Friday, 30 October 2020

Gongon

 

Na foto acima, Gongon em 1977, com 76 anos, nas suas Bodas de Ouro.

Já ouvi muita gente dizer que os bons morrem jovens. Pode ser uma coincidência ou uma romantização sobre as mortes das pessoas mais jovens, uma vez que o natural seria sempre morrer velhinho. Mas o fato é que nem sempre os bons morrem jovens. A raiz mais antiga que conheci de mim mesmo foi o meu bisavô Gonçalo de Assis Meira, meu “Vovô Gonçalo”.


Meu bisavô Gongon nasceu em 16 de novembro de 1901, em Taperóa, na Paraíba e faleceu em 11 de maio de 1988, em Natal. Ele casou com minha bisavó Nazinha em 1927, quando vovô tinha 26 anos e vovó Nazinha tinha 21 anos.Vovô Gonçalo era filho de Inácio Gomes Meira e Manoela Francisca Meira.


Vovô Gonçalo primeiro “se juntou” com minha Bisavó Nazinha e teve minha avó, Evandra Holanda de Oliveira (Oliveira por parte do meu avô e marido dela), e só depois que casou teve minhas duas tias-avós, Zilene Tavares Meira e Zileide Tavares Meira. Nenhuma das duas casou. Por isso, as duas tias-avós não carregam o Holanda no nome, pois ao casar com minha bisavó Nazinha, Vovô Gonçalo retirou o “Holanda” da minha bisavó e acrescentou o “Meira”, seu nome.


Eles moravam em Patu, em uma casa que tinha sido comprada por um irmão de minha Bisavó Nazinha, e doado pra eles de boca. Mas quando esse irmão morreu, a filha dele era advogada e disse que não tinhada no papel e pediu pra eles sairem de lá. A solucao foi uma mudança pra Natal, pra morar em uma das casas do meu avô Oliveira, que era casado com a filha mais velha deles.


Meu avô Oliveira cedeu uma das casas que possuía no bairro de Nova Descoberta e lá meu bisavô morava com sua esposa e as duas filhas solteiras do casal, Zilene e Zileide. Meu avô Gonçalo, que algumas pessoas chamavam de Gon Gon, era um sujeito magro, muito calado e gostava muito de mexer comigo.


Ele tinha uma brincadeira que só ele gostava. Consistia em passar perto de mim, quando não tinha ninguém olhando, e dava um “beliscão de soldado”, como ele dizia. Mas ele era um velho forte, apesar de magro e o beliscão doía muito. O beliscão era feito com as cabeças dos dedos indicador e maior de todos, como se fosse uma pinça e uma vez que agarrava a carne da gente, ele torcia. Era uma dor lancinante, pelo menos pra criança que eu era.

           Na foto acima, da esquerda pra direita: meu irmão Fábio, vovô Gongon e eu., na casa dele, em Nova Descoberta.

Quando ele me pegava no bote, eu gritava. Isso gerava reclamações contundentes da minha bisavó e das minhas duas tias e de quem mais estivesse presente, como minha mãe ou minhas tias. Elas ficavam doentes de raiva. No meio do tumulto, ele ficava sério, não dizia uma palavra e ficava olhando pra televisão, como se não estivessem falando com ele e quando desviavam o olhar, ele sério dava uma piscada de olho pra mim, como quem diz: “seja homem!”.


Eu gostava do velho e pouco tempo depois ia pra perto dele. Ele passava a mão no meu ombro, me puxando pra perto dele. Lembro que um dia cheguei da natação, devia ter mais ou menos uns 12 pra 13 anos de idade, e minha mãe disse: “Vovô Gonçalo está no hospital”. Foi a primeira vez que levei uma pancada no estômago. Como assim no hospital? Ele estava bem até ontem?.


Todos os dias eu tinha o hábito de pegar a minha bicicleta, descer a minha rua, a Brigadeiro Gomes Ribeiro até a Rua da Saudade. Chegando lá, dobrava à esquerda e seguia até o portão do cemitério de Nova Descoberta. Seguia pela calçada do cemitério até cruzar a rua Amintas Barros. Dava direto no comércio de mármore do meu avô Oliveira e vizinho era a casa do meu avô Gonçalo. Mas agora ele não estava mais lá...


No dia seguinte, eu pedi pra minha mãe me levar pro hospital pra visitar vovô Gonçalo. Ela me atendeu e lá fomos. Chegando lá, encontrei vovô em uma cama, deitado, fraco. Fiquei com medo de chegar perto dele. Minha mãe me empurrava e eu não ia. O tempo todo eu estava olhando pra ele e ele olhando pra mim, com a cabeça inclinada no travesseiro. Então ele fez sinal com a mão pra que eu me aproximasse. Eu fui, receoso. Chegando perto dele, coloquei minha mão na cama, perto da dele e ele repousou sua mão em cima da minha. E apertou devagar, sem força. E sorriu. Eu também sorri.


Minha mãe se virou pra falar com minha avó Vanda, mãe dela, e eu falei baixinho pra vovô Gonçalo: “Aperta, vovô, dá o beliscão de soldado em mim”. Ele sorriu novamente, bateu duas vezes carinhosamente na minha mão e balançou a cabeça negativamente, dizendo que não, dessa vez não. Ficavamos indo visitá-lo no tempo em que esteve lá no hospital, e finalmente ele foi pra casa. Ficou deitado na cama dele, com um mosquiteiro em cima.


Em um desses dias, se não engano de tarde pra de noite, eu entrei no quarto pra falar com Vovô Gonçalo. Ele deu uma risada junto comigo e saí do quarto bem feliz, dizendo: “Vovô tá melhor, vovô tá melhor!”. Ninguém disse nada. Poucos minutos depois, saíram do quarto dizendo que ele havia morrido. A causa? Parada cardíaca, enfarto do miocárdio. 


Meu pai, Jaelson Cavalcante das Neves, foi o declarante e o médico que assinou o atestado de óbito foi Dácio, um dos melhores amigos de meu pai. 

 

Quando eu questionei porque, já que ele parecia ter melhorado, alguém disse: “Essa é a melhora da morte. A pessoa dá uma melhorada quando pouco antes de morrer”. 

 

Nunca esqueci disso, nunca esqueci desse dia, onze de maio de 1988. O dia em que eu descobri de verdade que as pessoas morriam.


Fabiano H. Cavalcante, Brampton, dezembro de 2005.


Thursday, 15 October 2020

Hudson Bay Company


Quando cheguei na província de Ontário, sem muito dinheiro e com menos ainda crédito na praça, aleatoriamente fui visitar uma das lojas do grupo HBC, que vem a ser Hudson Bay Company. Nos corredores da loja me deparo com um vendedor e ele pergunta se tenho um cartão HBC. Com a minha negativa, ele foi certeiro: “se você chegou por aqui agora, é uma grande oportunidade de estabelecer o seu crédito. Eu consigo sua aprovação automática pra um limite de crédito de 100 dólares”.


E dei a ele meus dados pessoais. Ele conseguiu o que prometeu e assim comecei a construir o meu crédito por essas bandas. Mas fiquei pensando, o que faz essa empresa pensar diferente das outras? Porque ela faz questão de dar esse voto de confiança, embora o crédito nao seja muito? E fui buscar informações sobre a empresa.


E qual não foi minha surpresa ao descobrir que essa empresa é a empresa mais antiga do Canadá. Mais ainda ainda do que o Canadá. Me senti um verdadeiro nativo, ao fazer parte agora desse grupo tão renomado. Mesmo que apenas portando o cartão de crédito deles...


A HBC foi fundada em 2 de maio de 1670. É a empresa mais velha de todo o mundo anglofônico. Na rande parte da sua existência, ela foi uma empresa comerciante de couro. Esse comércio de couro em si deu grande constribuição na colonização da América do Norte Britânica e no Canadá em si.


No século 17, o comércio de couro estava de vento em polpa, todos queriam um chapéu de couro de castor. A França não teve interesse no comércio, mas a Inglaterra sim e mandou seus primeiros navios em 3 de junho de 1668.


O negócio envolvia os índios nativos. Eles caçavam no inverno e outono e iam encontrar o pessoal da HBC pra trocar por bens que eles não dispunham, como ferramentas de metais, comida, roupas e armas. Isso gerou um impacto nas tribos, pois muitos abandonaram seus modos de vida e passaram a depender dos utensílios agora vindo da Europa. Também entravam em conflitos com outras tribos, por uma melhor posição no comércio das peles. Um outro problema foram as doenças que eles não tinham, o que devastou populações inteiras de índios.


Até 1763, HBC brigava com os franceses pelo comércio das peles. Então foi feito o Tratado de Paris, que diminuiria consideravelmente esses conflitos. Um século depois, em 1863, a HBC foi comprada pela International French Society, que não estava muito interessada em comércio de peles e sim nas terras que a HBC possuía.


Em 1870, a HBC vendeu suas terras pro Canadá. Recebeu 300 mil libras naquela época, um vinte avos de todas as terras produtivas e iria manter as terras onde haviam estabelecido um comércio. Se tornaram assim um dos principais incorporadores no país. Em 1910, a empresa se dividia em três departamentos: peles, varejo e vendas de terras. Em 1913, começou a construir lojas de varejo. A primeira loja foi aberta em Calgary, em 1913. Também, em 1926, entraram no ramo de recursos naturais.


Operando apenas no oeste canadense, HBC chegou em Montréal em 1960. Em 1974 abriu sua primeira loja em Toronto, na Younge e Bloor, bem perto de onde é hoje o Consulado Brasileiro. No final dos anos 70, dois bilionários canadenses, Kenneth Thomson e George Weston, brigaram pela aquisição da HBC. Em 1979, Thomson ganhou a batalha e comprou 75% da empresa por 400 milhões de dólares.


Nesse mês de novembro, um financista americano chamado Jerry Zucker comprou a HBC por 800 milhões de dólares, fazendo com que essa empresa centenária deixasse de ter um controle canadense.


Outra loja do grupo é a The Bay, sempre sendo uma das grandes lojas dos shopping centers. Lá vendem de tudo, sendo uma espécie de Macy's. Visitar uma loja Bay é sentir um pedaço importante da história do Canadá. Eu não sou nativo daqui, mas gostaria de agradecer a esta empresa suntuosa pelo meu primeiro cartão de crédito no Canadá. E que os ventos gelados tragam sorte pra que essa empresa continue viva por muitos anos.


Fabiano H. Cavalcante, Brampton, Novembro de 2005.

Cartilha Blairiana


  

        Muito se fala no ousado e corajoso plano de leis visando o combate ao terrorismo na Grã-Bretanha e alega-se que este cerceia os direitos humanos e as liberdades individuais. Mas, quando procurei ler sobre esse plano, foi impossível não fazer uma comparação com o que acontece aqui no Canadá, país que resido há quase seis anos.

 

        Os políticos canadenses na sua maioria, talvez temendo uma repercussão internacional (afinal, eles são considerados os “bonzinhos” perante o mundo) ou apenas por serem hesitantes por natureza, ainda não perceberam o perigo que correm e não tomam medida alguma nesse sentido. Ao contrário, de certa forma, até incentivam a vinda de elementos nocivos ao país.

 

        John Howard da Austrália e Tony Blair da Inglaterra, felizmente pensam diferente. O problema é que o Canadá quer de fato cultivar essa imagem de “país bonzinho e acolhedor” e termina, inocentemente, abrindo uma porta para indivíduos inescrupulosos e com intenções escusas.

 

        Acredito também que eles pensam que sendo permissivos com essa gente, eles não iriam bagunçar aqui dentro. Ledo engano, pois o camarada Laden já anunciou que o Canadá está na alça de mira da sua temida gangue.

 

        E a historia também mostra o contrario. Se não mostrar pulso, a tendência é ser cada mais desrespeitado. Enquanto isso, lá do outro lado do oceano, as medidas de Blair causam náuseas nos “politicamente corretos”.

 

        E aqui? Alguém pode imaginar o Canadá deportando, em curto período de tempo, cidadãos canadenses naturalizados que advogam em causa da violência?

 

        Ou que o governo canadense monitore websites, livrarias, centros comunitários ou associações que exaltem o extremismo? Não, não dá pra imaginar. Mas é isso que Blair pretende fazer em sua terra natal.

 

        Pela proposição Blairiana, qualquer pessoa que tenha tido alguma participação ou ligação com o terrorismo, em qualquer lugar do globo terrestre, terá asilo político negado na Inglaterra.

 

        E no Canadá? Se for negado lá, com certeza será aceito aqui. O Canadá aceita todo mundo que chega e as leis canadenses de imigração permitem que o candidato à refugiado aguarde a resolução do seu caso dentro do país, com direito a mesada do governo e plano de saúde.

 

        Devido a essa abertura, o Canadá tem sido um santuário de terroristas e pessoas de má índole. 

 

        Quer saber como ser qualificado pra um processo de refugio desses? Basta ser cidadão de um país com problemas de guerra ou complicado politicamente e conseguir chegar ao solo canadense.

 

        E mesmo eles desconhecendo seu passado, você tem o direito de habitar aqui até que seu processo seja julgado, o que leva na maioria dos casos uns três anos.

 

        Entretanto, acredito que tempos de guerra são tempos de guerra e não há outra atitude a tomar senão atitudes de tempos de guerra. É necessário identificar os “cabeças”, pendurar no pau-de-arara e saber tudo o que planejam e quem está envolvido nessa guerra. Só assim poderão desmantelar as chamadas “células adormecidas” de terroristas.

 

        Isso é certo? Provavelmente não. Mas explodir bombas e mais bombas na casa dos outros, matando trabalhadores em transportes públicos também não é.

 

        Alem disso, Blair também propõe uma comissão para ajudar a integrar o direito de liberdade dos muçulmanos e sua cultura com a cultura e tradição britânica, o que eu acho corretíssimo. Acabou-se o tempo de moleza.

 

        Quer morar lá? Se enquadre. Não queira transformar o local que chega em Pequeno Paquistão, Pequeno Irã, etc, etc...

 

        Na minha opinião, os pontos de Blair não interferem nos direitos individuais e liberdades existentes. Somente interfere diretamente na vida daqueles que abusam desses direitos para praticarem violência.

 

        A liberdade continua do mesmo jeito para todos os homens de bem, que não pregam uma violenta remoção da liberdade dos outros homens de bem.

 

Fabiano Holanda, Brampton, Ontário, Outubro de 2005.


O terror está ganhando

 


        Nesse mês de setembro, irá completar um ano que um grupo de rebeldes chechenos manteve preso em uma escola um grupo de 1.100 pessoas, entre alunos e professores, em Beslan, na Rússia.

 

        Sabe-se que pelo menos 331 pessoas morreram, incluindo 186 crianças, na operação de salvamento, quando as forças especiais de segurança russa invadiram a escola com granadas incendiárias e tanques.

 

        A equivocada missão de salvamento orquestrada pelo Kremlin foi mais um vexame pra imagem pública do presidente Putin.

 

        O governo russo não têm falado muito sobre o assunto, numa clara tentativa de fazer com que a lambança saia da cabeça das pessoas aos poucos, da mesma forma que a polícia londrina não fala muito sobre o fuzilamento do brasileiro Jean, em uma estação de metrô de Londres.

 

        No caso russo, acredito que o silencio deliberado é aliado com a incompetência generalizada das forças de segurança russa. Pra se ter uma idéia, um ano depois do ocorrido, eles conseguiram identificar somente 21 dos 31 terroristas mortos na operação.

 

        Porém, e como sempre, podemos enxergar uma questão política por trás da morte de inocentes. Aslan Maskhadov, um líder da guerrilha chechena considerado moderado, se ofereceu para negociar a libertação dos reféns, mas o governo russo não queria correr o risco de transformar Maskhadov num herói da situação (inclusive, os russos o mataram em março desse ano). E enquanto isso, a guerra da Chechenia promete mais horror.

 

        O líder checheno Basayev, que todos acreditam que planejou o terror em Beslan, disse recentemente que outros ataques do mesmo estilo irão ocorrer com certeza, muito em breve.

 

        Enquanto isso na ala árabe da baderna, cresce o cartaz daquele que parece rivalizar as atenções no mundo pop terrorista com o outro astro internacional, o senhor Bin Laden. Eles fazem de tudo pra ocupar a cadeira numero 1 da maior gangue de desordeiros que o planeta já teve o desprazer de conhecer: a Al-Qaeda.

 

        O nome desse outro superstar do terror é Abu Mousab Al-Zarqawi e é o líder da Al-Qaeda no Iraque.

 

        Dizem que o Al-Zarqawi tinha sido gravemente ferido ou morto há alguns meses atrás. Porém, desde que correu essa noticia, sua organização têm praticado ataques cada vez mais bárbaros no Iraque, inclusive contra civis.

 

        Zarqawi almeja o sucesso, contudo não concentra suas ações nos Estados Unidos. O seu negocio é a Europa, inclusive, especialistas afirmam que ele está planejando um ataque grandioso pra Europa em breve.

 

        Imagino até a cena macabra. Zarqawi pergunta:

 

        - Bin atacou o World Trade Center e o Pentágono. O que vou fazer pra superar esse grande feito?

 

        E faz uma reflexão:

 

        - Sou obrigado a concordar que foi um grande feito, um verdadeiro golpe de mestre contra os infiéis, mas agora os Estados Unidos mantêm forte vigilância nos aviões, assim eu vou pra Europa, onde eles abrem mais as portas pros muçulmanos.

 

        Para no fim indagar novamente:

 

        - Quantos infiéis eu terei que mandar pros braços de Alá pra que o mundo e os meus fieis me considerem melhor e mais poderoso que o camarada Bin? Ele é o meu ídolo mas eu sou melhor, pôxa vida, perguntem aos americanos no Iraque...

 

        Às vezes eu acho que esses rapazes estão de brincadeira. Seja o Basayev na Rússia, o Bin Laden, ou o Zarqawi, todos eles estão agindo de acordo com a conivência internacional.

 

        A comunidade internacional adota a máxima canalha de que “os inimigos dos meus inimigos são meus amigos” e se dão por satisfeitos. Os intelectuais de esquerda ficam felizes quando um ataque terrorista é bem sucedido, pois isso de certa feita é uma afronta ao “demônio imperialista” e seus aliados. 

 

        E essa postura não fica somente nos intelectuais. Atinge também governantes, empresários e povos de vários lugares do mundo.

 

        Enquanto não passarem a combater esse tipo de ação da forma como deve ser combatida, ataques ocorrerão em proporção geométrica e cada vez menores serão as notas nos jornais tratando desse assunto tão oportuno para alguns e terrível para outros.

 

Fabiano Holanda, Brampton, Ontário, Setembro de 2005.

...

A faixa da discórdia

        


        A grande questão no caso da retirada de Israel da faixa de Gaza é porque a retirada? Por que agora?

 

        Porque Ariel Sharon está fazendo isso de maneira unilateral, quando na verdade ele sempre foi dramaticamente contra isso, e inclusive ganhou as ultimas eleições fazendo campanha contra a saída de Gaza?

 

        O mundo inteiro está perplexo com sua mudança de política. E sabemos que Sharon está pondo em risco sua carreira política fazendo isso. A administração de Bush está aturdida, embora diga apoiar. Os britânicos estão perplexos, os outros países europeus perdidos e os paises árabes vizinhos estão apreensivos, embora superficialmente satisfeitos.

 

        Então porque Sharon fez isso? Acredito que não tenha nada a ver com satisfazer palestinos ou críticos de Israel, até porque não importa o quanto Israel se curve, nunca irá satisfazer seus inimigos. Eles não querem um convivência pacífica com Israel, eles querem a vitória, eles querem Israel destruído e ponto final. 

 

        Este ato demonstra, à primeira vista, fraqueza e apenas encoraja os militantes palestinos a serem mais violentos, pois pensam que conseguiram este “prêmio” devido à seus ataques terroristas. E o pensamento é: “a estratégia está dando certo. Israel está com medo e cedendo”. Mas acredito que existe uma coisa escondida por trás desse ato de Sharon.

 

        Por outro lado, é claro no Oriente Médio que nenhum país árabe deseja um estado palestino próspero. Os palestinos são um problema para todo mundo. O Egito expulsou a Organização pra Libertação da Palestina (OLP) nos anos 1960. A Legião Árabe na Jordânia empurrou a OLP pro Líbano e então a Síria invadiu o Líbano quando o OLP ficou poderosa demais.

 

        A Palestina é então uma causa que serve somente pros outros atacarem Israel. Então se acredita que Sharon está saindo de Gaza somente para colocar os outros países na defensiva e expor a hipocrisia deles sobre a Palestina, que na verdade ninguém gosta.

 

        E o que Gaza vai se tornar na verdade é um refúgio pra gangues e extremistas islâmicos, que irão ameaçar a estabilidade no Egito, mais do que em Israel.

 

        E não esqueçamos de uma importante coisa. Se necessário, o exercito de Israel pode reocupar Gaza em apenas uma noite. E em outra mão, o exército do Egito é que vai ter que lidar com o Hamas em sua fronteira com Gaza.

 

        O ponto central da decisão de Sharon pode ser mostrar a falta de capacidade da liderança palestina em formar um governo que irá trazer a paz. Em outras palavras, a faixa de Gaza não irá ficar apenas sob responsabilidade de Israel, mas também sob responsabilidade daqueles que fingem querer justiça e soberania pra o Estado Palestino. 

 

        Os quase 10.000 israelenses que foram removidos à força de Gaza são vitimas e garantias. Suas angustias e raiva são evidentes contra a determinação de Sharon e Israel de sair mesmo de Gaza, mas Sharon tem um subterfúgio: passando o problema de Gaza para outros, o mundo saberá se eles podem atingir razão e equilíbrio para esta área tradicionalmente volátil de pessoas armadas até os dentes e muitos sem casa pra morar. E se funcionar, o chamado West Bank pode ser o próximo.

 

        Mas na minha opinião, o grande golpe de mestre de Sharon foi armar uma perfeita cilada, o que nós chamamos de arapuca de pegar passarinho. Se ocorrer como ele espera, os extremistas irão usar a faixa de Gaza como incubadora de terroristas e me digam se não será extremamente conveniente para Sharon e seu exército invadir a faixa de Gaza matando todo mundo, sem colocar em risco a vida de um único residente israelense?

 

        Golpe de mestre. Mesmo com os ocupantes de Gaza traumatizados com a retirada. E se olharmos, a faixa de Gaza é um pedacinho de terra tão pequeno que nem se deve levar em consideração e é quase inútil.

 

        Por fim, e exceto por aqueles israelenses que viviam lá, Israel não está desistindo de muita coisa. Mas, mesmo esse pouco, irá testar a sinceridade daqueles que pregam por um Estado Palestino.

 

Fabiano Holanda, Brampton, Ontário, Agosto de 2005.


Chávez e Chapolin

 

 

        Hoje em dia o mundo está dividido em dois pólos: os amigos e os inimigos da América. Até neutralidade indica ser contra. E dentre os habitantes do segundo grupo, existem uns com maior poder de irritar a Casa Branca.

 

        Hugo Chávez, presidente da Venezuela, é um dos que incomodam. Este senhor, aos poucos, tenta se tornar líder dos países da América Latina, buscando formar uma grande coalizão contra o país do tio Sam.

 

        Não que eu ache errado o uso da força unida em prol de um objetivo. O problema está centrado somente no tal do objetivo almejado e este é querer transformar a América Latina num grande reduto esquerdista, pois acredita o comandante Chávez que devemos nos transformar numa imensa Cuba.

 

        Sim, pois o grande ídolo de Chávez é outro comandante, o ilustre carniceiro de Havana, o superstar Fidel Castro. E ao lado do senhor Castro, Chávez anunciou na semana passada a criação de um fundo de solidariedade regional para que os países do Caribe tenham acesso barato ao óleo venezuelano.

 

        Porém, o que torna Chávez um incomodo para Washington não são suas qualidades pra líder latino, e sim, o simples fato dele controlar a maior reserva de petróleo do hemisfério e é o quarto maior fornecedor estrangeiro de óleo aos Estados Unidos.

 

        E como o preço do barril de óleo atingiu o preço de 60 dólares/barril nesses meses, o governo de Chávez colocou alguns bilhões de dólares extra no bolso. E ele está usando essa grana pra aumentar seu poder de liderança regional.

 

        Desde que Chávez chegou ao poder, lideres de esquerda chegaram ao poder ou estão liderando pesquisas em oito países da América Latina, incluindo os dois maiores, Brasil e México. O ultimo país a acontecer isto foi na Bolívia, onde o líder canhoto é o favorito pra ganhar as eleições presidenciais deste ano.

 

        Mesmo essa sendo sua vontade, chávez não pode cortar de vez as vendas de seu óleo aos Estados Unidos, mas está tentando reduzir essa dependência negociando vendas à Índia e China.

 

        Assim, a influencia de Chávez poderia cair se os preços do petróleo caíssem também. Porém, analistas prevêem que Chávez irá tentar aumentar drasticamente os preços do óleo, através do aumento de impostos e royalties sobre o governo dos Estados Unidos e das multinacionais americanas, que Chávez anteriormente quase implorou para que fossem à Venezuela refinar seu óleo cru.

 

        Vamos ver quem vencerá essa queda de braço. Contra Chávez temos o velho problema dos lideres de esquerda, isto é, muito gasto do dinheiro público em ações populistas e pouca preocupação de como obtê-lo. Também o desemprego continua alto. A favor, o bolso cheio de petro-dólares e vários comparsas da mesma laia, entre eles o nosso Chapolin Colorado (de vermelho é feita sua bandeira). 

 

        Se vencerem, vocês ouvirão a célebre frase: “não contavam com a nossa astúcia...”

 

        Com essa agremiação de esquerdistas latinos, a América Latina regressa uns 40 anos. E esquerda rica, com poder e em bando, quase sempre é sinônimo de totalitarismo, liberdades cerceadas, paredón e corrupção nos altos escalões dos partidões.

 

        Bem, há dois dias um amigo meu brasileiro que mora em Cuba me disse: “A luta continua, companheiro!”.

 

        Que Deus o ouça. Continuem lutando sim, um dia a liberdade cansa e deixa vocês prenderem-na de vez numa sala escura e fétida, realizando o sonho de vocês de luta.

 

        E nada me espantará se um dia surgir um poderoso exército formado pelos fanáticos extremistas islâmicos, os esquerdais franceses, brasileiros, latinos, FARC’s, coreanos do norte, etc, etc, e tomarem de assalto o mundo democrático e capitalista, afinal, na realidade, só está faltando mesmo uma ação mais deliberada, pois na surdina eles já possuem um objetivo comum.

 

        Ai quando chegar este momento, os intelectuais das universidades e das redações ficarão calados, da mesma forma que ficam bem caladinhos quando seus filhinhos protegidos explodem bombas em Londres, em Madrid, em Jacarta, em Bali... E o silencio deles me leva ao Nirvana.

 

Fabiano Holanda, Brampton, Ontário, Julho de 2005.

Pra lá de Teerã


Enquanto grande parte do mundo caminha para as liberdades civis, democracias são almejadas e economia de mercado é receita de sucesso, encontramos ainda algumas ilhas de pensamentos medievais e que, efetivamente, conseguirão em breve viver de fato numa era das trevas.


Exemplo disso é o Irã, que se para alguns já se trata de um país sombrio e tenebroso, afundará de vez sua cabeça no poço de esterco que são as interpretações fanáticas do Alcorão. Sem falar no enriquecimento do Aiatolá e sua patota.


A receita é simples: engana o povo com o alcorão, e depois coloca a grana embaixo do colchão. Um cidadão chamado Mahmoud Ahmadinejad (que eu chamarei de Jad a partir de agora) acaba de ganhar as eleições presidenciais no Irã, com 62% dos votos. O outro candidato, com 36% dos votos, trata-se do ex-presidente Ayatullah Ali Akbar Hashemi Rafsanjani (que chamarei de Jani). Os outros 2% devem ter morrido no meio do caminho pras urnas. De morte matada, talvez. Jad, que era prefeito de Teerã, prometia um Irã moderno, forte (isto é, nuclearmente armado) e rico.


Parecido fazia seu companheiro brasileiro, o Lula, que sem explicar como, prometia riqueza à todas as classes sociais. E é incrível como os farsantes estão tendo lugar nas urnas ultimamente, seja no mundo árabe, seja na América do Sul.

O mais engraçado é que, muitos dos eleitores possuem a consciência de que Jad irá transformar o já rígido Irã numa terra Talibã. E a comparação que faço é: será que os eleitores do senhor Lula de certa forma não sabiam o que estavam fazendo ou o que "eles" pretendiam fazer?


Do outro lado tinha Jani, que tinha uma plataforma mais “pragmática” e prometia uma maior acomodação junto ao mundo ocidental. Mas, Jani possuía problemas curriculares relacionados ao seu período como presidente (1989-1997). E esses problemas se referem à corrupção e crescimento considerável de sua riqueza pessoal.


A história de Jani lembra alguma coisa? Oh, sim! A história de quase todo político brasileiro. Então o que a população fez lá? Votou no filhote político do Ayatullah Ali Khamenei, o nosso Jad. Assim, para ir contra a corrupção e o enriquecimento ilícito, a população iraniana escolheu voltar às trevas.


Isso me lembra algo que ocorreu nos trópicos. Só que nos trópicos, a batalha contra a corrupção se mostrou ineficiente e os antigos ferrenhos opositores da corrupção, o PT, se mostrou o maior corrupto da história do Brasil.

Já estou até vendo as desculpas futuras pra sede de dinheiro dos homens do poder no Brasil hoje. Dirão os sábios das canetas, nas redações e nas universidades, que esse desvio dessa dinheirama era pra ajudar a “causa”.


E completarão, com a lógica dos canalhas: “os fins justificam os meios”, como fazem a todo momento que precisam explicar suas mentiras.


O mesmo irá ocorrer no Irã, onde organizações religiosas amealham todo o dinheiro possível e nem explicações dão. E assim Jad irá reinar absoluto, com o apoio do aiatolá, e sem suspeitas a serem levantadas. Aliás, essa é a única diferença entre os casos, pois lá usam a força descaradamente, enquanto no Brasil, o uso da força é camuflado... por enquanto!!!


O Jad tem por mentor o Aiatolá Khomenei, o Lula tem por mentor o Aitolá Dirceu, que mesmo fora do templo da casa civil, ainda dá as cartas na confusão mental do senhor Inácio da Silva. Aí conversa vai, conversa vem, e o baiano diz: “esse papo já tá qualquer coisa, você já tá pra lá de Teerã...


Fabiano Holanda, Brampton, Junho de 2005.

Wednesday, 14 October 2020

Bebeto liso na casa de drinks

Nas tediosas noites de domingo, para não ficarmos em casa e assistirmos ao Fantástico, íamos conversar com algumas meninas que trabalhavam em uma “casa de drinks” lá em Capim Macio. Era uma coisa engraçada. Conhecíamos todo mundo no ambiente, desde os frequentadores, passando pelas meninas, até os que lá trabalhavam. Lembro muito de Manel, um amigo do Neves, que era o melhor freguês da casa.

Assim, as noites de domingo passavam a ser deveras animadas. Mas em uma dessas, após termos comido e bebido tudo o que tínhamos direito, me levanto para ir ao banheiro e Bebeto da Égua vem junto a mim.

O safado começa a gargalhar. Eu pergunto o que aconteceu e recebo outra gargalhada como resposta. Quando eu já estava ficando puto, escuto a frase que me deixou mais puto ainda:

- Ei, das Cachorras, eu não tenho um puto no bolso pra pagar a conta!

Diz isso e começa a gargalhar novamente. Eu perguntei se ele estava achando isso engraçado e, sem resposta, concluí que estava, pois não parava de se abrir. Estávamos no velho Monza verde de Osvaldão. Dar o cangapé não me traria prejuízo algum, a não ser, o de não poder frequentar mais tão pitoresco ambiente.

Bebeto então pediu que eu pagasse a sua parte e que no outro dia, sem falta, iria me reembolsar. Não acreditei muito, mas não tinha outra alternativa. Nunca foi do meu feitio deixar um amigo em posição delicada. Como não tinha dinheiro em espécie, passei um cheque do valor total e fomos embora.

Chegou segunda-feira e nada de eu encontrar Bebeto, e olhe que o bicho morava duas casas à direita da minha, descendo a rua. Terça-feira e nada. Na quarta-feira, finalmente, encontro o rapaz. E ele diz:

- "Das Cachorras, eu tinha o dinheiro exato pra te pagar, mas Daniele estava suspeitando que estava grávida e eu usei a grana pra pagar o exame. Ela está grávida e eu gostaria de aproveitar pra convidar você a ser o padrinho do meu primeiro filho!”.

Bebeto ainda me prometeu o pagamento da grana para o final da semana, mas eu disse que a verba tinha sido gasta para um motivo nobre, que não precisava pagar e ficamos assim. Hoje em dia, com a minha mudança para o Canadá, eu não sou próximo do meu afilhado Leonardo como eu gostaria, mas espero que um dia isso possa ser corrigido.

Me lembro com carinho que ainda dei de presente para ele um bercinho e um velocípede no seu aniversario de um ano. E Bebeto, o reprodutor, constituiu família com outra esposa, a Juliana, e é o feliz pai de mais duas meninas.
 
Fabiano Holanda, Brampton, Maio de 2005. 

Tatá perde a carteira

O nosso grande amigo Maurílio Eduardo, mais conhecido como Tatá, teve um carro que marcou época em nossa turma. Tratava-se de um Gurgel Carajás branco, que foi testemunha de muitas cachaças sadias.

Em uma dessas, saímos com destino a uma batucada na praia de Pirangi do Norte, mais precisamente num bar chamado Cia. da Pizza, em frente à casa do Doido George.

Como de hábito, exageramos um pouco na bebida e, ao tentar atravessar um canal de esgoto existente do lado esquerdo da rua de quem está indo em direção à Natal, não consegui pular o mesmo e caí dentro da água fedida, não antes de deixar um buraco na minha canela, buraco este que ficou para sempre na minha perna direita e que demorou uns seis meses para cicatrizar.

Quando eu consegui sair do esgoto, Tatá se deu conta de que havia perdido a carteira, alegando que a mesma estava repleta de verdinhas, além dos documentos dele e do carro. Foi um desespero só. E eu, todo fedido, tentando ajudar o rapaz a encontrar a carteira dele. Evidentemente, ele julgou que sua carteira era mais importante do que a minha higiene.

Andamos todas as ruas nas cercanias da batucada e nada de encontrar a carteira do rapaz. Fomos então em uma casa que o pai de Juliano Jereba havia alugado para tomarmos banho e nos aprontarmos para a noitada, após eu garantir que emprestaria dinheiro ao grande Tatá.

Ao chegar à casa de Jereba, vasculhando as suas coisas para ir ao banheiro, Tatá se lembra que talvez tivesse colocado a carteira embaixo do banco do Carajás. Quando ele vai se certificar, eu entro no banheiro e vou tomar banho, ao invés de ficar esperando ele voltar.

Quando eu saio do banheiro, vou lá fora e me deparo com uma cena inusitada. A casa de Jereba era vizinha à casa de um grande amigo meu, do tempo do Colégio das Neves e da natação, André Luis, irmão de Márcio Breno. E nessa casa eu passei alguns memoráveis veraneios.

Voltemos então à cena. Tatá foi ao banheiro, mas este estava ocupado por mim. Resolveu então tomar banho na casa de André, numa bica que tinha do lado de fora da casa, mas dentro dos muros da propriedade dele.

Mas o banho que ele resolveu tomar era como se estivesse dentro do banheiro, nu. Quando eu chego à varanda, estava seu Ivo, pai de André, tentando explicar a Tatá que ali era uma casa de família e tal.

Tatá, com o braço esticado para fora do alcance da água, com a carteira na mão e com o resto do corpo debaixo da água, só repetia para o homem, aos berros, como se ele não fosse o dono da casa: “Meu amigo, eu achei minha carteira. Você não está entendendo, eu achei minha carteira, porra!!!”

Dali mesmo eu me escondi, pois não ia ser nada saudável ser associado àquele nudista, ainda mais por aquela família tão querida por mim. Calmamente, o indivíduo nu sai do chuveiro e se arruma ali, como se nada tivesse acontecendo. Mas ainda berrava sobre a carteira. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Maio de 2005 

Rainer e o chocolate

Rainer Patriota, certa vez, trocou a noite pelo dia e fomos saborear uma gostosa cerveja ao som do seu violão, na minha casa. Começamos os trabalhos por volta do meio-dia e quando foi lá pelas seis da tarde, meu irmão chega, procurando por uma barra de chocolate branco que alguém tinha lhe dado. Ele tinha certeza que havia colocado a dita cuja no congelador.

Meu irmão, então, começou a me acusar de ter dado cabo do chocolate, pois eu fiquei rindo da cara dele. Eu neguei, avisando, inclusive, que não gostava de chocolate branco. Ele disse que se o chocolate dele não aparecesse, ele iria comer a minha barra que também estava no congelador, só que de chocolate preto. Eu avisei que caso ele fizesse isso, o pau iria comer, pois eu não tinha nada a ver se ele tinha perdido o chocolate dele.

Dito e feito. O atrevido foi e mordeu o chocolate na minha frente. Como eu não poderia deixar a minha palavra solta no ar, meti-lhe a mão nas fuças e o pau cantou dentro de casa. Minha mãe, sozinha em casa, tentou apartar a briga, mas, no meio do tumulto, caiu no chão e começou a chorar.

Chamou Rainer para nos separar, mas medroso como era, só ficou tentando parar com a voz, não chegou perto para segurar ninguém, o que aumentava o desespero da minha pobre mãe.

Quando enfim paramos a briga, ela telefonou para o meu pai, que veio saber o que estava acontecendo. Tomamos banho para irmos ver nossas namoradas, mas meu pai mandou que entrássemos no carro com ele, os dois. Dirigiu por uns dois quarteirões, desceu do carro e disse para mim, com muita raiva e gritando: “Você vai dirigindo o carro agora, vai deixar seu irmão na casa da namorada dele e quando ele terminar, você vai buscar. Quero ver se vocês vão se matar no caminho”.

Não fui buscá-lo e passamos uns seis meses sem nos falarmos. Depois disso, nós ficamos amigos novamente, melhor até do que antes. Mas eis que Fábio encontra com Rainer na rua uns dois anos depois e este confessa ter sido ele quem comeu o chocolate, aos poucos, toda vez que ia buscar uma cerveja no congelador.

Eu não sabia até então o porquê de Rainer ser sempre tão solícito a respeito de ir buscar a próxima cerveja, mas estava achando bom, que nem da cadeira eu me levantava. Meu irmão então pediu desculpas e me deixou com o gosto de ter a certeza de que o tempo sempre trabalha junto de quem é honesto. Um dia a verdade aparece. Se isso serviu para alguma coisa, desse dia em diante, eu e meu irmão nunca mais tivemos uma briga.
 
Fabiano Holanda, Brampton, Maio de 2005. 

Cena urbana: Luíza!

Durante quase toda a minha infância, adolescência completa e começo da vida adulta, eu fui vizinho do jornalista Vicente Serejo, muro com muro. Apesar de gostar muito das filhas dele, Silvinha e Odyle, o barulho da máquina de Serejo perturbava a noite inteira.

Não por vingança, mas por coincidência, no final de semana eu descontava, quando fazia minhas bebedeiras lá em casa, principalmente quando estava em uma varanda que ficava a poucos metros da sala deles.

Certa ocasião, um grande amigo meu, Rainer Patriota, que é o filho do também jornalista Nelson Patriota, estava nessa varanda para uma noitada de boemia. Rainer é o maior violonista que eu já vi, mas não tinha muita resistência etílica e bebia, dormia, acordava, bebia de novo, sempre tocando.

Por incrível que pareça, consegui levar o homem na conversa e na geladinha até o sol raiar. Ninguém já aguentava mais falar, mas Rainer pegou o violão e tocou uma versão instrumental de “Luiza”, de Tom Jobim, numa versão parecidíssima com a que o grande violonista Raphael Rabello tocava. E repetiu a mesma música sem parar. E foi assim que fui dormir, ao som de Luiza.

Na semana seguinte, quando vou chegando em casa, Silvinha me para e diz que tem um presente para me dar. Era a coluna de Vicente Serejo, “Cena Urbana”, daquela semana. Silvinha me disse que ele estava falando de mim no jornal.

Quando peguei o jornal, pensei: “Puta que pariu, será que ele tá me detonando?” Mas, para minha surpresa, ele elogiava o fato de ter sido acordado com “Luiza” e o gosto musical do vizinho, que tinha escolhido a versão maravilhosa de Raphael Rabello.

Só que não era Raphael Rabello, era Rainer Patriota. Mas a versão era tão similar que seria impossível Serejo distinguir uma da outra. Se não foi possível fazer justiça completa naquela época, faço agora com o grande Rainer. Pena que ele largou o violão para tocar Viola de Gamba. Hoje é um austero professor de filosofia. Só espero que não seja avesso a noitadas, pois seria um desperdício aos que amam essa vida.

* Video de Raphael tocando Luiza.

 
Fabiano Holanda, Brampton, Maio de 2005

O passeio à casa de Pezão

Naquela ânsia desenfreada de quem está começando a dirigir, eu pedia o carro ao meu pai toda a hora que ele aparecia na minha frente.

- “Eu vou comprar pão!”, dizia eu, entusiasmado.

Ou então, “Papai, deixe-me dar uma volta no quarteirão”.

Nessa noite, pedi o carro pra ir dar uma voltinha na casa de Pezão. Chegando lá, não tinha ninguém, somente Reginaldo Matuto se encontrava na calçada, esperando por alguém chegar. Quando desliguei o carro, ele me contou que estava sendo realizado uma festa de São João no colégio objetivo, lá em Petrópolis e que todo mundo devia estar lá.

Petrópolis é um bairro afastado da minha casa, que é em Morro Branco. E eu nunca tinha saído de Morro Branco dirigindo, mas não podia deixar que isso me impedisse de ir à tal festa. O Matuto entra no carro e zarpamos pra diversão, sem se importar com o fato de meu pai ter autorizado somente a minha ida à casa de Pezão, que ficava há 2 quarteirões de distancia.

Tudo corria bem ate que de repente surge uma “boca de lobo” na nossa frente. Tratava-se de uma tampa de bueiro da CAERN , bem alta, sobressaindo do calçamento. Reginaldo disse-me para desviar e eu disse que não, que dava pra passar por baixo do carro sem problemas.

Só escutamos aquele barulho gigantesco e a partir disso, nada adiantava se eu girasse a direção do carro toda pro lado direito ou toda pro lado esquerda, o veiculo continuava indo reto. Havia quebrado a caixa de direção por completo e não tinha jeito do carro andar, para que eu mentisse pro meu pai, dizendo que o acidente havia sido perto de casa.

Nessa época ninguém nem sonhava que existia o tal do telefone celular. Então corremos pro Sandunas e lá encontramos uns amigos muito gente boa. Piteno, Pezão e Segundo (José Caldas Marinho), todos num Selvagem de propriedade deste ultimo.

Contamos o ocorrido, todos riram bastante da minha situação, como não podia deixar de ser diferente, e fomos analisar o carro. Quando chegamos a conclusão que o mesmo não teria jeito, resolvemos ir na minha casa contar ao meu pai. Fomos os cinco.

Chegando lá, meu pai estava na varanda e já foi perguntando pelo carro. Eu falei que o carro havia quebrado. Onde, ele perguntou. Ali, eu respondi. Ali aonde, meu filho, insistiu ele. Ali perto do objetivo (eu pronunciei esta ultima palavra na VDM, velocidade de dicção máxima), disse eu tentando enrolar. Perto de onde, se assustou o homem.

Nesse momento, os quatro indivíduos ficaram escondidos atrás do muro, pois já sabiam a reação escandalosa que minha mãe iria dar. No que meu pai está vestindo a camisa pra ir tentar consertar a merda que eu tinha feito, minha mãe sai lá de dentro perguntando o que houve. Quando eu tentei dizer, já veio com a gritaria, me chamando disso, e daquilo, pra deleite dos senhores que assistiam de camarote. Começaram a gritar e gargalhar e fugiram, deixando somente Piteno, que já havia pego a sua canoa.

Assim, saímos eu, papai e Piteno pro local do crime. Chegando lá, papai foi olhar embaixo do carro o estrago que havia sido feito. Nesse momento, o selvagem de Segundo já estava lá novamente, acompanhado agora do bugre Cobra de Marcio Cachaça.

Cachaça, pensando se tratar de um de nós embaixo do carro, encosta o bugre bem perto e diz: “O que esse mecânico buceta pensa que vai consertar”?

Meu pai se levanta e diz, com cara de poucos amigos: “Eu não vou consertar porra nenhuma, pois eu não sou mecânico!” Cachaça diz: “Eita, porra, foi mal!”, e vai embora, com cara de rapariga. Você imagine ai a minha situação.

O fato é que o carro teve que ser rebocado pra Espacial Veículos , o fato é que não teve festa de São João no Objetivo nenhuma, o fato é que eu fui motivo de piada por uns seis meses e o fato é que até o dia que faleceu, meu pai não pronunciou uma palavra sobre o ocorrido. Isso é que é ter elegância.
 
Fabiano Holanda, Brampton, Abril de 2005. 

Das cachorras

No decorrer desses quase 20 anos de existência, já ouvi inúmeras versões sobre a origem do meu apelido. Gente que jura que estava comigo quando eu fui ter relações sexuais com cadelas. Gente que jura que sabia que eu tinha um canil que só tinha cadelas e o único cachorro era eu. E por ai vão as insanidades. Mas a verdade é só uma.

Estava sendo realizado no Colégio Nossa Senhora das Neves, onde eu estudava, a feira de ciências que todo colégio realizava em um determinado período do ano. Eu tinha então 14 anos e cursava a oitava série do primeiro grau.

Planejamos ir pra tal feira de ciências, pois apesar de ninguém ter interesse algum na ciência, tínhamos sim interesse no monte de meninas que por lá se encontravam, pois nesses eventos, o menos importante era o que estava sendo exposto e sim o fato de que todos as pessoas da cidade da nossa idade estariam lá.

Pra apimentar mais um pouco a história, resolvemos passar num bar bastante conhecido da minha época chamado Trovão Azul, localizado ali na Afonso Pena, já perto do CCAB Norte. A intenção era tomar umas cinco cervejas e partir pro destino final.

Chegando no Trovão, não sei porque resolvemos trocar e ir pro bar vizinho, o Bar do Ednaldo. Pelo que me lembro, estava fazendo um sol forte no Trovão naquela hora do dia e no Ednaldo (hoje Cantina do Ednaldo) tinha sombra, qualquer coisa assim. Talvez se tivéssemos ficado no Trovão esse apelido nem existiria. O fato é que estavam eu, Frederico Lemos (o doido Zé Zuada), Leonardo Leite, e o nosso famoso Carlos Eduardo Mello (Piteno), hoje vegetariano.

Após meia grade de cerveja e eu já embriagado, devido ao inexistente costume do meu organismo ao álcool, chega outro carro com mais quatro indivíduos dentro, e eles eram Denis Zambon, Vlaviano, Gley Karlys (Araci de Almeida) e Fernando Bastos (Fernandinho).

Quando a primeira grade foi completada, eu não sabia mais onde era o céu e nem onde era o chão. Comecei a ver o mundo rodar e obvio, debaixo da gargalhada geral, pois todos já eram mais velhos e bebiam bastante, fui me sentar no chão, encostado no muro, por acreditar que dali não cairia.

A sensação era terrível, a vontade de vomitar era enorme e eu não pude conter. Vomitei tudo o que tinha bebido, tudo o que tinha comido e mais alguma coisa. Ednaldo tinha uma cadela chamada Xuxa, que sempre ficava na porta do banheiro. Ela foi atraída pelo vomito e começou a lamber o mesmo.

Mas em nenhum momento ela me lambeu, como alega o senhor Gley, e eu posso afirmar categoricamente isso, pois em nenhum momento eu dormi, estava acordado o tempo todo, e estava sentado, não deitado como aumentou o Araci de Almeida.

A cadela veio, lambeu o vomito e se entrou novamente no bar. Essa operação não durou mais que dois minutos. Mas a historia que o senhor Gley saiu contando por ai foi que ela me lembeu todo, inclusive na boca. É um filha da puta. Então me apareceu poucos dias depois na casa de Pezão, numa das reuniões diárias, e quando me viu, já saiu do carro dizendo: “Ei, pessoal, conhecem aqui o Das Cachorras?”

Evidentemente, todos ali adoraram e o apelido se espalhou como água. Por causa desse cretino, tem gente que me conhece há quase vinte anos e não sabe que o meu nome é Fabiano.

Eu não sei qual coisa boa Gley fez na vida, mas que eles fez duas merdas grandes, isso eu posso afirmar. Uma foi ter colocado esse apelido na minha digníssima pessoa e a outra foi ter projetado o Frasqueirão, o campinho do ABC Futebol Clube. Nem pra projetar um pro meu glorioso América ele presta. 
 
Fabiano Holanda, Brampton, Abril de 2005. 

Carlinhos Grilo e o freezer

Quando o meu compadre Bebeto Grilo casou, foi morar na fazenda da Família, no município de Espírito Santo, lá perto de Nova Cruz e Santo Antonio do Salto da Onça.

Bebeto vem a ser irmão de Carlinhos Grilo, de Osvaldo Grilo e de Liginha, e também filho de Seu Osvaldo e Dona Teresinha, família tão querida e amiga que mora na mesma rua que meu pai há quase 30 anos, e onde eu morei desde os 3 anos de idade até os 24, quando me mudei pro Canadá.

Como presente de casamento, Bebeto ganhou um freezer horizontal, daqueles usados nos bares pra estocar cerveja e refrigerante, presente de sua avó e que deveriam levar pra fazenda. Em vez de cerveja, Bebeto iria armazenar o leite tirado do gado da fazenda.

Paulo Frederico, também conhecido como Fredeca, se ofereceu pra levar o freezer em sua camionete S10, afinal tudo era motivo pra ir até a fazenda Jardim Santa Tereza pra uma boa cachaça e se tivesse sorte, ainda teriam a companhia do grande Chico Preto, trabalhador antigo da fazenda.

Fredeca, com a ajuda de Rui Barbosa, amarrou o freezer na caçamba da camionete e partiram contentes pra fazenda. Eis que o nó que foi dado não foi muito eficiente e a corda começou a se soltar aos poucos. Quando estavam na BR 101, já chegando em Goianinha, encontram uma ladeira e “responsavelmente”, Fredeca promete colar o ponteiro da camionete, somente pra dar mais um pouco de emoção à viagem.

Vinham com os vidros abertos, mas pra ganhar mais velocidade, resolveram fecha-los. Só a física explica, mas nessa hora, um vento canalizado conseguiu penetrar por baixo do frigobar, que fez com o mesmo fosse parar em plena rodovia.

Foi uma sorte tremenda que não vinha nenhum carro atrás deles, pois caso contrario, ambos estariam na cadeia até hoje pagando por homicídio culposo. O mais próximo de um assassinato foi um sujeito que vinha em uma bicicleta no acostamento.

O sujeito viu aquela geladeira vindo em sua direção, puxou pra um lado, a bicha foi pro mesmo lado, puxou pro outro, ela foi pro outro, mas ele, malandro, conseguiu driblar o objeto voador identificado, afinal, o nordestino é antes de tudo um forte.

Na hora que o carro foi aliviado no peso do frigobar, o motorista percebeu de imediato e olhou pro retrovisor pra ver o estrago. Avisou a Carlinhos e voltaram pra tentar recuperar o eletrodoméstico.

O que restou do freezer era uma massa destruída, um pouco maior do que um frigobar. Os dois recolheram o troço e colocaram na camionete outra vez, dessa vez amarrando bem firme o nó, como se fosse adiantar alguma coisa.

Chegando na fazenda, o Seu Osvaldo esperava por eles na varanda da casa, ansioso pra ver o freezer funcionando. Quando viu o estado em que se encontrava os restos mortais, não acreditou no que via e perguntou ao Rui Barbosa:

- “Carlinhos, esse freezer é Cônsul, não é?”

- “É papai, é Cônsul”, respondeu Carlinhos.

- “Você sabe onde é a fábrica da Cônsul?”, perguntou Seu Osvaldo.

- “Sei não, papai”, retrucou Carlinhos.

- “A fábrica da Cônsul é lá no Rio Grande do Sul. E como nós estamos no Rio Grande do Norte, trata-se de uma grande viagem. Mesmo com essa grande viagem, os freezers vêm amontoados em cima de um caminhão e nenhum cai, ta me entendendo, nenhum!! Como você não consegue trazer essa merda de Natal pra Espírito Santo sem derrubar, Carlinhos? Desapareça com essa merda da minha frente e traga ela inteira e funcionando aqui amanha. Mas dessa vez amarre essa porra com vontade!!!”

Carlinhos e Fred se segurando pra não rirem na frente de Seu Osvaldo, recolhem o ferro-velho e colocam novamente na camionete, com a ingrata missão de arranjarem um lugar pra consertarem aquele amontoado de ferro.

Fabiano Holanda, Brampton, Abril de 2005.

Reputação

Meu amigo Hindenberg Dutra me disse certa vez, em mesa de bar na saudosa Picanha do Dudé, na avenida Xavier da Silveira, em Morro Branco : ...