Tuesday, 31 August 2021

Reputação



Meu amigo Hindenberg Dutra me disse certa vez, em mesa de bar na saudosa Picanha do Dudé, na avenida Xavier da Silveira, em Morro Branco : "Holanda, pra se criar uma reputação, leva uma vida toda. Pra se destruir, basta dez segundos". Na hora não dei importância, ou não demonstrei, mas guardei aquilo comigo. Já faz uns dez anos isso. Ou mais.


Hoje eu me pergunto o que é reputação. O que você precisa fazer pra manter a sua intacta? Ou qual preço precisa pagar? Reputação me parece estar intimamente ligada com um comportamento geral aceito pela massa conformista e seguidora de padrões.


Qual a sua reputação? Só de pensar nisso eu sinto uma claustrofobia, como se minha camisa começasse a me enforcar. Nos tempos da saudosa ETFRN, minha reputação perante os revolucionários de lá era de um sujeito considerado burguês. Tudo que saia da minha boca era merda. Não havia ninguém com pensamento contrário. Haviam is neutros e os esquerdistas. Os neutros são mornos, não valem de nada. E eu não possuía arsenal teórico e nem prático pra construir minha reputação de um burguês inteligente. Era apenas um burguês burro. Fútil. Um famoso Zé buceta.


Parei de andar com essa turma quando Zé Soares Junior saiu de lá. O pessoal da minha sala não falava em política. Ótimo. Terminei o segundo grau com outra reputação, como bem disse meu amigo Abelhão certa feita: "Esse cara é o cara mais imprevisível que conheço, ninguém sabe qual será sua reação sobre nada".


Pois bem, ser imprevisível é ter uma reputação? Reputação imprevisível? Em paralelo à minha vida estudantil, eu tinha minha vida pessoal. Minha turma era chamada Queima Raparigal. Nós andávamos pelos cantos com o objetivo de curtir mas muitas vezes tinha muita bebedeira e muita briga no caminho. Criei essa reputação também. Era algo que eu queria? Que eu gostava? Na época, eu achava legal. Era um quê de "enfant terrible", embora eu não fosse mais tão enfant assim.


Quando adentrei os bancos da UFRN, mais política. Mas lá tinha aliados. Me senti mais à vontade de colocar pra fora meus conhecimentos políticos e econômicos, do meu mestre Roberto Campos. Lá eu contava com Gustavo Zumel e Gustavo Sousa ao meu lado. João Costa na época era marxista, o que até hoje duvido ter deixado de ser. Criei lá minha reputação de direitista. E feliz.


Na minha vida particular, eu treinava jiu jitsu, em uma época em que Natal vivia uma batalha campal. Mais uma vez essa era minha reputação. Pouca gente sabia que eu era estudante de administração de empresas na UFRN e muito menos a quantidade abissal de leituras liberais que eu praticava.


Quando eu comecei a me importar em distanciar minha imagem de um homem selvagem e me aproximar de um homem lido, desisti. Eu decidi que minha reputação teria que caber dentro dessa demarcação. Um homem selvagem e lido. Um homem que está pronto pra debater com você mas que também está pronto pra meter a mão na sua cara, caso preciso for. Voltaria então à imprevisibilidade prevista pelo Abelhão?


O fato é que hoje eu me preocupo mais em ter dignidade do que uma dita reputação pessoal. Uma reputação profissional é de fato muito importante, principalmente aqui no Canadá, onde tudo tem um peso dobrado. Mas a minha reputação pessoal é algo que de fato eu não me preocupo.


A vida é só uma e prefiro dez mil vezes ir dormir sabendo que disse o que quis e não o que queriam que eu dissesse. Sabendo que fiz o que quis e não o que queriam que eu fizesse. Se isso diminui minha reputação ou aumenta, paciência. E espero que isso siga assim até o dia em que eu morrer.


Fabiano Holanda, Novembro de 2008, Mississauga. 

Friday, 27 August 2021

O primeiro Roland Garros

 


 Ninguém nunca imaginava que um surfista doidão de 20 anos de idade iria ser o vencedor de um dos torneios mais clássicos do Grand Slam (os outros são Wimbledon, o aberto dos Estados Unidos e o aberto da Austrália) do tennis mundial. Quase ninguém no Brasil tinha a mínima ideia de quem era Gustavo Kuerten, que depois ficaria conhecido como Guga, no país dos apelidos curtos.


Guga chegou ao torneio de 1997 como mais um entre as dezenas de tenistas anónimos que todos os anos se inscrevem pra competição. E Guga foi abatendo um a um que aparecia na frente dele. Ganhou do russo Kafelnikov e do austríaco Thomas Muster, que tinham sido os campeões do torneio em 1996 e 1995, respectivamente. Também ganhou do belga Filip Dewulf na semi final e de Sergi Bruguera na final. Bruguera havia ganho o torneio em 1993 e 1994. No jogo de estreia, ele jogou contra o checo Slava Dosedel.

Na época que Guga ganhou em Roland Garros, Pete Sampras era o número 1 do mundo. Guga era o numero 66. E apesar de Guga ser desconhecido pela torcida e pela imprensa, ele não era tão desconhecido entre os tenistas, afinal havia vencido em outro torneio de 1997 o americano André Agassi e o sul-africano Wayne Ferreira, ambos que estavam entre os 10 melhores do mundo.

Jimmy Arias, ex-tenista americano, disse que fazia tempo que não via um novato com um jogo tão consistente. John McEnroe, também ex-tenista americano, um dos maiores de todos os tempos, disse que Guga tinha talento e personalidade pra ficar no topo. Nessa época, Guga tinha o decimo sétimo saque mais potente do mundo, alcançando 206 kilometros por hora. O mais potente era o do australiano Mark Philipoussis, que chegava a atingir 220 kilometros por hora.

Esse seria o primeiro e mais importante titulo de Roland Garros conquistado por Guga, na minha opinião. Ganhar o segundo e o terceiro foi demais, mas não se comparou à emoção desse primeiro. 
 
Fabiano Holanda, Outubro de 2008, Mississauga.

A morte da Guerra Fria

 


Em 1997, coube aos presidentes Bill Clinton e Boris Ieltsin darem fim ao último capítulo que envolvia a Guerra fria. Foram à Paris, e tendo Jacques Chirac como anfitrião, Ieltsin assinou, por falta de alternativa, um acordo com a OTAN, que permitia a aliança se expandir sobre os países do antigo Pacto de Varsóvia, que vinha a ser a contrapartida comunista da OTAN. Como premio de consolação, a OTAN deixou a Rússia participar das suas reuniões, com direito à palavra mas não à veto.


Oficialmente, acabavam com o período turbulento, que tinha um perigo real de uma guerra nuclear planetária. Período esse que foi moldado a partir da Conferencia de Ialta, em 1945, que dividiu a Europa em duas zonas de influência e que foram respeitadíssimas até que União Soviética fechou as portas. E mesmo depois dela ter fechado as portas, a OTAN só se arriscou de expandir rumo ao leste após a Rússia ter assinado esse acordo. Clinton estava lá numa posição de vencedor e Ieltsin, como se tivesse assinando uma rendição honrosa. Imagine aí quanto comunista não deve ter ficado doido. Todos com os furicos coçando.


Esse acordo mexeu nas fronteiras militares europeias, traçadas por Roosevelt, Churchill e Stalin, a partir das ruínas da II Guerra. O carniceiro Stalin deve ter ficado muito puto, pois por falta de recursos financeiros, Ieltsin trocava a assinatura do acordo por recursos do ocidente que seriam injetadas na economia russa, que estava agonizando.


Decisão essa que não agradou também aos generais russos. Pra acalmar os generais, a Rússia pediu a OTAN pra que colocasse no acordo que os países que faziam fronteiras com a Rússia não poderiam receber armas nucleares.


Só pra se ter uma ideia do que representa ser da OTAN (NATO, em inglês), um país sendo membro (hoje conta com 28 membros) fica sob o guarda-chuva ocidental, que de acordo com o artigo 5 da organização, diz que qualquer ataque a um membro do pacto deve ser entendido como agressão a todos os restantes. Em 1956, os soviéticos entraram em Budapeste pra parar um levante libertário e em 1968, entraram em Praga com o mesmo propósito. O ocidente nada pôde fazer, por causa das divisões militares traçadas anteriormente.


No fim, a Rússia entrou pro G7, a organização económica das nações mais industrializadas. Com a adesão da Rússia, o grupo foi renomeado pra G8. A Duma, o parlamento russo, chamou esse tratado de Ieltsin de “a derrota da Rússia na última batalha da Guerra Fria”.No fim, foi preciso um presidente raparigueiro e outro cachaceiro pra porem fim em toda essa paudurecencia mundial. Nem sempre é preciso chamar os profissionais...


Fabiano Holanda, Setembro de 2008, Mississauga.


Wednesday, 25 August 2021

O Custo Brasil

 

 

O Brasil por muito tempo foi motivo de piada no mundo. Havia uma anedota que dizia que existiam dois tipos de empresas no mundo. As competitivas e as brasileiras. O primeiro grupo contava com uma infra-estrutura invejável, tanto logística quanto financeira, pra captar investimentos, aumentar a produção, exportar, buscar novos mercados e se desenvolver. O segundo grupo, apesar de tristemente perseguirem os mesmos objetivos, trabalhavam sempre com a meta inicial de reduzir custos e possuíam a eterna expectativa, ainda que pequena, de entrar pro time das competitivas.


Esses custos eram incluídos dentro do que se chamava de “Custo Brasil”. Quando foi feita a abertura económica, não se pensou nesse aspecto, ou pensaram e não se preocuparam. Se vira, negão, foi o grito do governo. Mas chegou um ponto que esse custo Brasil chegou a níveis insuportáveis para as empresas brasileiras, diante da concorrência externa.

Esses custos começavam com as taxas de juros que teimavam em se manter na casa dos 30% ao ano, mesmo no começo do governo FHC, onde a situação economica apontava pro caminho contrário. Com a inflação em queda, exportação abaixo dos padrões internacionais e fluxo de captação de empréstimos decrescente, não existia nenhum motivo pro governo insistir na prática de juros altos, mas o Banco Central alegava sempre que esse era o preço a se pagar pela estabilidade economica.

Alem disso, tínhamos ainda as altas cargas tributárias em toda a cadeia produtiva, elevados impostos portuários, encargos sociais records, falta de infra-estrutura em transporte e telecomunicações e ensino precário. Em outras palavras, a maioria dos problemas era de ordem governamental e isso fazia com que as empresas brasileiras ficassem na rabeira da economia globalizada. Dentre todas essas doenças, o câncer mesmo era a alta taxa de juros, que fez com que mais de 10 mil empresas fechassem as portas em 1995.

Para escapar dos juros altos, vários setores da indústria nacional foram pedir dinheiro emprestado fora do país, como foi o caso da indústria automobilística. Todas as montadoras sem exceção, pegaram dinheiro fora do país pra financiar os carros no Brasil.

Os juros praticados eram praticamente uma agiotagem governamental. Uma empresa brasileira vendeu 43 milhões de dólares de maquinário, só que o comprador queria comprar financiado e então o negócio não foi fechado. Tudo isso porque alem de tudo, o prazo máximo de financiamento no Brasil era de 5 anos. O comprador foi então na Alemanha e comprou o mesmo maquinário com 10 anos de prazo, com taxa de juros com a metade do tamanho da oferecida pela empresa brasileira. No final de tudo, ainda conseguiu um preço 26% mais barato do que se comprasse no Brasil.

Então, o que faz o pobre coitado brasileiro, que mesmo que se tenha uma tecnologia mais avançada em determinado setor, fica de mãos presas por causa do governo? O problema era a distância enorme entre a taxa básica de juros Selic e a taxa de juros pra quem pegava o dinheiro no balcão do banco. Essa diferença é chamada de “Spread”. De acordo com o Banco Central, eram dois os motivos pro exagero do Spread. O primeiro motivo era os recolhimentos compulsórios, que são os pagamentos obrigatórios que os bancos fazem ao Banco Central, que alcançaram proporções enormes, por regra do próprio governo.

Naquela época, em cada depósito que entrava nos bancos, 60% se transformava em compulsório. Isso significa dizer que a cada vez que alguém depositava 100 reais num banco, o banco entregava 60 reais ao Banco Central e ficava apenas com 40 reais.


O segundo motivo era o alto nível de inadimplencia, que fazia com que os bancos ficassem mais seletivos. Então faça as contas na sua cabeça. Baseado nisso, com a margem de lucro reduzida nas operações financeiras e com os tomadores sendo velhacos, os banqueiros não pensaram duas vezes antes de cobrar taxas exorbitantes de juros, como forma de protegerem seus lucros. Somente de 1994 pra 1995, os bancos deixaram de emprestar 5 bilhões de reais.

Pra completar a “ajuda” aos brasileiros, os custos portuários tornavam a exportação de uma tonelada de aço até 38 dólares mais cara que os padrões internacionais. No caso da soja, o preço do FOB (frete, seguro e custo de venda da mercadoria, que são de responsabilidade do vendedor) do porto de Santos era de 230 reais a tonelada, mais ou menos 10% do valor da tonelada e 45 dólares por tonelada pro transporte. Alem disso, os impostos consumiam outros 40 dólares por tonelada.

Se pegarmos os Estados Unidos na mesma época, as despesas portuárias chegavam a 2 dólares por tonelada e 8% do preço da tonelada pro transporte e não possuíam esse imposto. Da pra sentir a diferença brutal?

Alem disso, a falta de infra-estrutura em transporte acabava de vez com a competitividade. Por exemplo, num trecho de 120 quilometros de estrada mal conservada que um caminhão leva 8 horas pra fazer o percurso e que levaria 2 horas numa estrada conservada, você precisa de quatro caminhões pra fazer o serviço de um.


Em resumo, a infra-estrutura era uma pedra no caminho dos empresários e a questão tributária era um muro. O custo com impostos pra produção de uma lata de óleo vegetal no Brasil girava em torno dos 32% do preço final do produto. Na Espanha, não passava de 5%. O carro popular recolhia 27% de impostos enquanto que nos Estados Unidos esse mesmo imposto não passava de 6%.

Os impostos cumulativos eram a cereja do bolo. A exemplo o PIS-PASEP e as contribuições sobre o trabalho. Eram a famosa tributação em cascata, e nada mais eram impostos que vão se colocando em cada elo da cadeia produtiva e aumentam bastante o custo final.

De cada 10 calças jeans fabricadas no Brasil, três iam pra pagar os impostos e uma pra pagar os encargos sociais. Os encargos sobre a folha de pagamento no Brasil totalizavam a marca de 102%. Ou seja, um funcionário que recebia um salário de 100 reais, custava pra empresa 202 reais. 

 Fabiano Holanda, Agosto de 2008, Mississauga, ON. 






Friday, 20 August 2021

As benditas e às vezes malditas vending machines

 

A ideia é excelente. Coloca-se uma maquina que vende seus produtos sem precisar pagar um funcionário pra estar ao lado mostrando-os o tempo inteiro. E pro cliente também parece ser boa. Você compra o produto sem precisar aturar um vendedor chato ou ter que falar com ninguem. Mas na minha infância e adolescência eu não via essas maquinas em Natal. Porque não via? Sempre fomos um país de desonestos ou bárbaros ou homens das cavernas? O Matuto achava que tinha um anão dentro da máquina que contava o dinheiro e dava o produto escolhido. E até passava o troco.


Os amigos que foram a Disney quando eu era adolescente, pois só fui depois de velho, voltavam dos Estados Unidos maravilhados, contando sobre as maquinas onde se colocava uma moeda e uma porta se abria e você podia pegar todos os jornais, caso quisesse. Outras maquinas vendiam absorventes femininos e os caras faziam moedas de gelo somente pra pegar os absorventes e jogar no lixo. Aquela mentalidade adolescente misturada com terceiro mundo, que dá uma mistura explosiva.


Mas respondendo, não tínhamos as vending machines no Brasa não porque fossemos atrasados tecnologicamente ou porque vivíamos na selva, e sim pois com inflação alta, a operacionalização dessas maquinas não era possível. Imagine, ter que reajustar o preço de todas as maquinas todos os dias e mais, quantas moedas eram necessárias pra comprar uma Coca-Cola no final de um ano? Talvez com a quantidade de moedas de uma Coca-Cola, a máquina já ficasse cheia. Somente com a estabilidade monetária que veio junto com o Plano Real foi que se tornou possível a comercialização e utilização desses artefatos.


Só pra se ter uma ideia da diferença existente entre Brasil e Estados Unidos em 1996. Lá, existiam cerca de 7 milhões de máquinas e no Brasil, na mesma época, apenas 15 mil máquinas no país inteiro. Dá pra se ter uma ideia do lucro que se deixar de ter quando as finanças do país estão em desordem. As primeiras vending machines americanas vendiam chicletes nas plataformas de trens, já pelos idos de 1890.


Eu fazia muito uso dessas maquinas aqui no Canada ate que elas começaram a engolir minhas moedas e somando o tempo que a pessoa fosse ligar pro numero e que uma pessoa fosse atender e não resolver seu problema, a pessoa já tinha quebrado a maquina inteira.


Quando fiz uns trabalhos na Magna, fábrica de peças de carros, tinha uma máquina lá que um cara colocou um cartaz dizendo: “Não coloque suas moedas aí, essa máquina é má, ele engole todas elas”. O dono da máquina arrancava, mas no outro dia estava lá de novo o cartaz, ate que o dono desistiu e deixou o cartaz lá mesmo, que arrancava risos de todos e afastava os clientes.

Em outro lugar que trabalhei, na Taro Pharmaceutical, as maquinas tinham sanduíches, frutas, e outras coisas frescas. O sujeito trocava todo dia. Ou dizia que trocava. E ao lado da maquina, tinha uma maquina de trocar dinheiro por moedas, pra facilitar o uso da vending machine em si. Hoje em dia eu não as uso mais, pois só bebo Coca com gelo e as maquinas não vendem assim.

Pensei até em investir nessas máquinas, mas depois de uma investigação mais profunda, percebi que elas não farão parte do futuro e o trabalho pra mantê-las cheias é grande em comparação ao lucro obtido.

Tem uma piada que diz que Manuel, um português de Lisboa, viu uma vending machine pela primeira vez em Toronto. Colocou um dólar e saiu uma Coca-Cola de dentro. Colocou outro dólar e saiu outra Coca-cola. E foi colocando dólares sucessivamente e saindo mais Cocas. Ia passando outro gajo e vou aquela cena e perguntou: “Ô Manuel, que estás a fazer?”. “Ora Caralho, não estás a ver que cada dólar que coloco ganho uma Coca-Cola? Enquanto estiver ganhando, continuo jogando, pá!!”

 Fabiano Holanda, Julho de 2008, Mississauga, ON.

A difícil e deliciosa tarefa de educar

A tarefa mais maravilhosa e difícil do mundo ao mesmo tempo é educar os seus filhos. O grande cheirador de pó chamado Freud já disse há mais de um século atrás: “A educação é uma dessas profissões em que errar é inevitável”. Assim, conclui-se que os pais perfeitos não existem. Mas eu acho que os pais devem estar sempre disponíveis para que a criança possa recorrer a eles nos momentos em que precisa de ajuda ou simplesmente quando querem dividir suas descobertas sobre o mundo.

Eu fico bobo demais com a inteligência das minhas filhas. Só não fico bobo com a inteligência do seu filho porque não acompanho. Mas a cada segundo sou surpreendido com o que escuto, vejo e presencio. Um dia, eu mostrei a fábrica da Ford que tem na Queen Elizabeth Way, fronteira de Oakville com Mississauga. Todas as vezes, após esse dia, quando elas vêem o símbolo da Ford na parede da fábrica, gritam: “Papai, olha a Ford”. Dias depois eu adicionei a informação que a Ford fazia carros. A partir dai, foi: “Papai, olha a Ford. A Ford faz carros.” Dois anos de idade. Quando tive aula do professor Allan Chanlat, no mestrado, ele dizia : quando tiverem filhos, observem a evolução diária, é maravilhoso. Lembro sempre dele.


Elas conhecem quando vai chegando em casa e deixo elas dizerem o caminho… E dizem. Por aqui, por ali. Desde que conseguem falar, ao me verem pela primeira vez no dia gritam: “Bom dia, papai”. Ou quando espirro: “Saúde, papai”. No que eu digo: “Obrigado”, e lá vem um: “De nada, papai”.

Eu acredito piamente que qualidade de tempo gasto com seus filhos é infinitamente mais importante do que quantidade. Passo o dia inteiro sem ter contato com as meninas, e mesmo assim, acredito que o tempo que passo com elas, elas ficam bastante satisfeitas. Claro, estou sempre em eterna disputa de atenção com Max and Ruby ou com os Backyardigans, que diga-se de passagem, foram ambos criados aqui em Toronto.


Mas, se olharmos na história, na Idade Média, os adultos tratavam as crianças como seres adultos, e estas recebiam a mesma atenção que era dispensada aos animais domésticos. Se bem que hoje em dia, muitos canadenses dão mais atenção aos animais de estimação do que aos próprios filhos, mas isso é outra história. Pedagogia comum na Idade média era levar as crianças pra assistir a execução de criminosos, pra aprenderem que o crime não compensa.


As crianças só foram reconhecidas como um ser diferente do adulto entre os séculos quinze e dezesseis. E só então pais e filhos se tornaram mais próximos efetivamente. Mas somente no final do século 17, com a disseminação da escola, que a visão dos pais mudou com relação aos pequenos. Os pais passaram a conviver mais com os filhos, que até então eram próximos efetivamente, mas eram considerados como enfeites. No século 19, a família passa a se organizar em torno dos filhos. A criança sai do anonimato e passa a polarizar a atenção com os adultos. A educação aqui nesse tempo é severa.


Em meados do século 20, a urbanização, o anticoncepcional e a carreira feminina tornaram a maternidade como uma escolha e não uma fatalidade como antes. As mulheres demoram mais pra ter filhos, mas quando decidem que chegou a hora, colocam uma carga emocional e um afeto muito maior do que as mulheres de antes. Nas teorias educacionais de hoje, dizem que as crianças precisam brincar e muito.

Apesar de largamente difundido que a interação dos filhos com a mãe é muito importante, a proximidade do pai é fundamental para o desenvolvimento cognitivo da criança. Eu acredito que o pai tem que participar. Nesse sentido, eu levo as meninas pra escola e pego todo dia. Todos os visitas médicas que elas foram na vida, eu estava presente. Todas as vacinas, eu segurei-as. Toda noite, eu faço questão de ficar um pouco com elas até elas dormirem. E com certeza, irei monitorar o desempenho escolar delas.


Acredito que a palavra-chave de uma educação mais distante possível do fracasso chama-se “atenção”. Os filhos estão sempre passando recados sutis aos pais. As crianças pequenas possuem grande dificuldade de explicar o que lhes dá aflição, então uma simples brincadeira pode deixar você ficar sabendo de muita coisa.

Esse acompanhamento, porem, não pode ser uma obrigação. Tem que ser prazeroso pros pais, pois se a criança percebe que os pais ficam entediados quando estão com elas, o resultado pode ser pior do que se você ficar quieto no seu canto. Se não está afim, não brinque, afinal a criança também tem que aprender que as vezes irão encontrar um “não” pela vida delas.


Pra quem não sabe, a criança precisa de carinho e afeto e de se sentir amada. Toda vida que puder, o pai ou a mãe deve deixar isso claro. Nem que você queira ficar no computador escrevendo, como estou fazendo agora, as minhas filhas estão perto de mim desenhando. Ou vendo TV sentadas no meu colo. E ganham vários beijos o tempo todo. E eu também ganho os meus.


A rotina é muito importante, pois do ponto de vista da criança que está crescendo, o normal é extraordinário. A criança deve saber a qualquer momento onde poderão encontrar os pais. Na hora de acordar, as meninas só pararam de acordar chorando quando iam no meu quarto e comprovavam que eu estava ali.


Outra coisa que é importante notar, é que a criança aprende por modelo e não por discurso. As pequenas mentiras fazem bastante mal. Ao invés de você dizer a verdade, que vai ao trabalho e que volta de noite, você mente e diz que vai ali e volta já. Ai quando volta, diz que não queria ter ido trabalhar, coisa e tal. Ai a criança irá fazer de tudo pra que você não vá pro trabalho, afinal, você nem gosta mesmo. Mas a verdade tem que ser dita, pois é uma forma das crianças serem apresentadas aos fatos da vida.


Para viver em clima de segurança, a criança precisa de regras, pois as regras ajudam a dar um senso de referencia, a partir do qual eles aprenderão a organizar o mundo deles. Não impor regras consiste num dos maiores pecados dos pais modernos. O não é uma palavra protetora. Claro que os filhos não gostam e dão show. Não importa. Democracia não funciona em educação.


Não se deve também lotar a agenda dos filhos como forma de fazer com que elas não sintam a falta dos pais. Eles continuam sentindo. Alem disso, a permanência da criança em casa é muito importante. É preciso passar um mínimo de tempo em um porto seguro, um cantinho onde cada objeto é conhecido e cada sombra é familiar. Isso é uma requisito especial pra que a criança se sinta segura.


Se dependesse dos filhos pequenos, os pais só se afastariam deles por alguns minutos e só se fosse pra sair pra comprar um brinquedo ou um sorvete pra eles. Já o desejo dos adolescentes é que os pais sumam de vez em quando, principalmente quando estão na companhia de outros adolescentes. Assim, o certo é estar com os filhos na medida certa, sem superproteger ou abandonar.

Espero acertar nessa que com certeza será o trabalho mais difícil e importante da minha vida. Esse mês minhas filhas completam dois anos de idade. Que privilégio eu tenho. Deus é muito bom!!


Fabiano Holanda, junho de 2008, Mississauga, ON.




Reputação

Meu amigo Hindenberg Dutra me disse certa vez, em mesa de bar na saudosa Picanha do Dudé, na avenida Xavier da Silveira, em Morro Branco : ...