que hoje eu me preocupo mais em ter dignidade do que uma dita reputação pessoal. Uma reputação profissional é de fato muito importante, principalmente aqui no Canadá, onde tudo tem um peso dobrado. Mas a minha reputação pessoal é algo que de fato eu não me preocupo.
A vida é só uma e prefiro dez mil vezes ir dormir sabendo que disse o que quis e não o que queriam que eu dissesse. Sabendo que fiz o que quis e não o que queriam que eu fizesse. Se isso diminui minha reputação ou aumenta, paciência. E espero que isso siga assim até o dia em que eu morrer.
Fabiano Holanda, Novembro de 2008, Mississauga.






